O Presidente e a ImprensaMartha Joynt Kumar
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Todo presidente americano necessita de uma equipe na Casa Branca a par do ritmo das relações entre o presidente e a imprensa, bem como auxiliares com a noção de como tirar vantagem delas. A necessidade de boas relações com a imprensa é especialmente séria durante o período de transição. Martha Joynt Kumar é professora de Ciência Política da Universidade Towson, em Towson, Maryland, e autora e coautora de vários livros sobre a mídia e a Presidência, inclusive o clássico de 1981, Portraying the President: The White House and the Media [Retrato do Presidente: a Casa Branca e a Mídia] e Managing the President’s Message: The White House Communications Operation [Como Lidar com a Mensagem do Presidente: a Operação de Comunicação da Casa Branca]. "Estou contente por termos divulgado a fita do pronunciamento no rádio, na TV e em cinejornais. Para o inferno com os repórteres tendenciosos; vamos nos dirigir diretamente ao povo que pode ouvir com exatidão o que o presidente [Eisenhower] disse sem ler matérias desvirtuadas e tendenciosas”, declarou James Hagerty, secretário de imprensa do presidente Dwight D. Eisenhower, sobre a divulgação de uma fita da coletiva de imprensa do presidente. A necessidade de usar os órgãos de imprensa para estabelecer a conexão direta e livre com o público vem sendo um tema constante nas comunicações presidenciais, assim como as queixas contra sua nêmesis, a imprensa. O presidente George W. Bush ainda não havia cumprido nem dois meses de seu mandato quando começou a reclamar do “filtro”. Em discurso de 23 de março de 2001, em Portland, no Oregon, Bush observou: “Achei melhor sair da capital do país e explicar meu orçamento cara a cara com o povo do que entregar essa tarefa ao filtro. Às vezes os fatos são um tanto distorcidos. (...) Portanto, vou explicar meu orçamento, se vocês não se importarem, e o que pretendemos fazer com o dinheiro se pudermos levar solidez fiscal para a capital do país.” Como seus predecessores, Bush expressou sua frustração com a imprensa por não fazer a cobertura sobre sua pessoa e seus programas da maneira como gostaria. Embora os presidentes possam se queixar da imprensa, logo descobrem que os veículos de comunicação são parte importante do cenário presidencial do governo. James Hagerty criticava os repórteres, mas ainda assim lidava com eles, realizando entrevistas coletivas em seu escritório duas vezes ao dia, dando-lhes livre acesso a ele durante o dia todo, garantindo sua participação em eventos e viagens presidenciais com lugares privilegiados para ver e ouvir o presidente e geralmente atendendo às suas necessidades de cobertura e informação. Hagerty sabia algo que outras equipes da Casa Branca e seus presidentes aprenderam sobre as comunicações da Casa Branca. É um relacionamento tenso, mas é também uma relação que beneficia os presidentes. O público quer saber o que o presidente está fazendo e planejando. Os órgãos de imprensa propiciam essas informações a ele.
Três elementos das relações entre a Casa Branca e a imprensa nos dão a pista sobre como elas funcionam de um governo para o outro. Primeiro, as relações são de cooperação. Pode haver tensão entre os dois lados, mas no dia-a-dia um tem interesse em trabalhar bem com o outro. Em segundo lugar, as operações de comunicação da Casa Branca têm continuidade, com os escritórios centrais de publicidade mantendo-se de um governo para outro e com regras fundamentais aplicadas em todos os governos. As regras que norteiam a relação parecem simples e eternas — dizer a verdade, dar más notícias com explicações — assim como as tentações dos ocupantes da Casa Branca de não segui-las. Esse é um dos fatores que torna a tarefa do secretário de imprensa do presidente tão difícil. Em terceiro lugar, os órgãos da imprensa são o veículo principal usado por presidentes e seus representantes para fazer chegar ao público o considerável número de discursos, entrevistas na imprensa e pronunciamentos. Ainda assim eles não controlam as relações porque necessitam responder às perguntas feitas pelos jornalistas. O elemento de cooperação Para conseguir o resultado mais proveitoso de suas relações com os órgãos de imprensa, os presidentes e suas equipes precisam cooperar com os jornalistas que os cobrem. De que outra forma um presidente consegue divulgar “os fatos” ao público regularmente a não ser por meio dos órgãos de imprensa? Diariamente, há cerca de cem repórteres da mídia escrita, eletrônica, de tv e rádio, fotógrafos, produtores e operadores de câmera parados na frente da Casa Branca, prontos para enviar imagens do presidente ao público e escrever sobre ele e seu governo. Por mais insatisfeitos que estejam com os repórteres, os presidentes e seus assessores continuam a recebê-los na ala oeste da Casa Branca, como acontece desde 1902, quando esse anexo foi ocupado pela primeira vez. Faz parte da cooperação a Casa Branca dar informações aos jornalistas sobre o presidente e seus programas — e os órgãos da imprensa usarem grande parte do material recebido, de uma forma ou de outra. A tensão no relacionamento ocorre quando a Casa Branca discorda do que os órgãos de imprensa divulgam e do que os jornalistas incluem em suas matérias. Embora seja dispendioso para esses órgãos marcarem presença na Casa Branca, isso é feito pelo menos desde 1896, quando vários jornais colocaram correspondentes em uma mesa do lado de fora do escritório do secretário do presidente, cargo semelhante ao do atual chefe de gabinete da Casa Branca. Naquela época, assim como agora, os órgãos de imprensa queriam manter seus repórteres perto do centro dos acontecimentos, de forma que sua organização fosse a primeira a divulgá-los. Os repórteres nunca desistiram de ter acesso próximo às notícias presidenciais. Atualmente, as maiores redes de televisão têm um espaço bem cuidado na entrada da ala oeste no lado norte da Casa Branca, de onde divulgam notícias ao vivo. Jornalistas de TV visitantes também a usam. A Casa Branca e os órgãos de imprensa esforçam-se por manter o espaço porque cada um deles sabe da sua utilidade para esses órgãos, exatamente como a sala de imprensa recentemente reformada da Casa Branca. As empresas jornalísticas e o governo juntos gastaram US$ 8 milhões na reforma, sendo US$ 2 milhões pagos pela imprensa.
Uma história de continuidade O secretário de imprensa é o cargo do quadro de funcionários presidenciais com o histórico mais antigo. Desde 1929, cada um dos 13 presidentes teve um assessor presidencial indicado para lidar com os assuntos de imprensa. As pessoas detentoras desse cargo administram as relações do presidente com a imprensa e dão informações aos repórteres de acordo com os desejos do chefe do Executivo e de seus assessores. Em 1969, o presidente Richard Nixon adicionou um segundo elemento à órbita de comunicações da Casa Branca: a Assessoria de Comunicação. Esse escritório também sobreviveu até os dias atuais. Em geral, por tradição, é responsável pelo planejamento de comunicações de longo alcance e elabora planos para “vender” programas presidenciais ao público e a outros que atendem às necessidades presidenciais, enquanto o secretário de imprensa e seu pessoal se concentram em dar informações diárias aos repórteres que cobrem o presidente com regularidade. A longevidade desses escritórios abrangendo os governos democratas e republicanos reflete as necessidades contínuas às quais atendem. As regras fundamentais que regulam os relacionamentos entre repórteres e autoridades também ainda estão em vigor. Mesmo os acordos sobre o que é on the record, off the record e “extraoficial” permanecem os mesmos. Informações on the record são públicas, e os repórteres podem usá-las com o nome da fonte. Atualmente, a maioria das informações presidenciais é on the record. Informações extraoficiais vêm diretamente de uma fonte de notícias que pode ser, por exemplo, um membro da equipe de assessores da Casa Branca que conta a um jornalista algo que ele possa divulgar, mas sem identificação da fonte. Portanto, um jornalista poderia escrever: “Um alto funcionário da Casa Branca disse hoje...” Off the record significa que repórteres não podem de forma alguma usar publicamente as informações, embora, do ponto de vista prático, possam tentar descobrir a mesma informação on the record ou extraoficialmente por meio de outra pessoa. Continuam valendo também os princípios operacionais da publicidade que beneficiam um presidente e seu governo. O secretário de imprensa do presidente Gerald Ford, Ron Nessen, traçou esses princípios que atravessam gerações e se aplicam a todas as autoridades encarregadas das comunicações. “Penso que a maioria dos secretários de imprensa, não importa sua origem, acaba compreendendo que o mesmo conjunto de regras se aplica ano após ano, governo após governo: dizer a verdade, não mentir, não esconder a verdade, dar você mesmo as más notícias e o mais rápido possível, dar a sua própria explicação sobre o acontecido, tudo isso em conjunto.” Ao mesmo tempo, nem sempre é fácil para os assessores de imprensa atender a essas diretrizes. Como Nessen também observou: “... muitas vezes, outros membros da equipe não querem fazer isso; eles não entendem.”. Na Casa Branca da época de George W. Bush, vimos a dificuldade que tinha o secretário de imprensa Scott McClellan em obter informações precisas dos altos funcionários da Casa Branca, resultando daí sua subsequente perda de credibilidade. Esse mesmo cenário também ocorreu em governos anteriores, com o mesmo resultado: o secretário de imprensa era substituído por outra pessoa.
Órgãos de imprensa: veículos descontrolados Um presidente tem grande interesse nas relações com os órgãos de imprensa porque precisa da compreensão da sociedade para governar. Para criar programas e financiá-los, o presidente necessita da concordância do Congresso. Sua posição é de quem compartilha o poder e não de quem o exerce sozinho. E aí é onde entram os órgãos de imprensa: eles são seu veículo junto ao público de cujo apoio necessita para convencer o Congresso a sancionar seus programas. O presidente americano faz declarações a partir da Casa Branca e de todo o país e do mundo. Os órgãos da imprensa estão com ele onde quer que vá, enviando material eletronicamente, escrevendo artigos para jornais e transmitindo por rádio e televisão o que diz. Pode-se avaliar a necessidade do presidente em relação aos órgãos de imprensa pela frequência de seus discursos e declarações públicas. O presidente George W. Bush realizou uma média de 1,6 discursos ou declarações por dia durante semanas de 6 dias, em comparação com a média de 1,8 do presidente Bill Clinton. Entre discursos longos e breves, um presidente atualmente pode esperar falar cerca de 500 vezes por ano, especialmente em seu primeiro ano de governo. Clinton falou 602 vezes em 1993, seu primeiro ano de mandato, e Bush fez 508 discursos e pronunciamentos em 2001. O preço por usar os órgãos de imprensa como veículo para levar as palavras do presidente ao público é dar informações a essas organizações e seus jornalistas, especialmente àqueles dedicados aos assuntos da Casa Branca. Eles buscam informações além daquelas que o presidente e sua equipe querem fornecer; suas palavras compõem só uma parte das notícias. Eles querem respostas às suas perguntas sobre intenções, planos alternativos e prioridades do presidente. Diariamente, os repórteres podem obter informações dos representantes do presidente, quase sempre de seu secretário de imprensa. Contudo, de forma geral, eles precisam conseguir as respostas do próprio presidente. Embora os presidentes americanos tenham respondido perguntas de jornalistas no fórum aberto da coletiva de imprensa desde 1913, essas sessões eram feitas originalmente off-the-record. Elas são realizadas on the record e disponíveis para a televisão desde janeiro de 1955, quando o presidente Eisenhower realizou a primeira sessão nesses moldes. Atualmente, os presidentes encontram repórteres em três ocasiões. Em primeiro lugar, há as coletivas de imprensa nas quais o presidente encontra jornalistas em sessão aberta para responder a perguntas por cerca de meia hora. Às vezes um líder estrangeiro acompanha o presidente e às vezes ele enfrenta a imprensa sozinho. Além disso, os chefes do Executivo atendem os jornalistas a intervalos regulares em breves sessões de perguntas e respostas no Salão Oval e em outros locais da Casa Branca, inclusive no Jardim das Rosas fora do Salão Oval. Os presidentes ainda dão entrevistas a jornalistas estrangeiros, bem como aos que representam órgãos de imprensa do próprio país. Antes de viajar ao exterior, por exemplo, o presidente em geral dá entrevistas a repórteres que representam órgãos de imprensa do país para o qual está viajando. Ele realiza essas sessões para informar o público de lá sobre suas expectativas em relação à viagem. Levando-se em conta coletivas de imprensa, sessões de perguntas e respostas e entrevistas, os presidentes muitas vezes se encontram em situações sobre as quais têm controle somente parcial. Os presidentes não são obrigados a responder nenhuma questão, mas se arriscam a serem criticados se não o fizerem. O presidente Clinton atendeu às indagações de jornalistas 332 vezes durante seu primeiro ano de governo, ao passo que o presidente Bush realizou 211 dessas sessões durante o mesmo período de seu mandato. Após seu primeiro ano, Bush não respondeu a perguntas de repórteres mais de 150 vezes em qualquer dos sete anos seguintes, e Clinton teve no máximo 275 sessões em cada um de seus sete anos seguintes. Em todas essas sessões, os presidentes se arriscam a cometer erros, algo que não querem fazer e evitarão se puderem. O novo governo Quando Barack Obama iniciar seu governo, necessitará de uma equipe na Casa Branca consciente do ritmo das relações entre o presidente e a imprensa — e que saiba como tirar vantagem disso. Levando-se em conta todas as apresentações públicas feitas por um presidente hoje em dia e com as inúmeras ocasiões em que precisa atender aos repórteres, o chefe do Executivo necessita de uma equipe ativa que consiga traduzir para o público suas metas e programas. A verdadeira liderança assim o exige.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||||