Democracia e Capitalismo:
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Os historiadores hoje são tentados a escrever a história das transições pós-comunistas na Europa Central e Oriental como sendo a história de uma atração irresistível entre a democracia e o capitalismo. Mas há 20 anos, muitos temiam que essa pudesse ser uma história de horror. Embora os teóricos políticos tendessem a concordar que democracia e capitalismo são parceiros naturais e que livre mercado e políticas competitivas fortalecem um ao outro no longo prazo, havia o medo de que as reformas política e econômica necessárias à transformação das sociedades do Leste Europeu atrapalhassem uma a outra. Como dar às pessoas o poder de fazer o que quiserem e então esperar que escolham políticas cujas conseqüências iniciais sejam aumento de preços, desemprego e desigualdade social esse era o dilema das transições pós-comunistas. Na opinião do sociólogo alemão Claus Offe, "uma economia de mercado é posta em movimento apenas sob condições pré-democráticas". E Jadwiga Staniskis, importante cientista política polonesa e ativista do Solidariedade, estava convencida de que "enquanto as bases econômicas para uma sociedade civil genuína não existirem, a mobilização política em massa da população é possível apenas em termos nacionalistas ou fundamentalistas". Resumindo, a Europa Central era vista como fadada a escolher entre o socialismo de mercado e o capitalismo autoritário. Felizmente, algumas vezes, o que não funciona na teoria, funciona na prática. A Europa Central e Oriental tiveram sucesso em uma transição simultânea para a economia de mercado e para a democracia. Foi uma mistura mágica de idéias, emoções, circunstâncias e liderança que possibilitou o sucesso. Apoio para as mudanças econômicas O legado comunista foi o aliado natural dos reformistas na transformação das sociedades da Europa Central. As pessoas foram pacientes e apoiaram reformas porque estavam impacientes para se verem livres do comunismo. O começo dos anos 1990 foi um momento surreal em que os sindicatos trabalhistas defendiam cortes de empregos e ex-partidos comunistas ansiavam por privatizar a economia. Havia raiva contra o capitalismo, mas não havia um partido e nem mesmo uma linguagem política capazes de mobilizar os que saíssem perdendo na transição. O comunismo havia corroído a capacidade da sociedade de realizar ações coletivas junto às classes. Qualquer crítica ao mercado era igualada a uma nostalgia pelo comunismo. Tanto as contra-elites anticomunistas, por suas ideologias, quanto as elites ex-comunistas, por seus interesses, apoiaram as mudanças econômicas. O desejo popular por um "retorno à Europa", fortalecido pela atração da União Européia e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), permitiu às sociedades reconciliar os instintos redistributivos da democracia com a necessidade de uma visão de longo prazo e de paciência como pré-condições para o sucesso econômico. Funcionou de modo diferente nos diferentes países, mas a integração euro-atlântica garantiu a continuação da reforma econômica e serviu de proteção contra reações políticas. O sucesso das transições pós-comunistas levou a nova geração de teóricos políticos a repensar as chances do surgimento simultâneo da democracia e do capitalismo. O que havia sido visto como sorte histórica passou a ser considerado lei natural. A democracia e o capitalismo não eram mais vistos como um casal feliz, mas como gêmeos idênticos.
Ceticismo em relação à democracia A tendência era ignorar as tensões entre a democracia e o capitalismo. Mas é suficiente observar a experiência de países como Rússia, China ou Venezuela para se tornar cético quanto à tendência natural do capitalismo de conduzir à democracia e à tendência natural da democracia de apoiar o capitalismo. A experiência da Europa Central também deve ser repensada. Um ano após as democracias da Europa Central terem se tornado membros da União Européia, a região foi abalada pelo surgimento do populismo e do nacionalismo. A insatisfação com a democracia está crescendo e, de acordo com a pesquisa Voz do Povo 2006, a Europa Central, ao contrário de todas as expectativas, é a região do mundo onde os cidadãos são mais céticos em relação aos méritos da democracia. Em toda a região, a população desconfia de políticos e partidos políticos. A classe política é vista como corrupta e defensora apenas dos próprios interesses. A transição foi um sucesso absoluto para a Europa Central, mas levou à rápida estratificação social, prejudicando gravemente a muitos, enquanto beneficiava uns poucos privilegiados. Muitas vidas foram destruídas e muitas esperanças traídas à época da transição. O fato de os maiores vencedores da transição terem sido os membros mais instruídos e melhor relacionados do antigo regime não ajudou a torná-lo aceitável. As democracias pós-comunistas são hoje vistas como um triunfo, não do igualitarismo, mas das elites comunistas antiigualitárias e das contra-elites anticomunistas. As restrições externas impostas aos países em processo de adesão à União Européia foram essenciais para o sucesso das reformas, mas contribuíram para a percepção de que eram democracias sem escolhas reais. Há vinte anos, os teóricos temiam que as novas democracias emergentes não tomassem gosto pelo capitalismo. O que se vê agora é que a maioria das pessoas na Europa Central confia mais no mercado do que nas urnas.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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