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Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos:A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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ack Gladstone
Radicado no estado de Montana, Jack Gladstone incorpora as histórias dos índios americanos em suas poesias e canções (Foto: Katherine Fogden/
Museu Nacional do Índio Americano)

Você sentiu o búfalo ir
Ouviu a diligência rolar …
Montou seu pônei
Em Moccasin Flat na alvorada do século
As trilhas viraram estradas
E as estradas envelheceram ...
Ouvimos as histórias que nos contou.

De “Speak to Me Grandma”, de Jack Gladstone


Radicado no estado de Montana, Jack Gladstone, compositor e contador de histórias da nação Blackfeet, situada no norte das Grandes Planícies, mantém a tradição de sua tribo na poesia. Gladstone aprendeu histórias aos pés de sua avó, a quem ele homenageia com a canção “Speak to Me Grandma”. Ele cita as narrativas orais dos Blackfeet como referência nas canções que escreve e em suas apresentações e palestras.

“O objetivo da tradição de contar histórias é reafirmar a identidade”, diz Gladstone, que vê mecanismos paralelos em outras culturas, como as narrativas dos aborígenes australianos do Festival de Dreamtime: “Os Blackfeet referem-se a esses relatos como ocorridos ‘há muito tempo’” ou a partir da expressão ‘era uma vez’”.

“Mas quando entramos na trama dessa tradição, é importante deixar de lado a questão de se essas histórias são lógicas, racionais ou reais como tais. As verdades que transmitem podem não ser verdades históricas, mas têm algo da sabedoria perene.” As histórias mostram “a luz e a sombra, o herói e o malandro”, afirma Gladstone. “O malandro pensa que ele é o centro do universo e o centro das atenções, (…) e o herói reconhece que é simplesmente parte de algo muito maior e que se encontra a serviço de um poder mais elevado.” São “personificações da energia”, enfatiza o trovador; “chamamo-os de deuses … as expressões do grande sentimento misterioso”. O “grande misterioso” é como os Blackfeet definem as coisas que estão além do entendimento comum — “dois adjetivos. Depois de chegarmos a isso, não temos mais palavras”, completa.

“Uma das tragédias que vejo se desenrolar ao meu redor e, até certo ponto, dentro de mim e de minha própria família, é que as histórias que eram outrora transmitidas não são mais passadas adiante como antes”, conclui Gladstone, atribuindo esse estado de coisas às muitas distrações da tecnologia moderna. Ele percebe uma separação cada vez maior entre o material e o espiritual. “Na cabeça da minha avó havia um movimento fluido entre os dois”, afirma. Procura transmitir a antiga sabedoria por meio de lendas, histórias instrutivas e “parábolas da minha própria vida”. Suas músicas evocam a força da natureza, o espírito e as experiências da vida cotidiana. “Ao invés de querer manter meu público no passado, procuro seduzir os ouvintes e cativá-los para que sintam vontade de transportar aquele tempo para os dias atuais, agora, e reencontrar essa lição no presente.”

Os Estados Unidos são uma nação onde “um aprende com o outro ao longo do caminho”, declara Gladstone:

Uma nação nascida dos sonhos de muitas pessoas.

Somos os responsáveis pelas histórias dos que vieram antes de nós;

Os guardiões das montanhas e dos rios.

De “America…Pass It On”

Segundo ele, as tradições orais podem sobreviver quando a mídia efêmera é destruída: “A única coisa na qual podemos realmente confiar a longo prazo é na tradição oral. Não só o conhecimento, os valores e a identidade são reidentificados e reafirmados no contar, mas há também esse conceito de vir a ser. Continuamos a nos transformar em seres humanos. Sem nossas histórias, não podemos mais atingir essa condição.”