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Novos Contos do Imigrante:
Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina

Glenda Carpio

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos:A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Glenda Carpio
Glenda Carpio, especialista em literatura multicultural, leciona na Universidade Harvard (Cortesia: Michele Asselin)

Glenda R. Carpio é autora de Laughing Fit To Kill: Black Humor in the Fictions of Slavery [Gargalhada para Matar: Humor Negro nas Ficções da Escravidão] (2008) e trabalha atualmente em um livro sobre a ficção negra e latina das Américas. É professora associada de Estudos Africanos e Afro-Americanos e de Língua Inglesa na Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts.

Junot Díaz, que em 2008 ganhou o Prêmio Pulitzer por seu romance A Vida Breve e Bizarra de Oscar Wao (2007), foi entrevistado recentemente por Stephen Colbert, apresentador de um programa satírico de entrevistas. A título de provocação, Colbert perguntou ao autor, que saiu da República Dominicana para os Estados Unidos com 7 anos de idade, se ao ganhar o prêmio ele não teria privado um americano da possibilidade de ser vencedor do Pulitzer. Rápido na resposta, Díaz retrucou que o próprio Pulitzer havia sido um imigrante e teria se sentido feliz ao saber que ele tinha recebido o prêmio. Em forma de brincadeira, a troca de palavras representa um certo sinal de alerta para o fato de os latinos terem sido identificados como a minoria que mais cresce nos Estados Unidos, grupo cujo número já superou o de afro-americanos. A premissa aqui implícita, naturalmente, é o medo tanto de ter uma maioria não branca quanto de os latinos se tornarem uma maioria não negra que concorrerá, de maneira desleal, com os afro-americanos na busca por emprego e tudo o mais.

Mas quem e o que são os latinos? O termo latino omite enormes diferenças de classe, gênero, raça, origens regionais e histórias coloniais. Mesmo o outro termo concorrente, hispânico, é enganoso, dado os muitos latinos que não falam espanhol. Latino e hispânico são termosprovisórios no melhor dos casos, uma vez que sugerem de maneira imprecisa um complexo conjunto de experiências — ao mesmo tempo multinacional e unicamente americano — compartilhado por uma grande variedade de imigrantes e descendentes de imigrantes no cenário contemporâneo dos EUA. Assim, é complexa a questão de como esse grupo se autodefine e é definido pelos de fora. No entanto, na mídia popular americana, o termo latino (também prefiro usar esse termo) foi quase totalmente destituído de sua complexidade. Em especial, na forma como as representações populares têm tendido a erradicar a diversidade racial dos latinos. Muitos latinos são negros, especialmente de acordo com os códigos em vigor nos Estados Unidos. São ainda muitas vezes nativos americanos (com origem na variedade de culturas indígenas das Américas), mas esse fato também é obscurecido pelas categorias “latino” e “hispânico”.

Junot Díaz
Vencedor do Prêmio Pulitzer, o escritor Junot Díaz, que imigrou da República Dominicana quando criança, leciona no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (© Jim McKnight/ AP Images)

Desde sua estréia na literatura em 1996, o escritor dominicano Junot Díaz tem dado expressão extremamente perspicaz às complexidades de ser afro-latino e imigrante nos Estados Unidos. Em sua coletânea de contos Afogado (2006) e em seu romance, Díaz protege-se de uma comoditização da história do imigrante e da redução de suas características ao usar uma saudável dose de humor. A sensibilidade de Díaz tem muito a ver com a do falecido ator comediante Groucho Marx, que gostava de brincar com o antigo ditado de que as ruas americanas eram pavimentadas com ouro. Quando os imigrantes chegam aqui, disse Groucho Marx, eles aprendem, primeiro, que as ruas não são pavimentadas com ouro; segundo, que as ruas não são de forma alguma pavimentadas; e, terceiro, que se espera que eles mesmos as pavimentem. Este é um dos mais poderosos dons de Díaz: senso de humor irônico para escrever uma literatura de imigrantes sem obsessão por identidade e imigração, bem como uma literatura afro-latina sem obsessão por raça. Em vez disso o foco é centrado no ofício e na arte de mostrar, por meio da linguagem, o que significa ser negro, latino e imigrante nos Estados Unidos.

Díaz tumultua a linha de cor e as convenções longamente cultivadas pela literatura do imigrante ao se recusar a fazer papel de informante nativo que deveria esclarecer um público dominante de maioria branca; ele rejeita a angústia de viver afogado entre hífens: entre duas línguas, entre duas culturas. Díaz também se recusa a embranquecer a cultura latina. Abraça, em vez disso, as profundas raízes africanas de seu país de origem e explora toda a sua complexidade racial. Por fim, desafia autores de minorias étnicas a se interligar. Adota a estimulante liberdade de improvisar para fundir línguas – experimenta com as gírias hispano-dominicana, hispano-latina e afro-americana, bem como com a linguagem de ficção científica — dentro de um arcabouço histórico que sustenta seu trabalho. Destaca a diáspora africana como contexto histórico comum compartilhado pelas diferentes culturas das Américas. A linguagem vigorosa de Díaz serve para dar voz à consciência afro-latina, consciência emudecida com muita frequência nos Estados Unidos e em outros países das Américas, ao mesmo tempo que apresenta um novo modelo vibrante e desafiador da expressão imigrante.