eJournal USA


Eleanor Roosevelt: Perfil

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
A Declaração Universal dos Direitos Humanos aos Sessenta
Eleanor Roosevelt: Perfil
Declaração Universal dos Direitos Humanos:Lançamento e Manutenção de uma Revolução
John Humphrey: Perfil
Quem Escreveu a Declaração Universal dos Direitos Humanos?
Charles Habib Malik: Perfil
Invenção dos Direitos Humanos: Entendimento sob o Ponto de Vista da Empatia
Peng Chung Chang: Perfil
Relatividade e a Declaração Universal
René Cassin: Perfil
Recursos Adicionais
Download versão Adobe Acrobat (PDF)
 

Eleanor Roosevelt. © AP Images
Eleanor Roosevelt, a aguerrida primeira-dama dos Estados Unidos e primeira presidente da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em retrato de 1957 (© AP Images)

Eleanor Roosevelt teve muitos papéis em sua vida, mas considerou o tempo que passou na Comissão de Direitos Humanos da ONU seu trabalho mais importante.

Essa nova-iorquina típica nasceu em 1884, filha de uma família importante que prezava o serviço comunitário. Seus pais morreram antes que completasse 10 anos de idade, e ela foi criada por parentes.

Por achar a vida social sufocante, passou a dar aulas de “calistenia e danças da moda” em uma casa de assistência social de Manhattan. Esse tipo de casa era um novo método de reforma social segundo o qual aqueles que se dedicavam aos pobres das áreas urbanas deveriam conviver e trabalhar diretamente com eles. Ela se casou com um primo distante, Franklin Delano Roosevelt, estrela política em ascensão, em 1905. Tiveram seis filhos juntos.

Ao recomeçar seu trabalho como voluntária após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, Eleanor Roosevelt visitou soldados feridos e trabalhou em uma cantina da Cruz Vermelha. “A sensação de ser útil foi talvez a maior alegria que já tive na vida”, disse mais tarde.

Em 1920, Roosevelt foi vitimado pela poliomielite, doença que o obrigaria a viver em uma cadeira de rodas e que, por algum tempo, pareceu o prenúncio do fim de sua carreira política. Eleanor viu-se dividida entre seu amor pelo voluntariado e a necessidade de ajudar o marido a dar continuidade à sua carreira política. Ela representou a Liga Sindical das Mulheres e a Liga Nacional de Consumidores e nelas trabalhou. Ao trabalhar no escritório de assuntos legislativos da Liga das Mulheres Eleitoras, passou a ler os Registros do Congresso regularmente. Mas também ajudou na recuperação do marido. Franklin Roosevelt retomou a carreira política, sendo eleito primeiro, em 1928, governador do estado de Nova York, na época o mais populoso e politicamente mais importante da nação. Em seguida, em 1932 — no auge da Grande Depressão — Franklin Roosevelt foi escolhido para a Presidência dos EUA.

A Constituição dos Estados Unidos não prevê nenhum cargo específico para a “primeira-dama” do país. Muitas esposas de presidentes costumavam exercer apenas uma função cerimonial. Mas Eleanor Roosevelt forjou habilmente para si própria o papel de conselheira política de confiança. Foi defensora dos direitos da mulher, dos pobres e das minorias. Transformou-se nos olhos e ouvidos do presidente, viajando pelo país e relatando na volta o que havia observado, especialmente no que diz respeito à discriminação racial no Sul. Muitas vezes pressionava Roosevelt de forma incisiva para que mudasse sua política com base em suas observações. A historiadora presidencial Doris Kearns Goodwin escreveu o seguinte sobre Eleanor: “Citando estatísticas para confirmar sua versão dos fatos, ela interrompia o marido a qualquer momento, atropelando sua ‘hora do aperitivo’, quando queria apenas relaxar, interrogando-o na hora do jantar e entregando memorandos para que lesse ainda na mesma noite.” E funcionava. Franklin Roosevelt assinou uma série de atos do Executivo proibindo a discriminação racial na administração dos projetos de ajuda econômica do governo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Eleanor Roosevelt visitou a Inglaterra e o Pacífico Sul para levantar o moral dos soldados americanos e manter fortes os laços com os Aliados. Com a morte do marido em 1945, deixou a Casa Branca, mas deu continuidade a seu ativismo. Mais tarde, em 1945, o novo presidente Harry S. Truman nomeou Eleanor, a quem chamou “primeira-dama do mundo”, membro da delegação dos EUA nas Nações Unidas.

Roosevelt ladeling soup at stove
Eleanor Roosevelt em ação em uma cozinha comunitária de Nova York na época da Depressão, em 1932 (© AP Images)

Eleanor foi presidente da Comissão de Direitos Humanos da ONU, tendo a incumbência de apresentar propostas, recomendações e relatórios sobre liberdades civis, a situação da mulher, liberdade de informação, prevenção contra a discriminação e proteção das minorias. Contudo, antes de mais nada, a agenda da comissão previa a formulação de uma declaração internacional de direitos.

Assegurar que o projeto fosse levado a cabo não seria um feito fácil. Misturar o debate filosófico com o processo político era perigoso no cenário internacional — todos desejavam respeitar a neutralidade do documento ao mesmo tempo que integravam a ele sua própria visão dos direitos humanos. Mas Eleanor Roosevelt era decididamente uma mulher destemida. “Fazemos nossa própria história”, disse. “É mais inteligente ter esperança do que não ter, tentar do que não tentar. Nada é alcançado por alguém que afirma que é impossível.”

A comissão, e Eleanor em especial, começaram a receber uma avalanche de cartas que detalhavam abusos aos direitos humanos e pediam ajuda. Isso tornou a tarefa da comissão ainda mais urgente. Eleanor mantinha o grupo atrelado a uma agenda apertada, por vezes trabalhando até tarde da noite. Os delegados sabiam o quanto ela trabalhava e esperava que os outros fizessem o mesmo.

Em dezembro de 1947, a Comissão de Direitos Humanos finalizou os retoques ao texto preliminar da declaração dos direitos humanos. Mas era difícil fazê-lo passar pelo Terceiro Comitê da Assembléia Geral das Nações Unidas (responsável pelos assuntos sociais, humanitários e culturais). “Trabalhamos durante dois meses, muitas vezes até tarde da noite, discutindo cada palavra da declaração preliminar vezes seguidas antes que o Terceiro Comitê aprovasse seu envio à Assembléia Geral”, escreveu Eleanor em suas memórias.

Em dezembro de 1948, a apenas uma semana do encerramento da sessão anual da Assembléia Geral da ONU, os delegados ainda debatiam e apresentavam emendas ao texto preliminar com veemência. Finalmente, em 9 de dezembro, Eleanor Roosevelt dirigiu-se à Assembléia Geral, enfatizando que “estamos agora no limiar de um grande acontecimento, na vida tanto das Nações Unidas quanto da própria humanidade”. E, faltando apenas quatro minutos para a meia-noite de 10 de dezembro, o presidente da Assembléia Geral, Herb Evatt, da Austrália, convocou a votação. Quarenta e oito nações votaram a favor da declaração, nenhuma votou contra e oito se abstiveram (dois países faltaram, não votando nem se abstendo). A Declaração Universal dos Direitos Humanos fora aprovada. Eleanor Roosevelt foi ovacionada de pé pela Assembléia Geral.

Eleanor Roosevelt deixou as Nações Unidas em 1951, mas continuou escrevendo e dando palestras, além de participar ativamente da vida política do Partido Democrata até sua morte em 1962.

— Meghan Loftus