Sobre Democracia e Desenvolvimento: Desafiando Extremos, eJournal USA, June 2008
eJournal USA

Efeitos do Conflito Étnico

Doh C. Shin e Christopher D. Raymond

Markets & Democracy

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
As Raízes da Democracia Moderna
Democracias Elásticas e Globalização
As Raízes do Capitalismo Moderno
Marketização sem
Democratização na China
Livre Mercado e Democracia:
A Experiência Cubana
Democracia, Livre Iniciativa e Confiança
Economia de Mercado
sem Democracia no Golfo
Democracia e Capitalismo:
A Separação dos Gêmeos
Efeitos do Conflito Étnico
Sobre Democracia e Desenvolvimento:
Desafiando Extremos
Mercados mais Livres Levarão a um Governo
mais Democrático na Rússia
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Bibliografia e Filmografia
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MAIS COBERTURA
Democracia no Mundo
 

Violence erupted in Kenya, a democratic country torn by ethnic tensions.
Explosão de violência no Quênia, país democrático dividido por tensões étnicas (Bernat Armangue/© AP Images)

Pesquisas demonstram que reformas políticas e econômicas reduzem os conflitos étnicos, mesmo em países onde uma minoria étnica domine a economia, segundo Doh C. Shin e Christopher D. Raymond.Shin é professor de Ciência Política e Raymond é assistente de ensino de pós-graduação, ambos na Universidade de Missouri em Colúmbia, Missouri.

No começo de 2007, o Quênia foi considerado uma das democracias mais bem-sucedidas da África; no fim do mesmo ano, o país estava imerso no caos. A violência étnica eclodiu no país após o presidente e candidato à reeleição, Muwai Kibaki, ser declarado vencedor na disputadíssima eleição presidencial realizada em 27 de dezembro de 2007.

O grupo étnico Luo, que apóia a candidata derrotada Raila Odinga, há tempos se ressente da riqueza e do poder dos Kikuyu, grupo étnico de Kibaki. Muitos Luos acusaram Kibaki e os Kikuyu de envolvimento em fraude eleitoral, e nos meses seguintes à eleição seus violentos protestos levaram à morte cerca de 1.500 pessoas e ao deslocamento de outras 250 mil.

Essa explosão de violência étnica logo após uma eleição livre e competitiva em uma das democracias mais bem-sucedidas da África reacendeu o debate sobre se certos tipos de países em desenvolvimento deveriam procurar o estabelecimento simultâneo de democracia e capitalismo.

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Há décadas a sabedoria convencional diz que democracia e livre mercado trabalham em conjunto para promover a prosperidade econômica e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Pelo menos um artigo de pesquisa argumentou que combinar livre mercado com democracia em países onde uma minoria étnica é economicamente dominante pode produzir uma situação altamente explosiva, uma vez que livre mercado e democracia, muitas vezes, favorecem grupos étnicos diferentes: o livre mercado favorece uma minoria, ao passo que a democracia favorece a maioria.

Em países como Indonésia e Zimbábue, onde uma pequena minoria étnica domina o mercado com uma quantidade desproporcional de recursos econômicos, por exemplo, estabelecer democracia e dar voz à maioria antes silenciada pode estimular manifestações de ressentimento e ódio étnico contra os ricos. A explosão de violência étnica que se segue, por sua vez, provavelmente prejudicará, se não interromper, o desenvolvimento da democracia e do capitalismo.

Elaboração de teste

Decidimos testar a validade da afirmação que tenta construir democracias capitalistas em sociedades etnicamente divididas, em especial naquelas cujo mercado estava dominado por uma minoria e fracassaram devido às explosões de violência política.

Nossos testes usaram dois conjuntos de dados multinacionais. A partir dos dados de diversidade étnica coletados pelo economista Alberto Alesina e seus colegas de Harvad, dividimos 125 países, todos em vários níveis de transições política e econômica, em três categorias baseadas em sua composição étnica. Essas categorias são: países cujo mercado não é dominado por uma minoria e com divisão étnica baixa (42); países cujo mercado não é dominado por uma minoria e com divisão étnica alta (47); e todos os países cujo mercado é dominado por uma minoria (36).

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Usando dados do Índice de Transformação Bertelsmann (BTI), comparamos os níveis de conflito social dos países e seus níveis de realização com relação às reformas democráticas e econômicas. O BTI avalia a situação política e econômica de 125 países em desenvolvimento e transição em uma escala de 11 pontos, variando de 0, mais baixo a 10, mais alto. Para facilitar a interpretação, agrupamos as pontuações em dois níveis, baixo (0-5) e alto (6-10), e a seguir calculamos as porcentagens de países que se encaixavam em cada nível.

A Figura 1 mostra os níveis médios de conflito social vividos pelas três categorias de países segundo a composição étnica. Os níveis de conflito são mais altos (5,3) em países com mercados dominados por uma minoria, seguidos de países com alta divisão étnica (4,9) e países com baixa divisão étnica (3,2).

Como demonstra a Figura 2, entre os países que apresentam alto nível de conflito (6 ou mais na escala BTI), 44% deles têm o mercado dominado por uma minoria, 26% têm alta divisão étnica e 12%, baixa divisão étnica. Países com mercados dominados por uma minoria convivem com um nível significativamente mais alto de conflito ou violência sociais do que outros países.

A Figura 1 também mostra os níveis médios de reformas políticas e de livre mercado implementadas nas três categorias de países. Países com baixa divisão étnica apresentam o maior índice de realização de reformas políticas e econômicas combinadas (6,9), seguidos de países com mercados dominados por uma minoria (5,4) e países com alta divisão étnica (5,1). Entre os países com alto nível de reformas políticas e econômicas (6 ou mais na escala BTI), 69% deles são países com baixa divisão étnica, 39% são países com mercado dominado por uma minoria e 30%, países com alta divisão étnica (veja Figura 2).

Resultados

Esses resultados indicam que o alto nível de conflito social e violência nas sociedades etnicamente divididas dificulta a realização de reformas políticas e econômicas. Contudo, ao contrário de outras pesquisas, a existência de minorias ricas de maneira desproporcional nessas sociedades não dificulta necessariamente a implementação dessas reformas.

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Como a realização de reformas políticas e de livre mercado afetam o conflito étnico? Para explorar essa questão, dividimos os 125 países em transição em quatro grupos, com base nos níveis de realização de reformas, ou seja, os que não realizaram nenhuma reforma, os que realizaram uma das reformas e os que realizaram ambas as reformas. Os quatro padrões resultantes são: países sem reforma política nem econômica (32 países); países com reforma econômica (17); países com reforma política (13); e países com reformas política e econômica (63). O quarto padrão refere-se a países que implementaram a democratização e a marketização em paralelo. De acordo com outro acadêmico, esses são os países nos quais grupos étnicos divididos por linhas econômicas provavelmente se envolveriam em conflitos violentos.

Para cada padrão de reforma, a Figura 3 mostra a porcentagem de países que vivenciam alto nível de conflito social. Ao contrário do que indicam outras pesquisas, a incidência de conflito social é menor (10%) entre países que buscaram o desenvolvimento paralelo com êxito e mais alta (48%) entre países que não implementaram nenhuma das reformas. No nível intermediário estão os países que implementaram somente uma das reformas; 22% dos países com reforma política e 14% com reforma econômica vivenciam altos níveis de conflito social.

Os resultados indicam que à medida que os países transformam seus sistemas políticos e econômicos em democracias capitalistas bem-sucedidas, diminuem as chances de vivenciarem altos níveis de conflito social. Esses resultados são verdadeiros mesmo entre países com mercados dominados por uma minoria.

Nossa análise simples sugere que divisões étnicas de fato promovem conflito social e violência e, portanto, podem dificultar a transformação dos sistemas políticos e econômicos. A transformação bem-sucedida de ambos os sistemas, contudo, é um modo eficaz de reduzir os conflitos sociais e de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, mesmo em sociedades etnicamente divididas com mercados dominados por minorias.

Markets & Democracy

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.