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Cenário e Ciência nos Parques
Nacionais dos EU
A

Richard West Sellars

National Parks

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Significado Espiritual e Cultural dos Parques Nacionais
A Própria História dos Estados Unidos
As Jóias da Coroa: Galeria de fotografias sobre os parques nacionais americanos
Cenário e Ciência nos Parques Nacionais dos EUA
Parques Podem Mudar uma Nação
Oh, Ranger: Fazer Algo de Duradouro
Parques dos EUA: Cronologia
Lugares Especiais Unindo Todos os Americanos
Quando um Parque Não É um Parque
Guardas-Florestais e Guias Suíços
Oh, Ranger: O Apelo das Rochas
Clima de Mudança
Expulsando os Invasores
Oh, Ranger: O Local de Trabalho Mais Lindo do Mundo
Guardiões dos Monumentos Antigos
Patrimônio de Toda a Humanidade
Oh, Ranger: Nos Degraus onde Esteve Martin Luther King
Recursos Adicionais
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A National Park Service poster from the late 1930s advocates the preservation of all life, but decades passed before management practices began to fully respect the natural communities within the parks.
Pôster do Serviço Nacional de Parques do final dos anos 1930 defende a idéia da preservação de qualquer vida, mas décadas se passaram antes que as práticas administrativas começassem a respeitar integralmente as comunidades naturais dentro dos parques (Biblioteca do Congresso, Divisão de Impressos e Fotografias)

A ciência complexa que governa o mundo natural ainda não era bem entendida quando os primeiros parques nacionais foram criados nos Estados Unidos. Ao longo dos anos, essas vastas reservas de terras públicas foram administradas por uma burocracia que na verdade não compreendia sua ecologia. Décadas se passaram antes que esses princípios ganhassem seu merecido espaço na mente dos guardiões dos recursos mais preciosos da nação.

Richard West Sellars é historiador aposentado do Serviço Nacional de Parques e autor de Preserving Nature in the National Parks: [Preservação da Natureza nos Parques Nacionais: Uma História] (Yale University Press, 1997). Ele foi presidente da Sociedade George Wright, organização internacional de conservação que recebeu esse nome em homenagem ao biólogo fundador dos programas científicos de recursos naturais do Serviço Nacional de Parques.

Comecei a trabalhar como historiador no Serviço Nacional de Parques em 1973. Como funcionário novo dessa venerável instituição, presumi que os biólogos do Serviço de Parques deviam representar papel importante na administração de parques nacionais renomados, como Yellowstone, Everglades e Great Smoky Mountains (Grandes Montanhas Fumegantes), com suas magníficas exibições de história natural. Com certeza, na tomada de decisões nos parques as preocupações ecológicas viriam em primeiro lugar. Quanta ingenuidade!

Muito depois, nos anos 1990, ao escrever sobre a história da administração da natureza nos parques nacionais pelo Serviço de Parques, percebi a verdadeira extensão da luta dos biólogos para promover uma gestão ecologicamente saudável. Durante décadas eles haviam enfrentado os profissionais que realmente mandavam no Serviço de Parques, para os quais a principal preocupação era proteger o cenário como atração turística.

Essas filosofias divergentes em relação à gestão dos parques reflete o que sempre foi o dilema central dos parques nacionais americanos: em um parque, o que exatamente deve ser preservado para as gerações futuras? É o próprio cenário as paisagens deslumbrantes de florestas e prados, altas montanhas, flores silvestres e animais espetaculares? Ou é mais do que isso? Será todo o sistema natural dos parques, incluindo não somente os superastros biológicos e pitorescos como também o amplo leque de espécies menos expressivas, como os gramados e os cogumelos do solo?

Nas últimas décadas, outra consideração entrou na equação: cada vez mais, os parques são vistos como ecologicamente vitais para o planeta tão globalmente importantes à sua maneira quanto o é a floresta tropical amazônica à sua maneira.

No entanto, a beleza majestosa dos parques nacionais dá a impressão de que o cenário por si só é o que os torna valiosos e merecedores de proteção. Na verdade, a preservação panorâmica foi o fator mais importante na criação dos primeiros parques nacionais Yellowstone em 1872, seguido por Sequoia e Yosemite em 1890. Além da topografia espetacular, o que mais importava ao público eram os elementos evidentes da natureza florestas e flores silvestres, em vez de camundongos e salamandras. No final do século 19, as ciências ecológicas eram apenas vagamente compreendidas. E, embora diversas comunidades ecológicas importantes tenham sido incluídas dentro dos limites do parque, isso ocorreu em grande parte graças ao acaso, pois essas comunidades estavam situadas em áreas reservadas para proteger o cenário, a bela "fachada" da natureza.

The Old Faithful Inn, built in 1904 in Yellowstone National Park, brought visitors to the site, but builders of that time gave little consideration to the ecological impact of construction.
A Estalagem Old Faithful, construída em 1904 no Parque Nacional de Yellowstone, trouxe visitantes ao local, mas os construtores da época deram pouca importância ao impacto ecológico da construção (Foto NPS)

Gestão de fachada: foco no cenário

Em 1916, o Congresso dos EUA criou o Serviço Nacional de Parques para coordenar a administração de um sistema de parques nacionais em constante crescimento. A legislação exigiu a conservação do cenário, dos objetos naturais e da vida selvagem, além da fruição pública dessas atrações de forma a deixar os parques "intactos para deleite das gerações futuras". A intenção dessa legislação sempre foi ambígua, por consagrar tanto a preservação quanto o uso. Mas na prática real e concreta, deixar parques "intactos" aplicava-se quase totalmente ao cenário dos parques, não aos elementos sutis de suas comunidades ecológicas.

Ao desenvolver parques para que os turistas tivessem acesso às grandes atrações pitorescas, os primeiros administradores dos parques e seus sucessores buscavam alcançar a harmonia visual entre a nova construção e o cenário natural. Eles desenvolveram acampamentos, construíram grandes hotéis e traçaram estradas de rodagem através das áreas remotas e pitorescas dos parques. Engenheiros e paisagistas situaram muitos dos primeiros hotéis, museus e outras instalações quase no topo dos pontos mais característicos, porém com freqüência eram construídos em estilo arquitetônico rústico, usando toras e pedras pesadas, para que as estruturas parecessem fazer parte do cenário natural. Da mesma maneira, eles projetaram estradas e pontes para que se integrassem ao ambiente natural.

Afinados com esses fatores visuais, os criadores de parques dessa época inicial quase não demonstraram preocupação com os processos ecológicos. No entanto, os administradores se opuseram a determinadas intrusões significativas estradas de ferro, barragens e reservatórios. E protegeram as florestas e a vida selvagem com suas atrações, particularmente os grandes mamíferos carismáticos. Desse modo, exceto no caso de instalações turísticas, as montanhas e os vales dos parques escaparam ilesos, as florestas continuaram florescentes e os prados, com uma vegetação exuberante.

Mas a manutenção do cenário exigia pouca contribuição científica, ocasionando o surgimento de práticas ecologicamente incorretas: a introdução de espécies exóticas não nativas; a supressão de incêndios na floresta para evitar manchas escuras na paisagem pitoresca; a erradicação dos lobos e leões da montanha, que se alimentavam de outros mamíferos; e o uso de pesticidas para impedir que as florestas pitorescas fossem infestadas e devastadas por insetos nativos.

Desse modo, a "gestão de fachada" tornou-se a prática aceita administrar os parques pitorescos para o público desfrutar, porém com pouca compreensão das conseqüências ecológicas. Para os responsáveis, parecia que, enquanto o desenvolvimento não afetasse seriamente o cenário, os parques permaneceriam "intactos para deleite das gerações futuras", como havia orientado o Congresso.

The beargrass plant, seen here at Montana's Glacier National Park, is native to the Rocky Mountain region. Bears eat the plant in the spring, and also use it as nesting material in their dens. Management practices in place for several decades attempt to guard all the elements of a park setting, from delicate plants and insect life to the soaring peaks and mountains.
A planta beargrass, vista aqui no Parque Nacional das Geleiras, em Montana, é nativa da região das Montanhas Rochosas. Os ursos comem a planta na primavera e a usam também em suas tocas como material de fabricação de ninhos. As práticas administrativas vigentes por diversas décadas tentam guardar todos os elementos do cenário de um parque, de plantas delicadas e insetos no seu dia-a-dia a picos e montanhas elevados (Jennifer Demonte, The Daily Inter Lake/© AP Images)

Preocupações ecológicas

Em meados dos anos 1920, os biólogos dos parques perceberam que a flora e a fauna são parte integrante de complexos ecológicos vastos e interligados. No entanto, o Serviço Nacional de Parques tinha tão pouca consideração por gestão científica baseada em pesquisa que, quando seus programas de ciência natural entraram por fim em funcionamento em 1929, tal fato ocorreu somente devido ao financiamento privado de um abastado biólogo do Serviço de Parques, George M. Wright. O Serviço de Parques logo começou a financiar os programas de Wright, mas a crescente influência dos biólogos liderados por ele diminuiu drasticamente após sua morte prematura em um desastre de automóvel no começo de 1936.

Quase três décadas se passaram antes que os biólogos em luta com um Serviço de Parques preso à tradição pudessem renovar de fato seus esforços tentando influenciar a gestão dos parques. Dessa vez, o apoio veio de fora do serviço. Relatório de 1963 da Academia Nacional de Ciências criticava duramente o Serviço de Parques, pedindo que a administração começasse a usar pesquisa científica intensiva para garantir a preservação dos sistemas ecológicos dos parques. A academia descrevia os parques como um "sistema de plantas, animais e habitat interligados" e insistia para que eles fossem considerados "bancos biológicos". O relatório deixava claro que uma administração preocupada principalmente com a manutenção do cenário não era suficiente.

Ainda em 1963, um comitê consultivo especial presidido pelo professor da Universidade da Califórnia A. Starker Leopold, um dos principais biólogos do seu tempo, emitiu o que seria a declaração de maior influência sobre a gestão dos parques desde a lei de 1916 que estabelecera o Serviço Nacional de Parques. O Relatório Leopold enfatizava a necessidade de melhoria da gestão ecológica e defendia a idéia de que cada um dos grandes parques naturais deveria apresentar uma "vinheta dos Estados Unidos primitivos". As comunidades naturais de vida dentro de cada parque, declarava o relatório, deveriam ser "mantidas ou, onde necessário, recriadas tão próximo quanto possível das condições que predominavam quando a área foi visitada pela primeira vez pelo homem  branco".

Essa abordagem refletia uma conscientização das grandes mudanças ecológicas produzidas pelos americanos europeus e sua tecnologia. Onde viável nos grandes parques naturais, a restauração ecológica procuraria reverter as alterações. Desse modo, o Relatório Leopold lançava as bases para uma fusão da gestão de fachada com a gestão ecológica. A cena primitiva a ser recapturada seria apreciada tanto pelo aumento de sua integridade ecológica quanto por sua beleza física. Subjacente a esse esforço havia o sentimento urgente de que, embora o cenário majestoso dos parques fosse perdurar, sua diversidade biológica não sobreviveria sem uma mudança de abordagem.

A duradoura influência do Relatório Leopold originou-se em parte da apresentação persuasiva de questões ecológicas complexas. Ainda mais sutilmente, porém, sua visão dos Estados Unidos primitivos despertava sentimentos românticos e patrióticos, sugerindo uma espécie de fantasia "do novo mundo" os parques como terra virgem. O Serviço de Parques desejava seriamente acreditar nessa visão e transmiti-la ao público. Isso chegava bem perto das razões culturais mais profundas para a própria existência dos parques o nacionalismo romântico que tem sido a base de apoio do público aos parques, em cujos horizontes as demais paisagens, compostas por altas montanhas e vastos espaços abertos, serviam como poderosos símbolos geográficos da origem nacional e do destino nacional.

O Relatório Leopold encorajou os esforços dos biólogos do Serviço de Parques a alterar determinadas práticas administrativas. Por meio de práticas de gerenciamento de incêndio baseadas em pesquisa, os parques tentaram aproximar-se dos efeitos dos incêndios naturais. Os gerentes dos parques também abandonaram programas de pulverização de insetos e deram mais proteção aos predadores nativos. Buscaram ainda reduzir as populações de espécies exóticas especialmente destrutivas, ao mesmo tempo que reintroduziam espécies nativas desaparecidas.

A gestão de recursos naturais dos parques também se beneficiou de iniciativas do Congresso, entre as quais a Lei da Vida Selvagem (1964) e a Lei das Espécies em Perigo de Extinção (1973). Essas e outras leis, particularmente a Lei Nacional de Política Ambiental (1969), ajudaram a melhorar a gestão dos parques nacionais e inauguraram as práticas do Serviço de Parques no sentido de maior segurança, inclusive o envolvimento público no planejamento dos parques.

No entanto, o movimento ambiental dos anos 1960 e 1970, incluindo os relatórios Leopold e da Academia Nacional, não conseguiu alterar substancialmente as prioridades tradicionais da agência no sentido de manter a fachada panorâmica da natureza. Repetidas demandas para a expansão dos programas de pesquisa, fundamentais para uma gestão ecológica saudável, receberam apoio insuficiente do Serviço de Parques, do Congresso ou do público fora da comunidade ambiental.

O desafio dos recursos naturais

No final do século 20, com crescentes ameaças como o aquecimento global, a expansão populacional e a destruição de habitats, a redução mundial de diversidade biológica trouxe à luz dos holofotes o conceito de parques nacionais como laboratórios ecológicos e "pools de genes". Os cientistas e segmentos cada vez mais amplos do público americano começaram a considerar os parques nacionais importantes para a saúde ecológica do planeta como reservatórios de material genético e ilhas naturais, baluartes contra a mudança ou perda irreversível da espécie.

Em 1997, publiquei Preserving Nature in the National Parks: A History [Preservação da Natureza nos Parques Naturais: Uma História] por vezes uma análise altamente crítica da administração dos recursos naturais pelo Serviço Nacional de Parques ao longo das décadas. Em resposta, o Serviço de Parques começou quase imediatamente a planejar uma nova e ambiciosa iniciativa para os recursos naturais, conhecida como Desafio dos Recursos Naturais. Anunciada em agosto de 1999, a iniciativa rapidamente ganhou apoio bipartidário do Congresso, situação que se mantém até hoje. Além disso, o desafio significa, sem dúvida, o maior aumento de pessoal e de financiamento da gestão científica de recursos naturais da história do Serviço de Parques.

Com escopo verdadeiramente abrangente, o desafio adquire, aplica e dissemina conhecimento científico a profissionais e ao público em geral em busca de metas para os recursos naturais e para a melhoria dos parques e da sociedade. Entre seus elementos específicos contam-se programas acelerados para inventariar as espécies nativas dos parques, tanto terrestres quanto aquáticas; monitorar mudanças em suas condições; e proteger e restaurar populações em perigo de extinção, ao mesmo tempo que remove espécies não nativas. O desafio também exige monitoramento aperfeiçoado do ar e da água. A criação de equipes nos parques para atingir essas e outras metas tem sido crucial, assim como também o aumento de oportunidades para que o público usufrua os recursos naturais dos parques e aprenda sobre eles e sobre sua preservação.

O Desafio dos Recursos Naturais inaugurou uma nova era na gestão dos parques nacionais. Eles têm experimentado, em grau sem precedentes, maior compreensão e cooperação entre a gestão de fachada e a gestão científica. Significativamente, o Desafio leva o Serviço de Parques rumo a uma melhor posição para enfrentar as crescentes ameaças ambientais deste século. Por fim, nos domínios do Congresso e do Serviço Nacional de Parques, e na verdade na percepção coletiva americana, o foco do desafio referente à integridade do ambiente natural dos parques tem ajudado a garantir uma interpretação mais ampla e mais ecologicamente inclusiva da orientação legislativa original de 1916, de deixar os parques nacionais "intactos para deleite das gerações futuras".

National Parks

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.