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Capturando as Nuvens

Diana Abu-Jaber

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos:A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Diana Abu-Jaber
Muito da produção literária de Diana Abu-Jaber se inspira no lado árabe de sua família (© Greg Wahl-Stephens/AP Images)

Diana Abu-Jaber é autora de Crescent [Crescente] (2003), vencedor do Prêmio PEN Center USA 2004 de Literatura de Ficção e do Prêmio Livro Americano da Fundação Before Columbus; de Arabian Jazz [Jazz Árabe] (2003); e The Language of Baklava [A Linguagem do Baclava] (2005). Seu romance mais recente é Origin [Origem] (2007). Ela é professora associada de Inglês da Universidade Estadual de Portland em Portland, Oregon.


Há vários anos, decidi que queria escrever algo “verdadeiro”. Queria escrever minhas memórias sobre crescer em uma família árabe-americana. Mas, de algum modo, pouco antes de lançar mão da pena, senti-me obrigada ao silêncio: faltavam-me as palavras. Naquela altura, eu já escrevia livros de ficção há muito tempo. Porém, ao lutar para descrever o passado, passar as mãos sobre a textura da infância, dos jantares em família, das conversas e das viagens, tudo parecia me escapar; era como tentar capturar nuvens com uma rede para borboletas.

* * * *

Nasci e fui criada nos Estados Unidos, mas devido à minha origem, com frequência me pedem para tecer comentários sobre o Oriente Médio — como se eu fosse uma espécie de socióloga ou cientista política. Na verdade, sou romancista — prefiro invocar as curiosas e inclassificáveis histórias das pessoas a descrever os amplos arcos da história ou da cultura.

Mas os americanos adoram “cultura” — ansiamos por uma sensação de ligação com algo maior e mais velho do que nós mesmos. A maioria das pessoas daqui vem de outros lugares; casaram com pessoas de outros grupos raciais e perderam o rastro das antigas linhagens. No meu caso, sou produto de um pai que pode remontar seus ancestrais beduínos até centenas de anos atrás e de uma mãe que sabe pouco além do fato de seus avós serem irlandeses e bávaros, ou talvez holandeses ou suíços — mas não tem muita certeza. Papai costumava lembrar-nos constantemente, enquanto minhas irmãs e eu crescíamos nos Estados Unidos, para não ficarmos confusas com as coisas, que éramos na verdade meninas árabes. Boas e obedientes meninas jordanianas.

O que eu sabia da cultura do meu pai era filtrado pela comunidade árabe-americana de Syracuse, em Nova York. Nosso baclava predileto vinha do alegre e rechonchudo vizinho palestino; nossas lições de árabe eram dadas por um sorumbático caldeu iraquiano no porão abafado de uma igreja ortodoxa grega; e tínhamos aulas de dança com uma egípcia de sorriso luminoso. Meu pai eventualmente desenrolava seu belo tapete de orações feito de seda, mas todo domingo íamos à missa na enorme igreja católica da minha avó materna. Essa “cultura” estava a anos-luz da educação tradicional do papai nos wadis, os vales e rios da Jordânia.

Minha pele clara também não ajudava a esclarecer as coisas. Quando eu era ainda bem jovem, observava nossos parentes jordanianos espreitando minhas irmãs, primas e a mim enquanto brincávamos; murmuravam entre eles: “Lá está ela — essa é a americana!” Mesmo nessa época, sentia que esse termo significava distinção e exclusão — meio que prestigioso, mas não realmente parte do grupo. Eles referiam-se à minha irmã de pele cor oliva como “a árabe”. Os americanos, também, se sentiam compelidos a me informar com regularidade que eu não parecia “árabe”, como se isso diminuísse meu direito de me ver como “árabe-americana”. Eu detestava isso, ressentindo o modo pelo qual as pessoas pensavam saber quem eu era ou como eu me sentia com base no que eu parecia.

Certo dia, no ensino médio, uma professora bem-intencionada, ao tentar ensinar alguma coisa que ela chamava de “identidade racial”, resolveu fazer uma experiência. A graciosa loura senhora Harrow encostou-se na sua mesa e pediu aos alunos que se considerassem “pessoas de cor” para irem para o lado direito da sala, e os que se considerassem “brancos”, para o lado esquerdo. Para meu espanto, a sala de aula pareceu dividir-se fácil e naturalmente … até eu ficar sentada sozinha no meio da sala. Honestamente, eu não sabia a que lado pertencia. Enquanto a maioria da classe parecia achar isso engraçado, a professora ficou irritada, como se seu estivesse sendo deliberadamente obtusa. Aparentemente a senhora Harrow jamais tinha vivido a dissonância de ver-se de um modo e ser identificada pelos outros de outro modo.Eu podia apenas invejar essa espécie de harmonia fácil — como parecia maravilhoso sentir-se de acordo com o que os outros pensavam de você.

Felizmente, os Estados Unidos são muito vastos, há aqui muitos modos diferentes de as pessoas se encontrarem. Muitos imigrantes encontram seu santuário em ajuntamentos, convergências tribais: cidades coreanas, bairros italianos e pequenos Haitis. Durante minha infância, não havia jordanianos suficientes para formar seu próprio enclave exclusivo, por isso vivíamos entre um sortimento de família e amigos — geralmente outros recém-chegados abrangendo diversos países árabes — eventualmente incluindo até viajantes de lugares como Itália, Turquia e Grécia. Era como se não importasse tanto o fato de você compartilhar exatamente a mesma comida ou religião quanto você compartilhar a mesma sensibilidade — um ritmo mais lento, uma paixão pelas conversas, um código moral rigoroso, uma adoração pelos filhos.

Meu mundo infantil estava frouxamente dividido em Dentro (os “árabes” e amigos) e Fora (os “americanos”). Porém, é claro, não era possível examinar essa divisão de muito perto, ou ela começaria a desintegrar-se. No entanto, todo fim de semana tínhamos em casa festas longas que duravam o dia inteiro, repletas de comida e música tradicionais e de conversas estrondosas, principalmente em árabe, principalmente sobre política. Para uma criança, a separação entre fins de semana (barulhentos, divertidos, empolgantes, assustadores) e dias da semana (calmos, eficientes, suavemente aborrecidos) era como um exercício contínuo de choque de culturas. Aprendi nas reuniões de meus pais que revelar a “verdade” — significando a verdade privada dos desejos, dos temores e das crenças de alguém — era uma das coisas mais assustadoras e arriscadas que alguém poderia fazer nessa selva americana.

Ghassan Abu-Jaber
Ghassan Abu-Jaber, pai da autora, com disposição de comemoração de feriado, leva o peru assado para a mesa (Cortesia: Diana Abu-Jaber)

Meu pai parecia transformar-se toda segunda-feira, de cozinheiro impetuoso e teimoso para um gerente de escritório mais prudente e pouco loquaz. Duvido que ele alguma vez tenha compartilhado abertamente seus pontos de vista com os colegas, embora frequentemente voltasse para casa agitado e indignado com a ignorância deles sobre o Oriente Médio. Parece improvável que algum dos seus conhecidos americanos soubesse de sua vontade de ter seu próprio restaurante ou seu desejo de voltar conosco para a Jordânia. Eles conheciam apenas uma persona construída com cuidado. O consenso entre os imigrantes que conhecíamos parecia ser que os Estados Unidos eram um lugar maravilhoso para obter instrução e fazer carreira, mas que os americanos eram também ligeiramente perigosos, loucos e pouco confiáveis. Toda palavra que você lhes dirigia tinha de ser medida com cuidado.

Parecia que não dava para dizer o que um americano — especialmente um rapaz americano — poderia fazer. Esse sentimento foi especialmente reforçado por meu pobre pai depois de ter tido três filhas — seu “harém”, como as pessoas se referiam a nós. De acordo com ele, os rapazes americanos eram todos maníacos sexuais violentos em potencial e viciados em álcool. Aparentemente, as moças americanas eram mais seguras, mas eu ficava sempre chocada com a impudência de minhas amigas e sua insubordinação para com os pais. E eu ficava surpresa de ver com que facilidade minhas amigas revelavam seus pensamentos sobre todo tipo de coisas íntimas — falando tão abertamente sobre seus namorados, suas famílias e suas ambições. Eu admirava essa confiança de que seus pontos de vista seriam no mínimo aceitos, se não defendidos. Não tinha aprendido tamanha fé no mundo — árabe ou americano. Isso era enfatizado ao ver o noticiário da noite. Walter Cronkite dizia uma coisa — sobre o Vietnã ou Richard Nixon ou o Oriente Médio — e meu pai respondia de modo um tanto explosivo com informações e opiniões diferentes. Ficava sabendo pelo noticiário que, mais uma vez, o mundo estava dividido em lados. As pessoas de dentro (americanos) estavam sempre certas, e as pessoas de fora (todos os outros) não contavam de fato. Contudo, é claro, o problema para uma filha de imigrantes — em uma nação de imigrantes — era imaginar exatamente quem, supostamente, eram as pessoas de dentro.

* * * *

Descobri que tentar capturar uma experiência cultural única é mais ou menos como tentar olhar diretamente para alguma coisa flutuando na superfície do olho. Fora dos fatos nus e crus de língua e geografia, lutei para descobrir se há alguma coisa que torne a história de alguém singularmente “árabe-americana”. A luta por identidade e autorrepresentação, a tensão entre preservar as origens e abraçar o novo são todas questões reais para a comunidade árabe-americana. Mas elas também são comuns a todo tipo de imigrante de todas as partes do mundo.

Já adulta, comecei a sentir que a experiência árabe-americana dizia menos respeito a alguma coisa inata ao mundo árabe e mais ao modo como os americanos percebem a “arabicidade” e respondem a ela. Assim, essa guerra entre identidades privadas e públicas tornou-se um dos principais temas das minhas memórias. Escrevi rascunhos sobre rascunhos descartados, lutando contra mim mesma, minha memória fragmentada, minhas respostas emocionais confusas. Trabalhei através de camadas, fragmentos de imagens, conversas e artefatos como receitas, rumo a uma matriz narrativa.

Recusei-me a mostrar o manuscrito a qualquer pessoa, porque eu mal podia superar meu próprio temor, cuidadosamente adquirido e altamente respeitoso, de revelar a verdade. Preocupava-me com o fato de que, se qualquer membro da minha família o desaprovasse, poderia ficar impossível para mim escrever absolutamente qualquer coisa. Assim, depois de três anos de reescrever e meditar, depois de ter finalmente submetido à minha agente o que eu esperava poder ser um rascunho aceitável, ela o devolveu dizendo: “Faça-o de novo. Desta vez, conte o que você não contou.”

Quase desisti totalmente do projeto. Comecei a pensar que eu havia sido protegida demais pelos meus familiares, que estava dilacerada demais por minhas lealdades divididas entre minha família do Antigo País e minha arte americana, para dizer de fato as coisas que eu não estava dizendo. Em desespero, confiei na minha mãe, contando-lhe o modo como eu estava me torturando por causa das memórias, meu temor de escrevê-las de modo errado, de magoar as pessoas. Depois de uma pausa pensativa, minha mãe, delicada, de fala macia, professora do ensino fundamental, finalmente disse: “Bem, minha querida, compreendo que você queira ser respeitosa e não queira magoar ninguém. Sei que você ama sua família e quer fazer a coisa certa com relação a todos. Porém, afinal de contas, sabe o que eu acho? Se alguém não gostar, ao diabo com ele!”

Bem. Fiquei em silêncio, chocada. Em seguida o choque virou alívio. Minha mãe americana tinha me dado aquele algo a mais de confiança, uma crença, finalmente, no direito à minha própria história, de publicá-la abertamente. Comecei novamente a escrever. E, um ano depois, o livro The Language of Baklava era publicado.

As pessoas me perguntam com frequência porque não escrevo tanto sobre minha mãe. A verdade é que papai é simplesmente um assunto mais fácil. Não sei se é a diferença cultural ou apenas sua personalidade, mas ele é mais cômico, barulhento e excêntrico do que a maioria das pessoas que conheço. Ao mesmo tempo, acredito também com toda certeza que jamais poderia ter me tornado escritora sem o exemplo da minha mãe. Muito embora ela não tivesse um pedigree insólito, muito embora ela escutasse a mesma música que todos os outros americanos e não fosse obcecada por cozinha ou política — não importava de que país ela provinha: ela era atenciosa, respeitosa e inteligente. Ela me trazia livros; perguntava sobre mim mesma; ensinou-me a escutar e a observar, a pensar e a ler.

Depois que The Language of Baklava saiu, descobri que eu queria me aprofundar no meu passado americano, então escrevi Origin, um livro policial em que a personagem principal é uma órfã criada em Syracuse, sem nenhuma informação sobre seus pais biológicos. Era diferente de todos os livros que havia escrito e, somente por essa novidade, era profundamente satisfatório para mim.

Isso não quer dizer que tenha abandonado a exploração das minhas raízes jordanianas ou que elas não me interessem mais, mas simplesmente que, como todos os escritores, preciso continuar a me forçar a novas maneiras de encontrar e dizer a minha verdade. A maior esperança e o maior privilégio de qualquer escritor talvez seja o estímulo por liberdade artística total, o direito à recriação imaginativa. De muitas maneiras, por mais reprimida que minha educação tenha sido às vezes, agora fico contente por ter tido as duas culturas, não somente para aumentar meu sentido do mundo, mas para me aperfeiçoar. Porque às vezes, creio, é melhor não dizer tudo. Às vezes, é bom deixar que as coisas tenham um pouco de tempo para se desenvolver em silêncio e em pensamento.

Recentemente, fiz uma leitura em uma pequena livraria de Nova York. Durante o debate que se seguiu, uma mulher da platéia balançou a cabeça em sinal de aprovação e me disse: “Você escreve como uma árabe.”

Embora eu ainda não esteja completamente segura do que ela possa ter querido dizer com isso — a história trata de personagens americanas e foi escrita com toda certeza em inglês — estranhamente ainda me agrada o sentimento de afirmação e de aceitação. Depois de tantos anos de desajustamento, isso parecia finalmente uma forma de reconhecimento.

Sorri e disse, com toda a sinceridade: “Obrigada”.