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A Própria História dos Estados Unidos

Entrevista com Ken Burns e Dayton Duncan

National Parks

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Significado Espiritual e Cultural dos Parques Nacionais
A Própria História dos Estados Unidos
As Jóias da Coroa: Galeria de fotografias sobre os parques nacionais americanos
Cenário e Ciência nos Parques Nacionais dos EUA
Parques Podem Mudar uma Nação
Oh, Ranger: Fazer Algo de Duradouro
Parques dos EUA: Cronologia
Lugares Especiais Unindo Todos os Americanos
Quando um Parque Não É um Parque
Guardas-Florestais e Guias Suíços
Oh, Ranger: O Apelo das Rochas
Clima de Mudança
Expulsando os Invasores
Oh, Ranger: O Local de Trabalho Mais Lindo do Mundo
Guardiões dos Monumentos Antigos
Patrimônio de Toda a Humanidade
Oh, Ranger: Nos Degraus onde Esteve Martin Luther King
Recursos Adicionais
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Lava flows from Kilauea, one of the active volcanoes at Hawai
Lava escorre do Kilauea, um dos vulcões ativos no Parque Nacional de Vulcões do Havaí. Os visitantes do parque podem ver evidências de 70 milhões de anos de vulcanismo, os processos que criaram ilhas que agora abrigam ecossistemas ímpares e uma cultura humana distinta. Sete zonas ecológicas existem na elevação que vai do nível do mar até quase 4.200 metros dentro do parque (David Jordan/ ©AP Images)

Ken Burns e Dayton Duncan formam uma equipe de cinema documentário atualmente nas fases finais de produção de um filme sobre os parques nacionais dos EUA, com 12 horas de duração. Eles conversaram com Alexandra Abboud da revista eJournal USA, enquanto estavam em Washington, D.C., para promover a pré-estréia do filme para funcionários do Serviço Nacional de Parques.

Ken Burns está entre os mais conhecidos documentaristas americanos, tendo produzido obras grandemente aclamadas, muitas delas centradas em eventos históricos. Seus filmes foram exibidos para grandes audiências pelo Serviço Público de Radiodifusão, rede nacional de televisão nos EUA. Seu filme The Civil War [A Guerra Civil] foi a série mais assistida na história da TV pública americana.

Dayton Duncan é escritor e cineasta com nove livros em seu currículo, inclusive Out West: A Journey Through Lewis & Clark"s America[Lá Fora no Oeste: Uma Viagem pelos Estados Unidos de Lewis & Clark] e Miles from Nowhere: In Search of the American Frontier [A Milhas de Lugar Nenhum: Em Busca da Fronteira Americana]. Colaborou com Burns nos filmes The Civil War, Baseball e Jazz.

Pergunta: Seus históricos envolvem a produção de filmes sobre temas de grande importância na história nacional e cultural dos Estados Unidos: The Civil War, Jazz, Lewis & Clark: The Journey of the Corps of Discovery [Lewis & Clark: A Viagem do Corpo da Descoberta]. Os parques são outro assunto de grande significado na história nacional?

Filmmakers Dayton Duncan (left) and Ken Burns in the editing room.
Os cineastas Dayton Duncan (à esquerda) e Ken Burns na sala de edição (Lee Marriner/© AP Images)

Burns: Sem dúvida. Ao escolher o tema de um filme, buscamos alguma entidade cujo todo seja maior que a soma das partes. Ele não pode deixar de refletir as contradições inerentes à história dos Estados Unidos e também o seu potencial. Acho que é esse tipo de enfoque que se faz presente no conjunto de nossa obra. Abordamos a questão do espaço: como nós cidadãos somos definidos por nossa relação com a terra nos Estados Unidos. Exploramos isso na história do Oeste, essa intersecção incrível onde todas essas culturas entram em choque. Exploramos esse tema em Lewis & Clark e em Horatio"s Drive [O Passeio de Carro de Horácio], filme sobre a primeira viagem de carro cross-country. E nos últimos seis anos temos nos dedicado à história dos parques nacionais, porque estamos convencidos de que a saga dos americanos voltados para a preservação dessa terra é a própria história dos Estados Unidos.

Duncan: A exemplo do beisebol e do jazz, o Sistema Nacional de Parques é uma invenção americana. Quando o Parque Nacional de Yellowstone foi preservado em 1872, essa foi a primeira vez na história da humanidade que um governo federal decidiu que uma grande extensão de terra, não um parque urbano ou jardins públicos, deveria ser protegida e mantida em perfeitas condições para as gerações futuras. Essa é uma idéia e uma invenção americana. Nosso filme procura seguir essa história desde o início. Como a idéia de liberdade, ela tornou-se um dos maiores produtos de exportação dos Estados Unidos. Não quero parecer demasiado chauvinista, mas tenho muito orgulho disso.

P: O sistema de parques tem sido chamado de a "melhor idéia dos Estados Unidos" porque representa a primeira decisão de uma nação de conservar a terra dessa maneira, tanto para o lazer público como para seu próprio bem. Vocês vêem o sistema como importante produto de exportação?

American conservationist John Muir
Monte McKinley, no Parque Nacional de Denali, no Alasca, é o pico mais alto da América do Norte (Getty Images/National Geographic)

Burns: Sem dúvida. Achamos que a idéia de liberdade, o verdadeiro amálgama desta nação, é realmente o que há de melhor. Mas se tiver de apontar qual foi a melhor idéia após a nossa formação, você pode ficar com os parques nacionais e sentir-se muito bem. O fato de haver quase 4 mil parques em praticamente 200 países deveria ser uma indicação do espetacular sucesso da idéia. E agora aqui sentados, conversando, nós, como cidadãos americanos, possuímos as cadeias de montanhas mais espetaculares, o canyon mais imponente da Terra, as árvores maiores, mais altas e mais antigas e este é um portfólio maravilhoso para se ter como cidadãos.

Duncan: É próprio da democracia que esses lugares especiais não se transformem em uma espécie de refúgio dos super-ricos ou das pessoas com títulos de nobreza. Esses lugares magníficos pertencem a todo o mundo. Eles são responsabilidade de todos e estão disponíveis para todos. Essa é uma definição de democracia aplicada à paisagem as árvores mais altas, as mais esplendorosas cachoeiras e o canyon mais imponente. Uma nação que foi capaz de tal ação é uma nação nascida da idéia de democracia.

Burns: Isso não teria sido possível sem o impulso democrático.

Duncan: É isso que celebramos em nosso filme.

P: Os parques, monumentos e sítios do Sistema Nacional de Parques revelam histórias sobre democracia, natureza, pré-história e, com relação à história nacional, momentos de glória e momentos de vergonha. Quais dessas várias histórias vocês pretendem usar no filme?

Burns:Nosso foco principal é a criação dos parques naturais, hoje em número de 58 em todo o país, e seguimos uma narrativa de grande complexidade e dramaticidade para contar a história de seu surgimento. Na maior parte, as pessoas são o tema: pessoas de origens as mais diversas que de certa forma obrigaram seu governo a tomar conhecimento de um lugar especial que queriam ver preservado e a cuja causa muitas vezes dedicaram suas vidas.

Duncan: Basta passar por uma pedra em qualquer parque nacional para ver a democracia em ação. Por trás de cada parque há uma história de democracia com "d minúsculo" na sua melhor forma: pessoas se organizando por si mesmas, dizendo "salvem esse lugar" e muitas vezes convencendo no melhor dos casos um Congresso indiferente a salvá-lo e protegê-lo. É uma idéia democrática no abstrato, mas ela sempre vem de americanos individualmente ou em pequenos grupos usando a alavanca da democracia para realizar algo a favor da posteridade. Thomas Jefferson [o terceiro presidente dos EUA e autor da Declaração de Independência] gostaria dessa idéia.

Burns: Seguimos os passos de personagens óbvios como John Muir1 e Teddy Roosevelt2, mas apresentaremos dezenas de outras pessoas realmente notáveis, das mais diversas camadas sociais, etnias, raça, sexo e país de origem. Nosso filme conta histórias de como elas dedicaram suas vidas a essa realização e como suas ações cruzaram com essa idéia maior sobre a qual temos falado.

Duncan: O sistema de parques só abraçou a causa da preservação de sítios históricos na década de 1930, quando foi reservado ao Serviço Nacional de Parques uma agência bastante jovem o papel de preservar, em nossa narrativa cronológica e histórica, os lugares que seguem o nascimento e a evolução dessa idéia, tais como campos de batalha, o Memorial Lincoln, o National Mall em Washington e a Estátua da Liberdade. Com a inclusão desses tipos de pontos históricos, os parques viraram sinônimo dos Estados Unidos. Eles abraçaram a própria idéia de Estados Unidos.

No filme, chamamos a atenção para lugares como o Sítio Histórico Nacional da Batalha de Washita, onde ocorreu o massacre dos índios cheiene; o lugar de encarceramento dos nipo-americanos no Sítio Histórico Nacional de Manzanar; a Escola Central de Ensino Médio de Little Rock3 até a Cidade de Oklahoma4 e Shanksville5. Que essa idéia um compromisso nacional de preservação para o futuro podia acabar até mesmo incluindo esses lugares que foram palco de ocorrências lamentáveis para que elas nunca mais voltem a acontecer.

Burns: Uma das coisas realmente importantes sobre o nosso filme e a experiência dos parques nacionais é essa camada de tempo. Pensamos nos parques nacionais como essas maravilhosas representações do tempo, seja na forma desses acontecimentos históricos recentes ou de grandes eventos geológicos como o entalhamento do Grande Canyon. Mas, como muitas pessoas ressaltam no filme, não é apenas a experiência desses lugares por si só, mas com quem você os vivencia. Seu conhecimento do parque é freqüentemente influenciado pelo fato de ter ido lá na companhia de seu pai e de sua mãe, o que fica indelevelmente ligado à sua própria psicologia pessoal. Mais tarde, como adulto, chega a hora de levar seus filhos e passar o que o historiador William Cronon chama de "a transmissão íntima" de uma geração para outra do amor pelo lugar que está personificado nos parques nacionais.

Assim como se pode visitar as catedrais da Europa e se emocionar com o fato de que foram precisos três séculos para que as pessoas pudessem construí-las à mão e para a consagração da obra, assim também os parques nacionais trazem à mente todos os que adicionaram camadas imperceptíveis à narrativa. E isso é uma grande história.

P: Qual foi o local mais emocionante que visitaram durante os meses de filmagem?

At almost 6,200 meters, Mount McKinley is the highest peak in North America and a prominent feature of Denali National Park in Alaska. Moose, caribou, wolves, and grizzly bears live in the more than 2.4 million hectares of wild lands. Archeologists have also discovered artifacts that document the presence of native Alaskan people on the site 12,000 years ago.
A quase 6.200 metros, o Monte McKinley é o pico mais alto da América do Norte e característica proeminente do Parque Nacional de Denali no Alasca. Alces, renas, lobos e tipos de ursos vivem em mais de 2,4 milhões de hectares de terras selvagens. Arqueólogos descobriram também artefatos que documentam a presença de nativos do Alasca no local há 12 mil anos (Getty Images/National Geographic)

Burns:Tivemos muita sorte, como amigos e colegas, de recolher experiências únicas e inacreditáveis em muitos lugares diferentes. Lembro de "flutuar" pelo Grande Canyon com minha filha mais velha, a saída e a euforia do topo. Lembro de chegar ao coração de Denali [local da montanha mais alta da América do Norte] no Alasca após quatro horas de viagem de carro de Ancorage até a entrada, e então viajar outras 90 milhas [cerca de 145 quilômetros], a maior parte do tempo em estrada de terra, para um interior sem saída. Montamos nossas câmeras para uma foto com céu encoberto e lapso de tempo, e por um período de quase três horas, com insetos em volta e apenas sanduíches para comer, Denali subitamente se revelou. Dayton estava com seu filho e nosso operador de câmera de longa data estava conosco. Para mim, foi um desses grandes milagres.

Duncan: O grande lance a respeito desse projeto é que esse trabalho nos permitiu visitar os lugares mais espetaculares encontrados em nosso país. Ele exige a nossa presença nesses locais 45 minutos antes do sol nascer para observar a transição da noite para o dia. Na natureza, esses momentos são mágicos, mágicos demais. Estamos concentrados em tirar a grande foto, de modo que passamos um bom tempo esperando em silêncio o sol se levantar. Tudo está pronto para decolar quando a luz mágica aparece, e não dá para superar isso.

As viagens com nossas famílias têm esse momento mágico, físico e espiritual, tornado ainda mais único pelo fato de você estar lá com seu filho ou com sua esposa e filhos. Caminhar no Grande Canyon no Dia dos Pais com meu filho é algo praticamente insuperável. Andar sobre um campo de lava antes do raiar do dia no Havaí com meu filho e observar o sol nascer e uma cascata de lava ir para o oceano e criar um novo pedaço de terra isso é algo que nunca vou esquecer, e espero que ele também não esqueça.

Notas:

1. John Muir (1838-1914) é considerado um dos grandes preservacionistas americanos de sua época. Ele foi defensor da proteção do Vale Yosemite da Califórnia e fundador do Clube Sierra, que hoje sobrevive como importante grupo de defesa ambiental.

2. Theodore Roosevelt foi presidente dos EUA de 1901 a 1909, período no qual o governo federal ampliou de forma significativa a designação de florestas e monumentos nacionais, embora seu mandato tenha precedido a criação do Serviço Nacional de Parques em 1916.

3. A Escola Central de Ensino Médio de Little Rock, Arkansas, é um marco na luta pelos direitos civis nos EUA e é hoje sítio histórico nacional. Uma multidão hostil protestou contra a admissão de nove estudantes negros na escola em 1957. O presidente Dwight Eisenhower ordenou o uso de tropas para proteger os estudantes, mostrando a intenção do governo federal de cumprir a decisão da Suprema Corte a favor da dessegregação das escolas.

4. O Memorial Nacional da Cidade de Oklahoma homenageia as vítimas e os salvadores do atentado terrorista de 1995 contra repartições públicas na capital desse estado. A explosão do Edifício Federal Alfred P. Murrah matou 168 pessoas e feriu mais de 800 no mais grave atentado terrorista sobre solo americano antes do 11 de Setembro de 2001.

5. Shanksville, na Pensilvânia, é o local do Memorial Nacional do Vôo 93, atualmente em construção, em homenagem às vítimas do desastre de avião de 11 de setembro de 2001. Os passageiros desse vôo sacrificaram suas próprias vidas para dominar os seqüestradores do avião, frustrando o atentado a Washington, D.C., derrubando o avião num campo de Shanksville e matando as 44 pessoas a bordo.

National Parks

As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.