Somos uma Nação de Muitas VozesMarie Arana
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Um em cada quatro americanos está estreitamente ligado a um passado estrangeiro, e dessas várias culturas surgiu uma literatura americana nova e vibrante. Marie Arana é autora do livro de memórias American Chica [Chica Americana] e de dois romances: A Fábrica de Papel e Lima Nights [Noites de Lima]. É também a organizadora de uma coletânea de ensaios, The Writing Life [Vida de Escritor]. “Resplandecemos em um Estados Unidos de diversidade”, disse certa vez o vice-presidente dos EUA Hubert Humphrey (1965-1969), “um Estados Unidos bem mais rico pelas diferentes e distintas fibras que formam seu tecido”. Em nenhuma outra época isso foi tão verdadeiro. Atualmente, um em cada quatro de nós tem forte vínculo com um passado estrangeiro. Mais de uma pessoa em cinco nasceu em outro país, ou um de seus pais é imigrante. Somos uma nação de muitas vozes, mil e uma histórias — um solo fértil de possibilidades artísticas. Não é surpresa que dessa cultura vibrante e multicolorida tenha surgido uma nova literatura americana. O nascimento da literatura americana multicultural não foi fácil; os obstáculos podem ter sido muitos; mas teve a boa sorte de crescer em uma terra com sentimento de identidade fluido. Até mesmo os romances fundamentais de Mark Twain, William Faulkner e F. Scott Fitzgerald captaram três Estados Unidos totalmente distintos. No entanto, na década de 1950 começou a surgir um tipo diferente de escritor — um escritor cujas obras procuravam refletir não o país em geral, mas uma única sensibilidade étnica. Os primeiros foram Saul Bellow e Bernard Malamud, com seus romances profundamente judaico-americanos; depois veio Ralph Ellison com seu pungente romance sobre o racismo, Homem Invisível. A literatura dos negros americanos começou quase cem anos antes com as narrativas de escravos relatadas por Frederick Douglass. Depois que a escravidão foi abolida, ela passou da retórica inflamada de W.E.B. Du Bois para as imagens surpreendentes de Langston Hughes. E continuaria com muitas obras excepcionais de James Baldwin, Richard Wright e Gwendolyn Brooks. Mas só na década de 1970 as vozes negras começaram a fluir livremente pela veia literária dos Estados Unidos. Com Toni Morrison, Alice Walker, Ishmael Reed, Maya Angelou e Jamaica Kincaid, essa literatura americana singular tornou-se parte da corrente dominante. Superando a exclusão cultural Mas a literatura multicultural precisou de mais alguns anos para aparecer e foi além dos Estados Unidos de negros e brancos. Essa nova onda foi anunciada pelo best-seller de Maxine Hong Kingston, de 1976, The Woman Warrior [A Mulher Guerreira], livro de memórias altamente imaginativo que ousou dizer as coisas de uma maneira totalmente diferente. Repleto de fantasmas de ancestrais chineses, o livro quebrou todas as regras, misturou sonhos com realidade, conciliou identidades com toda a liberdade e fincou pé firme na superação da exclusão cultural. “Li esse livro quando jovem e pensei ‘Uau! É possível fazer isso?’”, contou-me certa vez a romancista Sandra Cisneros. “É possível pensar em outra língua com outra mitologia, mas escrever isso em inglês?” E assim começou uma nova era na literatura americana. Para os hispânicos, isso não aconteceu no vazio. Exatamente na mesma época, havia uma explosão latino-americana. As obras de Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa estavam sendo traduzidas freneticamente para o inglês. Elas penetraram rapidamente a consciência norte-americana. Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez, foi logo seguido por A Morte de Artemio Cruz, de Fuentes, e Batismo de Fogo, de Vargas Llosa — cada uma dessas obras um ponto alto na maré crescente da nossa consciência. O primeiro hispano-americano a entrar nas listas dos mais vendidos nessa época foi um escritor que não precisava de tradução: o eloquente livro de memórias de Richard Rodriguez, Hunger of Memory [Fome de Lembranças], publicado em 1981, era intenso e elegíaco, uma obra surpreendente que desafiou os desgastados estereótipos da identidade chicana. Três anos depois, veio The House on Mango Street [A Casa de Mango Street], de Sandra Cisneros, romance simples e comovente sobre uma menina mexicana de 7 anos em um gueto pobre de Chicago. Os leitores o receberam como um lampejo momentâneo de um Estados Unidos que mal conheciam. Nos anos 1990, o interesse pelas letras hispano-americanas tornou-se um comércio vigoroso. Depois que Oscar Hijuelos ganhou o Prêmio Pulitzer por seu efervescente romance sobre Cuba, The Mambo Kings Play Songs of Love [Os Reis do Mambo Tocam Canções de Amor], as editoras competiram por livros escritos por latinos de diferentes origens: Julia Alvarez escreveu vividamente How the Garcia Girls Lost Their Accents [Como as Meninas Garcia Perderam o Sotaque], sobre quatro irmãs dominicanas no Bronx; o espirituoso Sonhos Cubanos, de Cristina Garcia, fala sobre sua família de imigrantes em Miami; The Long Night of White Chickens [A Longa Noite de Galinhas Brancas], de Francisco Goldman, ambientado na Guatemala durante o regime militar; When I Was Puerto Rican [Quando Eu Era Portorriquenha], de Esmeralda Santiago, uma exaltação sonhadora à sua infância; e as tocantes histórias sobre punks dominicanos de rua em Afogado, de Junot Díaz. Nossos conceitos sobre a cultura americana passavam rapidamente por uma metamorfose. O Clube da Felicidade e da Sorte, de Amy Tan, publicado apenas uma década depois de The Woman Warrior, deu lugar a uma indústria vigorosa de literatura asiático-americana. Pouco depois vieram: China Boy [Menino Chinês], de Gus Lee, romance sobre um menino nas perigosas ruas de São Francisco; Flor da Neve e o Leque Secreto, de Lisa See, romance histórico ambientado na China antiga; Typical American [O Americano Típico], de Gish Jen, que trata não dos chineses, mas do que significa ser um cidadão nos Estados Unidos. Atualmente essa literatura ampliou seu campo de ação para incluir obras de filhos de imigrantes de outras culturas asiáticas: a nipo-americana Wakako Yamauchi; a vietnamita-americana Fae Myenne Ng; o coreano-americano Chang-rae Lee.
Escrevendo novas histórias americanas Mas o romance americano repleto de diversidade ainda está em evolução. Atualmente, escritores multiculturais incluem americanos com antepassados do Sul da Ásia: Jhumpa Lahiri (Intérprete de Males), Manil Suri (A Morte de Vishnu) e Vikram Chandra (Love and Longing in Bombay [Amor e Desejo em Bombaim]). Ou afro-americanos com raízes no estrangeiro: Edwidge Danticat, que escreve sobre o Haiti, e Nalo Hopkinson, nascida na Jamaica. Os últimos anos também trouxeram obras de americanos descendentes de imigrantes do Oriente Médio: Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas), Diana Abu-Jaber (Crescent [Crescente]) e Azar Nafisi (Lendo Lolita em Teerã). O que esses autores têm em comum? Eles compartilham o impulso de honrar seus ancestrais — um desejo de manter firmes as suas raízes. Ao contrário dos imigrantes americanos de uma era anterior, eles contrabalançam assimilação com inabalável orgulho étnico. W.E.B. Du Bois chama isso de “consciência dupla”; Richard Wright, de “visão dupla”. Qualquer que seja o nome, essa nova literatura, nascida da experiência negra, forjada por uma vontade imigrante, não pode mais ser considerada estrangeira. Ela agora é americana. Eu mesma só valorizei minhas raízes tarde na vida e só depois que me tornei escritora. Como editora por vários anos no mercado editorial de Nova York, tinha poucas razões para discorrer longamente sobre ter nascido no Peru e crescido meio peruana. Estava muito ocupada tentando ser totalmente americana, publicando livros de autores maravilhosos e me concentrando no leitor “típico”. O que queriam os americanos? Já com mais de 40 anos, fui trabalhar no Washington Post, primeiro como assistente na seção de crítica literária e depois como editora. A direção do jornal, profundamente consciente da florescente cultura hispano-americana, pediu-me para escrever sobre ela. Comecei com textos opinativos sobre a América Latina, depois escrevi artigos sobre a população imigrante, a vida dos trabalhadores migrantes, as complexidades da mente latino-americana. Por fim, comecei a trazer de volta a observadora de 10 anos de idade que era quando cheguei a este país. Quando, no final dos anos 1990, sentei-me para escrever minhas memórias sobre como é crescer em um ambiente bicultural, havia uma vasta população de pessoas como eu, uma confraria forte e vigorosa de americanos hifenizados. Agora não tem volta. Esta é uma nação, como tão bem disse Humphrey, que resplandece na diversidade. Somos mais ricos por isso: a literatura do multiculturalismo é extremamente original, impregnada de um mundo mais amplo e, no entanto, inequivocamente americana. O extraordinário romance de Junot Díaz A Vida Breve e Bizarra de Oscar Wao, sobre a identidade dominicana, não poderia ter sido escrito sem as ruas de Nova Jersey. O comovente livro de memórias do Haiti de Edwidge Danticat, Brother, I’m Dying [Irmão, Estou Morrendo], não existiria se sua família não tivesse se mudado para a cidade de Nova York. O que esses autores pioneiros fazem é voltar atrás para moldar um novo Estados Unidos. Um pé permanece em um país distante, mas o outro está fincado aqui.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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