De Ruanda para os Estados Unidos:
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Immaculée Ilibagiza imigrou para os Estados Unidos em 1998. Seu primeiro livro, Sobrevivi para Contar (2006), descreve suas experiências durante o genocídio de Ruanda. Seu livro mais recente é Led by Faith [Guiada pela Fé] (2008). A autora ministra palestras inspiradoras sobre paz, fé e perdão.
Em 1994 tive uma experiência responsável por criar em mim um desejo insaciável de compartilhar minha história com as pessoas de todos os lugares. Nesse ano estava em casa para passar o feriado prolongado da Páscoa. Dois dias antes de retornar à escola, encontrei-me no meio de um dos mais sangrentos e eficientes genocídios da história do mundo. Na manhã de 7 de abril, o avião do presidente Habyarimana foi abatido e iniciou-se o genocídio. Meus pais, que eram professores, concordaram quando meu irmão sugeriu que eu deveria ir embora e me esconder. Eu era uma menina entre três meninos e, quando resisti à ideia de me esconder, meus dois irmãos e meus pais insistiram que eu deveria partir. Felizmente meu irmão Aimable estava estudando no Senegal na época, de modo que todos sabíamos que ele estava seguro. Contra a minha vontade, e estritamente em respeito e obediência aos meus pais, escondi-me na vizinhança, na casa de um pastor luterano, membro da tribo hutu. Eu era tútsi, e era a minha tribo que estava sendo caçada. Após minha chegada à casa do pastor, ele me colocou num banheiro de 1x1,5 m com cinco outras mulheres. Mais tarde, mais duas mulheres juntaram-se a nós. O pastor orientou-nos a ficar quietas e assegurou-nos de que não contaria nem mesmo a seus filhos, que viviam na casa, que estávamos escondidas embaixo de seus narizes. Disse-nos que a guerra provavelmente duraria alguns dias e, certamente, não mais do que uma semana. Após três meses ainda estávamos naquele banheiro, sentadas em total silêncio com medo de sermos descobertas. Durante aquela época, recebíamos muito pouca comida e a casa foi revistada inúmeras vezes por nossos atormentadores. Quando saímos do banheiro, deparamo-nos com nosso minúsculo país coberto por um milhão de cadáveres. Naquela noite, descobri que todos que eu tinha deixado para trás haviam sido brutalmente assassinados. Não parava de pensar que tudo aquilo fazia parte de um pesadelo terrível e que em algum momento eu acordaria, mas infelizmente vivia uma nova realidade. A realidade assemelhava-se com o que eu havia imaginado ser o fim do mundo. Durante o tempo em que vivi no banheiro, passei por uma transformação física e espiritual. Meu corpo reduziu-se a cerca de apenas 30 quilos, mas minha fé e vontade permaneceram sólidas como uma rocha. Consigo me lembrar do momento exato em que implorei a Deus que me permitisse contar ao mundo minha história e as lições que aprendi durante meu confinamento. O desejo de compartilhar o que transbordava de meu coração e em meu país era algo que eu não podia ignorar. Contudo, de modo geral, não faz parte da cultura dos ruandeses escrever livros ou histórias. Nosso país é às vezes chamado de “a terra das palavras”. Faz parte da tradição de meu povo transmitir nossas notícias e nossa história de geração a geração em reuniões familiares por meio da tradição oral. Todavia, não havia ninguém a quem contar as histórias porque minha família e meus vizinhos haviam morrido. Nunca me considerei capaz de escrever algo que outros fossem ler, entretanto, o pensamento não me abandonava. Não conseguia começar a conceber como meu sonho de escrever poderia tornar-se realidade. Não sabia nada sobre o que era escrever e nunca tinha conhecido um autor. Mas quando coloquei minha fé em Deus, soube que nada era impossível. Minha fé permitiu-me manter viva a esperança. Ansiava por compartilhar a história de meus pais e as lições que me ensinaram até o último dia em que os vi. Suas sábias palavras haviam forjado a mulher que me tornei. Indagava-me como seguiria em frente sem poder falar com eles ou ir em busca de seus conselhos. Sabia que suas palavras e memória ficariam comigo para sempre, mas eu queria contar às pessoas como minha bela família havia terminado. Durante o tempo em que vivi no banheiro, passei da raiva e do ódio àqueles que nos caçavam ao perdão. Vivi a dor da raiva enquanto nutria fantasias sobre matar aqueles que tentavam matar a mim e a meus entes queridos. Minha raiva era como veneno em minha alma. Era simplesmente muito pesado e doloroso carregar o fardo de odiar milhões de pessoas. Parecia que o mal e o ódio estavam me sufocando até o momento em que pedi a Deus para me mostrar como ver o bem nas pessoas, como amar, como sorrir. Lembro-me com clareza do momento em que meu coração libertou-se da raiva. Perdão é a única palavra que me vem à mente quando tento expressar meu sentimento naquele momento. Se não estivéssemos escondidas, teria gritado de alegria para minhas companheiras cativas no banheiro como elas eram bonitas, embora, na verdade, todas parecêssemos esqueletos vivos e nenhuma de nós tomasse banho há meses. Percebi que os assassinos estavam realmente cegos de raiva e ódio. Percebi ser incapaz de mudar o que estava em seus corações e que não mudaria nada competindo com seu ódio. Perdoá-los não significava que eu deveria me transformar em vítima, permitindo a outra pessoa me ferir. Tampouco significava que eu deveria ignorar a verdade ou ser ingênua. A justiça pode ser uma forma de perdão se feita com o propósito de transformar uma pessoa, e não de feri-la ou vingar-se. Guardei essas lições em meu coração e intuitivamente sabia que elas não eram somente para mim, mas para serem compartilhadas com outras pessoas; porém, ainda me questionava sobre como poderia compartilhar essa história. No fim de 1998, os perpetradores do genocídio ameaçaram me matar, assim como haviam matado muitos outros sobreviventes, pois as testemunhas da matança representavam uma ameaça para eles. Teria ficado orgulhosa de prestar um depoimento, mas a verdade é que não denunciei nenhum dos assassinos. Eu não havia testemunhado nenhum assassinato pessoalmente e sabia que aqueles que me haviam perseguido haviam sem dúvida matado muitas outras pessoas. Confiava em que seriam devidamente processados. Como muitos outros sobreviventes, visitei a prisão para ver os assassinos de nosso povo. Conheci um homem que assassinara alguns membros da minha família e ofereci-lhe meu perdão. Sabia que não seria uma boa testemunha, mas mesmo assim meu nome apareceu no jornal logo após minha visita. Fui identificada como uma testemunha acusada de mandar pessoas inocentes para a prisão. Sabendo estar em risco, e aconselhada por amigos americanos, decidi deixar meu lar em Ruanda e imigrar para os Estados Unidos. Nessa época, trabalhava nas Nações Unidas em Ruanda, um dos melhores empregos do país, mas sabia que deveria partir. Tenho convicção de que minha mudança para os Estados Unidos foi inspirada por Deus. Contudo, meus primeiros meses lá não foram fáceis. Descobri-me vivendo em uma cultura completamente estranha e encontrava dificuldade em integrar-me ao meu novo ambiente. Nunca havia vivenciado um inverno antes e cheguei exatamente no início da estação. Para piorar as coisas, fiquei grávida pela primeira vez na vida. Era a primeira vez que vivia dias curtos, noites longas e vice-versa. Em Ruanda, a temperatura gira em torno de 18° C e 21° C durante o ano todo. O sol se põe às 18 horas e nasce às 5 horas da manhã todos os dias. Kigali e Nova York eram como o dia e a noite. As duas cidades não poderiam ser mais diferentes. Embora tivesse de ajustar-me a muitas novidades, tinha a firme convicção de ter nascido para viver nos Estados Unidos. Era um país onde todas as raças e tribos se sentiam em casa. Quando olhava para as pessoas ao meu redor, a liberdade era visível em todas os rostos. Era quase como se pudesse sentir o cheiro de liberdade no ar. As pessoas vestiam e faziam o que quisessem e ninguém parecia se surpreender com nada. A quantidade de escolas e oportunidades era impressionante. Qualquer aula que desejasse assistir ou qualquer emprego ao qual desejasse me candidatar estava ao alcance de minhas mãos. Nova York parecia ser o centro do mundo. Havia mais variedade de roupas, carros e pessoas do que jamais vira em minha vida.
A cordialidade e a disposição das pessoas para ajudar era muito surpreendente. Nunca esquecerei o dia em que o pneu do meu carro furou. Não percebi que estava com o pneu furado até que um carro me ultrapassou, bloqueou minha passagem e forçou-me a parar. Dois rapazes vestindo camisetas brancas desceram sorridentes e com ferramentas para consertar meu carro. Consertaram o carro, deram-me um pneu e partiram com um sorriso caloroso. Até hoje ainda me pergunto se eram anjos do céu ou pessoas reais. Após algum tempo, fui tomada por um desejo avassalador de escrever minha história. Levei três semanas para escrever meu primeiro rascunho. Quando voltei ao texto após algum tempo, levei mais três meses para rever meu rascunho inicial, pois na época estava empregada e tentava dar conta de revisar o texto e trabalhar. Os amigos americanos que conheciam minha história incentivavam-me a escrever. Três dias após terminar de escrever, fui a um workshop em Nova York. Não tinha nenhuma expectativa além de passar algum tempo na companhia de amigos. No fim do workshop, conheci um escritor que me perguntou como estava. Respondi: “Bem”; e depois dessa única palavra perguntou-me de onde era meu sotaque. Disse-lhe que era de Ruanda . Nesse momento, ele arregalou os olhos e perguntou: “Você sabe o que aconteceu lá?” Contei-lhe o que tinha acontecido em poucas palavras. Estávamos ambos com pressa. Ele estava autografando seus livros e eu não queria segurar a fila. Então ele me disse que se eu terminasse meu livro me ajudaria a encontrar uma editora. Como prometido, apresentou-me à sua editora e a um editor algum tempo após nosso encontro. Oito meses após nos encontrarmos, meu primeiro livro, Sobrevivi para Contar, foi publicado. Para minha grande surpresa, tornou-se um best-seller do New York Times apenas duas semanas após ser lançado. Sou muito grata ao povo americano, que recebeu minha história de braços abertos. Eu me perguntava como os americanos poderiam entender semelhante horror. Contudo, eles o entenderam. Choraram por meus pais, riram comigo e identificaram-se com minha luta com a fé. Narrar minha história permitiu-me curar a ferida em meu coração. Nos Estados Unidos encontrei um lar e um ombro para chorar. Meus filhos são americanos e tenho orgulho disso. Já não me sinto uma forasteira. Vibro com cada vitória e choro com qualquer má notícia que atinge meu novo lar. Mais importante, olho para o futuro desse país com esperança e rezo por seu bem-estar. Quando criança, vivendo no pequeno vilarejo de Mataba, em Ruanda, ensinaram-me que os Estados Unidos eram a terra da oportunidade. Hoje acredito mais do que nunca que isso é verdade. Nos Estados Unidos consegui contar minha história. |
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