eJournal USA

Law & Order Reflete a Vida Real

Entrevista com Richard Sweren

Anatomy of a Jury Trial

Sobre Esta Edição
Os Júris Americanos
O Papel do Júri
Glossário de Termos e Fluxograma sobre Tribunais de Júri
O Papel do Juiz
Ponto-Contraponto Julgamentos pelos Tribunais do Júri: Prós
Ponto-Contraponto Julgamos pelos Tribunais do Júri: Contras
O Papel do Promotor Público
Sistemas de Júri no Mundo
O Papel do Advogado de Defesa
Lapidando as Jóias da Justiça
O Papel da Testemunha
Algumas Diferenças entre os Estados
O Papel do Jornalista
Law & Order Reflete a Vida Real
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Anatomy of a Jury Trial
Retratados em um episódio de 2008 intitulado “Challenged”, da esquerda para a direita estão Anthony Anderson como o detetive Kevin Bernard, S. Epatha Merkerson como a tenente Anita Van Buren e Jeremy Sisto como o detetive Cyrus Lupo (© NBC Universal Photo Bank)

A série Law & Order atrai há 19 anos os fãs americanos de TV ao refletir a complexidade, algumas vezes angustiante, do sistema de justiça criminal da vida real. Filmado inteiramente em locações em Nova York, cada episódio com cerca de uma hora de duração investiga um crime, em geral um assassinato, primeiro da perspectiva da polícia investigando o caso e fazendo a prisão e depois dos promotores, que propõem uma transação penal ou tentam convencer o júri da culpa da pessoa acusada. Na maioria das vezes, os episódios descrevem o árduo trabalho de construção do caso quando, por exemplo, ocorre de um juiz poder suprimir provas policiais por uma tecnicalidade jurídica. Richard Sweren trabalhou quinze anos como advogado criminalista antes de se tornar roteirista e produtor de Law & Order. Ele falou a Bruce Odessey, editor-gerente da eJournal USA.

Pergunta: As cenas de julgamento são um dos componentes principais do cinema e da televisão. Há uma nova versão russa de 12 Homens e uma Sentença, filme clássico americano dos anos 1950 sobre um julgamento de assassinato por um júri. Por que há tantas séries de TV e tantos filmes de julgamento?

Sweren: É um lugar natural de drama e conflito. A vida das pessoas é exposta. É um ambiente bem propício para contar histórias dramáticas.

P: A série Law & Order está sendo exibida na TV americana há 19 anos. É popular no exterior, inclusive em países sem julgamento por tribunal de júri, talvez mesmo em países sem o Estado de Direito. Qual é o segredo da atração do programa?

Sweren: Ele é popular porque conta uma história completa em 45 minutos. Não é preciso assistir o episódio anterior ou acompanhar o programa por um ano ou cinco anos — você simplesmente “mergulha” nele. Também não é necessário nenhum conhecimento prévio na hora de vê-lo.

Procuramos escolher crimes interessantes, e as pessoas são fascinadas por crimes, policiais e ladrões. O crime é algo que pode ser traduzido para qualquer língua.

P: Na condição de roteirista, como consegue conferir autenticidade jurídica na tela?

Sweren: Fui advogado criminalista durante praticante 15 anos antes de exercer essa função. Na equipe há vários advogados que agora são escritores, e esperamos descrever as coisas de forma bastante fiel. Obviamente, precisamos de atalhos criativos para que o julgamento passe a impressão de que está sendo realizado em 10 minutos. Por exemplo, algumas vezes levamos um acusado de assassinato ao escritório do juiz para um procedimento que, na vida real, somente ocorreria na sala de audiência.

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Retratados em um episódio de 2005 intitulado “Ghosts”, da esquerda para a direita estão Dennis Farina como o detetive Joe Fontana e Jesse L. Martin como o detetive Ed Green (© NBC Universal Photo Bank)

P: O senhor acha que o uso da licença criativa pode distorcer a visão das pessoas sobre o sistema judiciário?

Sweren: Acredito que não. De certa forma acho que, na realidade, o programa mostra para as pessoas como é o funcionamento do sistema de justiça criminal. As pessoas falam comigo sobre audiências de supressão — quando o juiz exclui as evidências contra o acusado(a) obtidas por meio de violação da Constituição dos [EUA]  — coisas que ouviram no Law & Order e que até então desconheciam. Acho que essa série trata o sistema de justiça criminal de forma mais sofisticada do que qualquer outra antes dela, pelo que me consta.

P: Quando se assiste ao programa ao longo do tempo, você recebe a repetida mensagem de que as questões éticas e as questões morais envolvidas na solução de um caso são geralmente complexas e exigem escolhas difíceis. Até que ponto essa ideia é parte da fórmula da série?

Sweren: O que gostaríamos de destacar é que nos bons episódios de Law & Order, a primeira parte da investigação da polícia concentra-se no mistério do crime e a segunda parte no mistério moral. A primeira metade do programa é geralmente um “quem fez isso” e a segunda metade um “por que fez isso”, que motivarão nossos promotores a aferir os diferentes pontos de vista sobre o que constitui a Justiça em uma determinada situação. Gostamos de escolher assuntos que não são decisivos, que têm algumas áreas cinzas, de modo que nossos personagens possam vir a assumir algumas posições interessantes.

P: Algumas vezes, no programa, a justiça não triunfa no final. Frequentemente há algum tipo de acordo. Às vezes o criminoso escapa até mesmo do castigo. Por que a série se afasta dessa tradição da cultura pop?

Sweren: No mundo real, inocentes são condenados, culpados saem ilesos e a grande maioria dos casos é resolvida por meio de transação penal. O objetivo do seriado não é fazer os telespectadores se sentirem bem e satisfeitos no final de cada episódio — a justiça nem sempre triunfa, o cara mau nem sempre é punido —, mas fazê-los refletir sobre a realidade da vida. No episódio “Crimebusters”, o assassino de um bebê em um incêndio criminoso não foi condenado porque a acusação não conseguiu reunir provas suficientes para sustentar o caso contra nenhum dos dois suspeitos igualmente plausíveis.

P: Na sua condição de advogado, diria que o tribunal do júri na maioria das vezes chega a veredicto para fazer justiça?

Sweren: Isso quer dizer mais de 50%? Sim.

P: Por que os júris não chegam a conclusões justas com mais frequência?

Sweren: Acho que há uma tática entre as partes. Eu penso que existe o perjúrio; as pessoas realmente mentem no tribunal. As regras não são perfeitas, os juízes e advogados não são perfeitos, os júris não são perfeitos. Não é um processo científico. É o melhor que podemos fazer. Mas tem suas falhas.

P: A polícia e os promotores são geralmente mostrados no programa sob uma luz positiva. São alguma vez mostrados sob uma luz negativa?

Sweren: Nossos personagens farão de vez em quando alguma coisa que está em uma área cinza. Houve programas nos quais outros policiais, não nossos personagens que estão no elenco, fizeram coisas ruins. Também processamos policiais. Não é sempre sobre o quão maravilhosa é a polícia. Em um episódio, “Black, White and Blue”, policiais de uniforme transportaram e abandonaram um jovem em uma área dominada pelo crime como castigo por algum crime de menor gravidade, e lá ele foi assassinado.

P: Quando o senhor escreve um programa, que tipo de expectador pretende alcançar, e que nível de conhecimento jurídico espera da audiência?

Sweren: A audiência que temos em mente é o expectador adulto americano médio. Procuramos não simplificar demais a série. Esperamos que as pessoas sejam capazes de seguir o básico da justiça criminal e dos julgamentos. Gostamos de pensar que atraímos as pessoas com um programa de nível bastante elevado, considerando o que existe na televisão.

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Retratada em um episódio de 1994 intitulado “Virtue” está Regina Taylor como Sarah Masllin (© NBC Universal Photo Bank)

P: O que outros advogados, policiais e juízes falam sobre o programa?

Sweren: Recebemos cartas de vez em quando: aquilo nunca aconteceria, ou isso nunca aconteceria. Às vezes recebemos cartas de advogados dizendo, “Uau, essa é uma grande ideia! Posso tentar isso no meu caso”. Mas provavelmente deve ocorrer o mesmo com a maioria das profissões. Se um médico assiste uma série médica, é fácil distinguir os atalhos e as licenças criativas. Acho que as pessoas na justiça criminal percebem que trabalhamos arduamente para dar autenticidade às coisas, mas há ocasiões em que pedimos licença. E elas entendem que não se trata de um documentário — é um programa de televisão.

P: Houve mudança no enfoque da série com o passar dos anos?

Sweren: Na realidade não. Em sua maior parte ainda são crimes tirados das manchetes, com programas baseados de alguma forma em histórias verdadeiras. Isso é o que temos feito durante 19 anos.

P: O elenco inteiro do programa foi mudado várias vezes. Isso torna-o bastante diferente dos outros seriados de TV, construídos em volta de um astro. Como se explica o sucesso de Law & Order com modelo tão diferente?

Sweren: O programa é sobre a história sendo contada, não tanto sobre os personagens. Tudo gira em torno do crime e do processo penal. De modo geral, não levamos os personagens para casa; não sabemos o que fazem quando não estão trabalhando. A única arena na qual conseguimos conhecê-los é a forma como estão tratando o caso específico no qual estão trabalhando naquela semana, e cada personagem se desenvolve a partir da maneira como responde ao caso em questão.

P: Nessa temporada temos dois detetives mais jovens em contraponto aos detetives mais velhos de programas anteriores. O que há por trás da mudança?

Sweren: Após 19 anos, os personagens envelhecem. É sempre agradável ter novos rostos e atrair uma audiência mais jovem que pode não estar tão familiarizada com o programa como nossos fãs de muito tempo.

P: O uso de uma fórmula é uma força ou uma fraqueza para o programa?

Sweren: As duas coisas. É óbvio que, como roteirista, gostaria de poder escrever coisas que não se pautem tanto por fórmulas, mas isso exige um tipo de precisão que é realmente difícil de conseguir. A montagem de um desses programas é, de fato, muito complicada; é uma habilidade que tem de ser dominada.

P: Como ex-advogado praticante e como roteirista do programa, qual é sua mensagem para outros países que não usam júris e que talvez nem mesmo tenham o Estado de Direito?

Sweren: Nossa polícia e nossos promotores são sinceros em sua busca por justiça. Eles são humanos e cometem erros, e coisas pessoais aparecem no caminho. O sistema não é perfeito. Talvez outros sistemas funcionem melhor em outros países, mas eu acredito que o nosso funciona bem nos Estados Unidos.

Anatomy of a Jury Trial

As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.