Governar É Diferente de Fazer CampanhaEntrevista com o ex-secretário de Educação Richard W. Riley
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Membro do secretariado no governo do presidente Bill Clinton analisa os dias agitados de transição e o processo de assumir o cargo de diretor de agência. Richard W. Riley conversou com Charlene Porter da revista eJournal USA. Richard Riley atuou como secretário de Educação dos EUA de 1993 a 2001. Foi governador da Carolina do Sul de 1979 a 1987 e continua como embaixador para aprimoramento da educação no estado, no país e no exterior. P: Como é receber um telefonema convidando-o para trabalhar em um novo governo? Riley: Tudo realmente começou uma semana ou dez dias após a eleição de Bill Clinton em 1992. Eu estava fora em Palo Alto, Califórnia, em reunião com uma comissão sobre saúde. Estávamos trabalhando em questões complexas de saúde e o que deveria ser feito com relação a elas, e alguém inclinou-se em minha direção e disse: “Governador, tem uma ligação para o senhor.”. Respondi: “Anote o recado. Estamos no meio de algumas questões complicadas aqui.” E a pessoa respondeu: “Bem, é o presidente eleito.” Aí eu disse: “Bem, nesse caso vou atender.” P: O senhor e Bill Clinton foram governadores na mesma época, o senhor na Carolina do Sul, e ele em Arkansas. Aquele telefonema surgiu da história em comum de vocês? Riley: Correto. Éramos grandes amigos. Fomos governadores quase ao mesmo tempo em estados de tamanho, composição e demografia muito semelhantes. Eu fazia parte de sua Comissão Executiva Nacional quando ele foi eleito. Então ele me pediu para liderar a transição para a seleção de pessoal na esfera de subsecretariado para presidir o grupo que lidava com todos os cargos abaixo do secretariado e outros cargos muito importantes. Concordei e por isso minha esposa e eu nos mudamos para Washington e fixamos residência lá. Chefiei o que começou como um grupo pequeno, mas rapidamente chegou a 250 ou 300 pessoas, criando todos os mecanismos para receber currículos e recomendações, dividindo-os de acordo com departamentos, etc. Tínhamos um grupo de profissionais de pessoal que analisava todos os candidatos, por exemplo, do Departamento de Educação. Em poucos dias, recebemos mais de 3 mil currículos. Tínhamos cerca de 50 advogados, todos voluntários, que investigavam os candidatos após termos chegado àqueles que íamos enviar para consideração do presidente. Após aproximadamente um mês ou seis semanas, o presidente eleito pediu-me para começar a realizar reuniões com ele sobre vários assuntos e em seguida convidou-me para fazer parte do secretariado e ofereceu-me o cargo de secretário de Educação. Educação era meu primeiro amor, portanto aceitei. Assim encontrei-me na situação complicada de tentar supervisionar o que estava acontecendo com as nomeações do subsecretariado e tentar definir meu departamento, enquanto também estava preocupado com minha própria confirmação e as confirmações de outras pessoas importantes no Departamento de Educação. Foi uma época fascinante para mim, de que gostei imensamente, mas eu trabalhava mais de 14 ou 15 horas por dia. Essa época é uma espécie de neblina para mim. P: O senhor acha que o pessoal do presidente Obama está vivendo isso agora? Riley: Essa experiência para o presidente eleito Obama e sua equipe foi muito mais planejada e em ordem. Três candidatos concorreram à Presidência em 1992, e o presidente Clinton venceu com menos de 50% dos votos. Ele fez campanha até o último dia e, portanto, teve muito pouco tempo para começar o processo de nomeações (...) antes de sua eleição. Quando o senador Obama foi eleito, ele já tinha uma equipe planejando há alguns meses como seriam montadas comissões de transição caso ele ganhasse. Assim, eles estão mais adiantados do que Clinton estava. Clinton levou algum tempo para se instalar. Ele é uma pessoa muito ponderada e queria usar de cautela, então antes do final de dezembro Clinton não nomeou nenhum membro do governo. Houve uma demora nas nomeações. Nossa situação teria sido melhor se tivéssemos tido algum tempo para planejarmos. Então a situação é um pouco diferente para o presidente eleito Obama do que foi para nós. P: Aquela “demora” foi uma desvantagem à medida que os meses se desenrolavam no governo Clinton? Riley: Foi uma desvantagem por um curto período de tempo, mas o presidente Clinton realmente não pôde evitá-la porque a situação era muito diferente do que é agora. O presidente eleito Obama pode valer-se de toda a experiência do governo Clinton. Ele convocou muitos auxiliares de Clinton para serem assessores, pessoal de transição e membros do governo. Quando Bill Clinton assumiu, não havia um governo democrata desde Jimmy Carter [1977-1981]. Assim, por uns bons anos, houve poucos jovens democratas que tiveram a oportunidade de trabalhar no governo. Em 1992, eles estavam ansiosos por fazê-lo. Essas pessoas se multiplicaram durante os anos Clinton, assim Obama teve a vantagem de poder recorrer a esse grande contingente de pessoas experientes. P: A lei exige que os escolhidos para o cargo de secretário de Educação submetam-se a uma audiência de confirmação perante o Senado dos EUA. Como foi isso para o senhor? Riley: É sempre desgastante. Você não sabe o que vão perguntar. Você pode dizer a coisa errada e dar um destaque exagerado a uma questão sem importância. Felizmente, os dois senadores da Carolina do Sul estavam há bastante tempo no cargo e ambos eram favoráveis à minha indicação. Um deles era um líder democrata, Fritz Hollings, e outro era um líder republicano, Strom Thurmond. Ambos deram-me grande apoio. O senador Thurmond acompanhou-me em todas as reuniões com os membros republicanos da comissão que examinariam minha confirmação. O senador Hollings fez o mesmo com os membros democratas. Recebi apoio unânime para minha indicação. Portanto, embora seja desgastante e você passe muito tempo se preparando para isso, pensar sobre todos os diferentes tipos de perguntas que lhe serão feitas, no final, para mim, acabou sendo um dia muito agradável quando cheguei à audiência propriamente dita, com os membros me questionando sobre minhas opiniões sobre educação. P: O senhor certamente teve uma vantagem com o apoio de um membro sênior do partido político adversário. Isso não é incomum? Riley: É. Muitas pessoas indicadas pelo presidente Clinton tinham experiência em questões sobre as quais foram sabatinadas de forma bem negativa pelos senadores do partido adversário. Isso tornava as coisas bem difíceis. A complexidade do processo de sabatina era algo que eu tinha de lidar no trabalho de transição como líder dos cargos para o subsecretariado. Nós tínhamos 250 cargos para preencher e tivemos algumas situações muito, muito complexas.
Por exemplo, tínhamos um candidato para um cargo no Departamento de Justiça ou de Educação ou outro qualquer e uma pessoa com desempenho de destaque, com referências muito positivas. Então, quando os advogados saíam e faziam a investigação, eles voltavam e nos diziam que essa pessoa tinha uma acusação por dirigir embriagada há cerca de 20 anos após sair de uma festa e isso estava registrado. Assim, tínhamos esse problema: mantínhamos essa pessoa brilhante com um histórico perfeitamente limpo, exceto por uma única coisa? Isso é suficiente para deixar de ser considerada para uma nomeação presidencial? Essas situações eram muito delicadas e sensíveis. Dizem que leva de seis a oito meses para escolher um reitor de faculdade em uma busca nacional. Os cargos no subsecretariado são equivalentes aos de reitores de faculdades e um novo presidente tem de preencher de 200 a 250 cargos. E isso tem de ser feito em alguns meses. É uma situação muito difícil, porém, importante. Todos tentam fazer da melhor maneira possível, e é surpreendente como os americanos vêm e apóiam esses esforços. P: Os primeiros cem dias são sempre vistos como um período crucial para dar o tom de uma Presidência. Mas por causa do crash nos mercados mundiais que ocorreu no último trimestre de 2008, é quase como se o governo Obama tivesse tomado posse antecipadamente uma vez que os mercados procuravam alguns sinais do que ele estava planejando fazer. Como isso se compara à sua experiência? Riley: Nós não estávamos no meio de uma crise nos anos Clinton. O presidente eleito Obama tomará posse no meio de uma crise econômica, no meio de duas guerras e outros eventos críticos em curso. Portanto, ele sofre enorme pressão para definir seu secretário de Estado, seus assessores de Segurança Nacional e seus assessores econômicos rapidamente. Q: O que o senhor lembra sobre os primeiros cem dias do governo Clinton e a urgência desse período? Riley: Com certeza é um período onde se pode realmente conseguir que algumas coisas sejam feitas ao término de uma campanha, mas é necessário aprender que governar é bem diferente de fazer campanha. Alguns presidentes que, ao assumirem, levam seus auxiliares com eles, realmente ainda estão em campanha. Você precisa desenvolver essa idéia de que agora você é o presidente de todo o povo. Quando você está em campanha, você está contra o outro lado. Esse é o sistema. Ambos os lados mantêm esse modo político de ser. Não há nada de errado com isso, embora, em minha opinião, nós realmente tenhamos uma campanha muito negativa acontecendo no momento. Mas eu tive muito orgulho da campanha de Obama, penso que ele a conduziu de maneira muito adequada e que essa é uma das razões por ele ter se saído bem. Mas para sair da situação de campanha, você realmente precisa mudar o ponto de vista. Você não está contra o outro lado nesse momento. Você está a favor do país. Você ainda tem diferenças que continuam. Esse é o nosso sistema. Você tem questões partidárias, e não há nada errado nisso. Mas o modo que você aborda tudo isso é diferente de quando se está no cargo. Governar é diferente de fazer campanha. Pelo que tenho observado, o presidente eleito Obama entende isso muito bem, e parece-me que tudo que fez e disse é a partir de uma postura de governante em vez de postura de candidato em campanha. Acredito que isso funcione com as crises que ele vai enfrentar. P: Queremos enfocar o lado pessoal dessa experiência para o senhor. Fazer parte de um governo é mais do que uma escolha política ou de uma carreira. Há também mudanças de estilo de vida importantes. Para o senhor foi uma mudança grande de sua casa em Greenville, na Carolina do Sul, para Washington, com tudo o que isso implica, afetando o senhor e sua família. Foi uma transição difícil? Riley: Para mim não foi. Tive uma esposa muito compreensiva que gostava de minhas experiências no governo tanto quanto eu. Ela foi uma parceira verdadeira em todos os sentidos da palavra e, lamento dizer, morreu em março de 2008. Ela sofreu de câncer de mama por cerca de 25 anos. Teve câncer no início dos anos 1980 quando eu era governador. Com bom tratamento e cuidando-se bem, ela viveu bem por mais 25 anos. Foi uma ótima companheira para mim e sempre opinava em tudo que eu tinha de fazer. Mas é uma mudança de estilo de vida em todos os aspectos. Por exemplo, você deve se livrar praticamente de tudo que possui — ações, títulos, etc. — ou colocar em algum tipo de fundo. Isso é um contratempo. Mas eu não tinha tantos bens assim com que me preocupar, então eu apenas transferi tudo para participações que não gerassem controvérsias. Além disso, você pertence a todo tipo de organização. Costumava dizer nos discursos que eu tive de renunciar a tudo, exceto à minha igreja e à minha esposa, e isso era quase verdade. Devido ao meu interesse em educação, eu participava de muitos conselhos e comissões. Era curador da dotação da Universidade Duke, o que eu realmente apreciava. Mas fui obrigado a renunciar a isso. Precisei renunciar a vários outros conselhos e comissões nos quais estava envolvido para aceitar o cargo como secretário de Educação. Um candidato indicado a esse cargo deve renunciar a qualquer coisa que tenha relação com educação de algum modo, e esse era o caso de todas as minhas atividades. Então você renuncia a tudo de que você participa. Você vende tudo que possui, exceto a casa ou o carro. Você tem de se livrar de seus bens e de seu envolvimento para evitar qualquer conflito de interesse, assim você pode aceitar esse cargo importante com a força e a confiança das pessoas. P: Valeu a pena? Riley: Sim, completamente. Havia muitos problemas, muitas coisas para se compreender e fazer, mas gostamos demais. Naturalmente, o presidente pediu-me para ficar por mais quatro anos após ser reeleito em 1996, assim, fiquei lá oito anos. Fui para Washington por dois meses e fiquei dois meses e oito anos. Aproveitei todos os minutos e minha esposa adorou também. Temos amigos realmente verdadeiros do mundo todo que conhecemos [em Washington] e, é claro, muitas pessoa envolvidas em assuntos de educação que eu encontrava todos os dias — as pessoas mais interessantes do país e do mundo. Eu (…) não trocaria nada no mundo por essa experiência. Sempre serei grato ao presidente Clinton por me escolher para esse cargo. P: O seu mandato de oito anos foi incomum. Geralmente a maioria das autoridades ministeriais deixa o governo após alguns anos de serviço. Por que o senhor ficou tanto tempo? Riley: Você deve se lembrar que presidentes anteriores a Clinton tinham em seus planos dissolver e eliminar o Departamento de Educação federal. Por causa disso, percebi, quando aceitei o cargo, que muitos dos elementos estruturais do departamento não estavam atualizados e necessitavam seriamente de melhorias. De fato, eu me dediquei e me envolvi — consegui um novo sistema de computador complexo e complicado porque tinha de dar conta de todas as transações entre o departamento e as universidades, distritos escolares, alunos e o que mais fosse necessário. Tudo isso estava sendo realizado por um departamento relativamente pequeno. Busquei as melhores pessoas no país para atuar no departamento e fiquei muito contente com isso. Apenas fizemos o departamento funcionar bem. O presidente ofereceu-me vários outros cargos importantes, que eu não quis aceitar porque fiquei muito envolvido no Departamento de Educação e era lá que eu queria ficar. As coisas estavam indo bem no fim de quatro anos, e fiquei empolgado com o fato de ficar mais quatro anos. P: O senhor está assessorando o governo Obama? Riley: Estou atuando como um tipo de consultor para as equipes de transição de educação, e já nos reunimos e conversamos. Há alguns grupos diferentes focados no Departamento de Educação, examinando o próprio órgão, sua estrutura e políticas, tais como a No Child Left Behind (Nenhuma Criança Fora da Escola) [iniciativa educacional do governo Bush]. Conversei com eles e respondi perguntas sobre o órgão, e eles ligam periodicamente. Com certeza, estou disponível para qualquer coisa que eles queiram me perguntar, e tento dar-lhes o que acredito seja meu melhor conselho.
As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||