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Democracias Elásticas e Globalização

Chan Heng Chee

Markets & Democracy

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
As Raízes da Democracia Moderna
Democracias Elásticas e Globalização
As Raízes do Capitalismo Moderno
Marketização sem
Democratização na China
Livre Mercado e Democracia:
A Experiência Cubana
Democracia, Livre Iniciativa e Confiança
Economia de Mercado
sem Democracia no Golfo
Democracia e Capitalismo:
A Separação dos Gêmeos
Efeitos do Conflito Étnico
Sobre Democracia e Desenvolvimento:
Desafiando Extremos
Mercados mais Livres Levarão a um Governo
mais Democrático na Rússia
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Bibliografia e Filmografia
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MAIS COBERTURA
Democracia no Mundo
 

Singapore prospered in textile and other industries before moving toward democracy.
Cingapura prosperou na indústria têxtil e em outras antes de rumar em direção à democracia (Wong Maye-e/© AP Images)

Os países possuem graus variados de liberdade e democracia, de acordo com Chan Heng Chee, embaixadora de Cingapura nos Estados Unidos. Mercados abertos são necessários, mas não suficientes para a democracia. Com exceção da Índia, experiências recentes sugerem que os mercados abertos precedem a democracia, diz ela. Este ensaio foi adaptado a partir de apresentação feita em 18 de setembro de 2007, na Faculdade de William e Mary, em Williamsburg, na Virgínia.

A democracia anglo-americana baseia-se no modelo parlamentar do Reino Unido ou na separação de poderes do sistema político americano. Seu funcionamento correto pressupõe a existência de liberdade de expressão, liberdade de reunião, eleições livres e Estado de Direito. Qualquer país que se autodenomine uma democracia deve ser fiel a esses elementos.

Mas, ao redor do mundo, a democracia é elástica. Pode haver mais ou menos democracia, e pode haver graus maiores ou menores de liberdade. Malásia e Cingapura são menos democráticas que Japão e Coréia do Sul, mas são mais democráticas que Tailândia e Egito.

Minha opinião é que os mercados são necessários, mas não suficientes para a democracia. Nunca se viu um país democrático sem algum grau de abertura de mercado, e nunca se viu um país totalmente fechado para o mundo exterior que não fosse também autoritário ou totalitário. A Birmânia (Mianmar) quase não tem mercados e nenhuma democracia. A Coréia do Norte não tem nem mercados e nem democracia.

O que vem primeiro, mercados ou democracia? Qual é ou deveria ser a ordem?

Os Quatro Tigres

Observando os desdobramentos políticos na Ãsia, eu diria que os mercados são anteriores à democracia. Os quatro tigres Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura eram sistemas autoritários e tornaram-se mais abertos com a adoção de uma economia de mercado voltada para exportação. Todos eles obtiveram grande sucesso econômico, chegando a um crescimento médio de 8% a 9% ao ano após quase duas décadas.

A entrada em um mundo de mercados requer disciplina, Estado de Direito, transparência e acesso à informação. Essas mudanças fazem com que uma classe média próspera sirva como base sólida para uma democracia estável. Os países que abraçam a economia mundial também abraçam a globalização, o que leva à democratização e ao equilíbrio.

Compare os caminhos da Rússia e da China. A União Soviética, com Mikhail Gorbachev, escolheu a glasnost (abertura) antes da perestroika (reestruturação econômica), acelerando o colapso soviético. Mas hoje a Rússia tornou-se mais centralizada, e os Estados Unidos estão pouco à vontade com esse afastamento da democracia.

China's economic system is fast evolving. Will its political system change too?
O sistema econômico da China está em rápido desenvolvimento. O sistema político também mudará? (Elizabeth Dalziel/© AP Images)

A China escolheu a perestroika primeiro. Desde 1978, a China tem passado por um crescimento econômico empolgante. A classe média está crescendo, a internet está fazendo barulho e as liberdades sociais são permitidas. Pode-se viajar ao exterior, e o fluxo de idéias corre junto com o investimento estrangeiro direto. Creio que o sistema político chinês irá mudar para acompanhar o sistema econômico em rápida evolução. A concorrência exige isto. A democracia chinesa pode não se assemelhar à anglo-americana, mas eleições, liberdade de expressão e capacidade de responder aos anseios do povo virão.

A Índia é o país da Ãsia onde a democracia veio antes da abertura dos mercados. Agora a Índia está abrindo seus mercados e participando da economia mundial na medida certa. Eles terão seu boom. A Índia pode ser a rara exceção onde a democracia se estabeleceu com sucesso antes dos mercados.

O papel dos EUA

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e seus aliados europeus têm se empenhado em estabelecer um sistema comercial global aberto e imparcial e um sistema estável de câmbio. Os acordos internacionais resultaram em enorme crescimento do comércio e das atividades bancárias e financeiras no mundo inteiro. Eles permitem que países recém-independentes e soberanos que aceitaram esse sistema desenvolvam-se e prosperem sem ter de pensar em recorrer a conflitos para atingir metas econômicas.

Junto com os mercados e comércio abertos, os Estados Unidos lideraram a promoção da democracia. Para que os países aceitassem e tivessem sucesso com a experiência democrática, os mercados abertos eram vistos como essenciais. Os Estados Unidos mantiveram seus mercados abertos enquanto exportavam mercados de capitais e tecnologia. Na Ãsia, quando pensamos nos Estados Unidos, pensamos em democracia e em mercados livres.

Desde a Guerra Fria, os Estados Unidos e a Europa começaram a promover a democracia e os direitos humanos junto com a desregulamentação econômica em regimes autoritários e totalitários. Foi o Consenso de Washington. Na Ãsia, a promoção agressiva desse consenso está associada à aceleração e ao agravamento da crise financeira asiática de 1997.

Creio que os Estados Unidos ainda têm interesse em promover a democracia. Mas, paradoxalmente, os Estados Unidos estão se tornando protecionistas. Se os Estados Unidos querem ver o florescimento da democracia, não podem fechar seus mercados. As novas democracias serão asfixiadas se impedidas de funcionar e prosperar por meio da produtividade e das regras globalmente estabelecidas do jogo.

Quando estudantes chineses se opuseram às autoridades em Tiananmen, eles erigiram a Estátua da Liberdade como ícone. Isso porque os Estados Unidos apóiam a independência e a liberdade. É isso que exportam. Se os Estados Unidos se tornarem protecionistas, me pergunto qual ícone ofereceriam como exemplo? Não pode ser essa a imagem que os Estados Unidos querem ter.

Markets & Democracy

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.