Rádio Cidade PerdidaDaniel Alarcón
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O romancista peruano Daniel Alarcón emigrou com sua família de uma turbulenta Lima, no Peru, para os Estados Unidos aos 3 anos de idade, em 1980. Ainda assim a violência os afetou. Seu tio, contrário à guerrilha maoísta Sendero Luminoso, desapareceu. Mais tarde, a família soube que havia sido assassinado em 1989. A guerra é um tema recorrente em sua produção literária. Em 2006, Alarcón publicou seu primeiro livro, War by Candlelight [Guerra na Penumbra], que foi finalista do Prêmio PEN/Hemingway. Ele ganhou várias bolsas de estudo de prestígio, é editor associado da premiada revista Etiqueta Negra, publicada em sua Lima natal, e atualmente é professor visitante do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Seu primeiro romance, Rádio Cidade Perdida (2007), é ambientado em um país fictício da América Latina. É uma história de guerra e de desaparecidos que traça o destino de Rey, o marido desaparecido da protagonista. Aqui ele descreve um cenário pacífico pouco antes de Rey, ainda menino, se ver envolvido pela primeira vez pela violência política. A cadeia da cidade ficava a dois quarteirões da praça pública, compartilhando a calçada tranquila com casas humildes de empregadas domésticas e pedreiros. A parede do edifício era azul clara, decorada com uma pintura rudimentar do escudo nacional que, se examinada de perto (como Rey sempre fazia), era tão borrada e indefinida como as fotografias distorcidas que apareciam na primeira página do único jornal da cidade. Uma velha máxima indígena— NÃO MINTA, NÃO MATE, NÃO ROUBE — estava inscrito em um austero letreiro preto em cima do batente da porta, dando, talvez, à pacata cadeia uma importância não merecida. Rey gostava da cadeia: gostava de se sentar com seu tio, cujo trabalho aparentemente consistia em esperar que os problemas se manifestassem. De acordo com Trini, não havia muito disso por ali. Ele se queixava amargamente da quieta cidade e gostava de contar histórias do ano em que viveu na capital. Não havia modo de saber o que era verdade e o que era mentira. Escutava Trini contar que a cidade era povoada de ladrões, idiotas e assassinos em partes iguais. Escutava Trini contar que ele sozinho tinha sido uma máquina de combate ao crime, patrulhando as ruas sinuosas, tudo na raça e na coragem. A cidade! Era difícil imaginar: um lugar corrompido, agonizante, mais ainda, em ruínas e cheio de sombras. Mas como era? Rey não conseguia imaginar: o oceano negro borbulhante, o litoral recortado, as nuvens carregadas, os milhões de pessoas envolvidas em perpétuo anoitecer. Aqui havia sol brilhante e montanhas reais com picos cobertos de neve. Havia um céu azul, um rio serpenteante e uma praça de paralelepípedos com chafariz. Os namorados davam as mãos nos bancos de praça, as flores desabrochavam em todos os canteiros públicos e o aroma de pão fresco enchia as ruas nas manhãs. A cidade natal de Rey terminava a dez quadras da praça em qualquer direção, dando lugar a ruelas de terra, campos irrigados e pequenas casas de campo com tetos de palha avermelhada. Trini descrevia um lugar que Rey não era capaz de imaginar: uma cidade de decadência glamorosa, um lugar de luzes de neon e diamantes, de armas e dinheiro, um lugar ao mesmo tempo deslumbrante e imundo.
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