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O Índio Mais Forte do Mundo

Sherman Alexie

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos:A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Writer Sherman Alexie.
Sherman Alexie escreve poesia, prosa e roteiros, além de ser humorista stand-up
(© Erin Patrice O’Brien/Corbis )

Sherman Alexie é um índio criado na tribo Coeur d’Alene, na Reserva Indígena Spokane, em Wellpinit, Washington. Sua primeira coletânea de contos, The Lone Ranger and Tonto Fistfight in Heaven [O Cavaleiro Solitário e Tonto no Céu] (1993), recebeu o Prêmio PEN/Hemingway de Melhor Primeira Ficção. Um dos contos da coletânea foi adaptado por Alexie para o premiado filme Sinais de Fumaça. Depois da publicação do seu primeiro romance, Reservation Blues [O Blues da Reserva] (1995), Alexie foi indicado como melhor jovem romancista americano pela revista Granta. Sua prolífica produção literária continua a ser premiada. Ele também é comediante stand-up.

Os trechos abaixo, da sua coletânea de contos The Toughest Indian in the World [O Índio Mais Forte do Mundo], dão uma idéia do seu trabalho. O primeiro relato é do conto que dá título ao livro.

Em 1975 ou 76 ou 77, dirigindo sozinho por uma rodovia ou por outra, meu pai costumava chamar a atenção para alguém pedindo carona ao lado da estrada a uma milha ou duas de distância.

“Índio”, ele dizia se fosse um índio e ele nunca estava errado, embora eu nunca pudesse dizer se a figura distante era homem ou mulher, muito menos se era índio ou não.

Se por acaso a figura distante fosse um branco, meu pai continuava a dirigir sem fazer comentários.

Foi assim que aprendi a ficar em silêncio na frente dos brancos.

O silêncio não tem a ver com ódio, dor ou medo. Os índios apenas gostam de acreditar que os brancos vão se desvanecer, talvez explodir e se transformar em fumaça, se forem ignorados um número de vezes suficiente. Talvez mil famílias brancas ainda estejam esperando que seus filhos e filhas voltem para casa, sem poder reconhecê-los quando voltam flutuando como névoa da manhã.

“É melhor pararmos”, dizia minha mãe no banco de passageiros. Ela era uma daquelas mulheres spokane que sempre usavam um lenço violeta bem amarrado em volta da cabeça.

Hoje em dia, seu lenço costuma ser vermelho. Há razões, motivos, tradições atrás da escolha da cor, mas minha mãe os mantém em segredo.

“Abram espaço”, meu pai dizia para os meus irmãos e para mim que estávamos sentados no chão da cavernosa área de passageiros da nossa caminhonete azul. Sentávamos sobre amostras de carpete porque meu pai havia arrancado os assentos em um ataque sóbrio de fúria pouco tempo depois de ter comprado a caminhonete de um branco pirado.

Atualmente tenho três irmãos e três irmãs. Naquela época, eu tinha quatro de cada um. Perdi o funeral de um deles e chorei como louco durante o outro.

“Abram espaço”, meu pai dizia novamente — ele dizia tudo duas vezes — e só então nos mexíamos para dar lugar ao índio que pedia carona.

É claro que era fácil abrir lugar para um caroneiro, mas os índios costumam viajar em grupo. Uma ou duas vezes nós levamos um time inteiro de basquete só de índios, com seus treinadores, namoradas e primos. Quinze, vinte índios desconhecidos espremidos na parte de trás de uma caminhonete azul com nove crianças índias com olhos arregalados.

Já naquele tempo, eu adorava cheiro de índio e de índio caroneiro especialmente. Eles quase sempre se encontravam em algum estágio de embriaguez, frequentemente precisando de sabonete e toalha e sempre prontos para cantar.

Ah, as músicas! Blues indígenas cantados aos gritos, no volume mais alto. Nós chamávamos de “49” aquelas músicas interculturais que combinavam letras indígenas com qualquer música do Hank Williams que tivesse sido gravada. Hank era o nosso Jesus, Patsy Cline, a nossa Virgem Maria, e Freddy Fender, George Jones, Conway Twitty, Loretta Lynn, Tammy Wynette, Charley Pride, Ronnie Milsap, Tanya Tucker, Marty Robbins, Johnny Horton, Donna Fargo e Charlie Rich eram os nossos discípulos.

Todos sabemos que a nostalgia é perigosa, mas eu me lembro daqueles dias com uma clara consciência. É claro que agora vivemos numa época diferente e não há muitos índios caroneiros como costumava haver.

Em “One Good Man” [Um Bom Homem], o narrador revê sua vida enquanto cuida do pai diabético e amputado, que volta do hospital para morrer. Durante o conto, ele pergunta repetidas vezes a si mesmo e ao leitor: “O que é um índio?” — dando cada vez diferentes respostas. ‘‘O que é um índio? É uma criança que pode perambular sem aviso pelas portas de dezessete casas diferentes?” ou “O que é um índio? É um filho que pode parar no vão da porta e observar seu pai dormir?” Depois que seu pai lhe conta um sonho, ele decide levá-lo em uma viagem ao México. Este é o relato final do conto.

Sul de Tecate, Califórnia, a caminhonete quebrou. Depois, cinco minutos mais tarde, norte de Tecate, México, a cadeira de rodas do meu pai quebrou.

Ficamos parados, em pé (eu era o único em pé!), no asfalto quente em pleno sol.

“Nós quase conseguimos”, disse meu pai.

“Alguém vai nos levar”, eu disse.

“Você nos levaria?”

“Dois caras de pele morena, um numa cadeira de rodas? Acho que os agentes de imigração podem nos levar.”

“Bem, então, talvez eles pensem que somos estrangeiros ilegais e nos deportem.”

“Essa seria uma forma tremendamente irônica de entrar no México.”

Quis perguntar ao meu pai sobre suas tristezas. Quis perguntar qual foi a pior coisa que ele fez na vida. Seu maior pecado. Quis perguntar a ele se havia alguma razão pela qual a Igreja Católica deveria considerá-lo um santo. Quis abrir este dicionário e procurar as definições para fé, esperança, bondade, tristeza, tomate, filho, mãe, marido, virgindade, Jesus, madeira, sacrifício, dor, pé, esposa, polegar, mão, pão e sexo.

“Você acredita em Deus?” perguntei ao meu pai.

“Deus tem muito potencial”, ele disse.

“Quando você reza”, perguntei, “para o que você reza?”

“Isso não é da sua conta”, respondeu.

Rimos. Esperamos por horas que alguém nos ajudasse. O que é um índio? Levantei meu pai e carreguei-o cruzando a fronteira.

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Copyright © 2000 Sherman Alexie. Usado com autorização de Grove/Atlantic, Inc.