Literatura na EncruzilhadaTayari Jones
| ||||
|---|---|---|---|---|
Natural de Atlanta, Geórgia, Tayari Jones escreve sobre o Sul urbano. Seu primeiro romance, Leaving Atlanta [Deixando Atlanta] (2002), ganhou o Prêmio Hurston/Wright de Primeira Obra de Ficção e foi considerado um dos melhores do ano pelos jornais The Atlanta Journal-Constitution e The Washington Post. Seu segundo romance, The Untelling [O Inenarrável] (2005), ganhou o Prêmio Lillian C. Smith para Novas Vozes. Beneficiária de prestigiadas bolsas de estudo, entre as quais a Yaddo, a Colônia MacDowell e a Conferência de Escritores de Bread Loaf, é atualmente professora assistente do programa de mestrado de Belas-Artes da Universidade Rutgers em Newark, Nova Jersey.
Ao contrário de muitos dos meus pares, os rótulos me causam um fascínio divertido. No que me diz respeito, quanto mais rótulos melhor. Tayari Jones é uma afro-americana, sulista, de classe média e escritora destra. É a escritora da família. Uma escritora que usa suéter verde e come crème brûlée no café da manhã. Não me incomoda ser identificada por descritores desde que sejam verdadeiros, e eu possa escolher os que preferir. O problema dos rótulos não é o rótulo em si mesmo, mas as reações que provocam em alguns leitores. Tradicionalmente, têm sido usados para designar um status menor. A simples rejeição a rótulos não questiona o sistema de castas que os origina em primeiro lugar. Ao contrário, o ato de evitar o rótulo “escritor afro-americano” pode de fato inserir novamente conceitos ofensivos. Há uma razão para as pessoas falarem algumas vezes: “Sua produção literária é boa demais para estar na seção ‘negra’ da loja!”, como se a separação dos negros do resto da sociedade fosse uma questão de mérito. O bondoso leitor procura me defender do racismo, ao invés de atacar a besta propriamente dita. Mas, no momento mesmo em que escrevo isso, as próprias questões parecem pouco importantes apesar do meu profundo envolvimento com as palavras que escrevi. Parece impossível responder a qualquer pergunta sobre ser uma escritora afro-americana sem deixar de atentar para a questão do que é ser lida como uma escritora afro-americana ou, de forma ainda mais delicada, ser comercializada como tal. A artista em mim se aborrece com essa história, uma vez que o que eu faço com caneta e papel não é realmente abordado. O ato de escrever em si é um trabalho espiritual da imaginação. Sozinha com a página, eu não penso nas práticas de organização das prateleiras das cadeias de livrarias, não me preocupo com o tipo de linguagem que será escolhido pelos críticos. Quando escrevi meu primeiro romance, Leaving Atlanta, fui movida pelo desejo de contar a história de crianças afro-americanas de Atlanta que viveram — e morreram — durante os assassinatos de crianças entre 1979 e 1981. O romance retrata a história emocional de uma geração em um determinado tempo e lugar — e muito do seu valor provém dessa função. Embora os acontecimentos dessa época terrível sejam agora considerados históricos, pareciam para mim mais memória do que história. Em 1979, eu era uma menina de 10 anos com dentes muito grandes e poucos amigos. Ao chegar aos 12 anos, dois meninos de minha turma da quinta série estariam mortos e os cadáveres de muitos outros espalhados pelo cenário da minha terra natal, uma “cidade muito ocupada para odiar”. Atingir a maioridade contra o pano de fundo desse horror foi uma forma de aprender a entender o custo da negritude. Quando sentei para escrever o meu primeiro romance – que chamo meu baby — o projeto parecia mais uma missão urgente para contar a verdade, em vez de uma tarefa acadêmica para “preencher as lacunas da história”, a qual é muitas vezes vista como a “obra” do escritor afro-americano. Embora realmente aplauda aqueles escritores que usaram sua imaginação para traduzir em ficção as vozes perdidas das gerações passadas, acredito que os escritores afro-americanos devem também adotar as narrativas contemporâneas. Embora os escritores afro-americanos tenham reconstruído belamente o passado — o brilhante romance Amada de Toni Morrison vem à mente —, não devemos ficar tão obcecados para preencher as páginas deixadas em branco por um registro histórico incompleto, ao ponto de não registrar o significado de nossas próprias vidas. Não gosto de imaginar minha própria neta forçada a depender dos arquivos das bibliotecas para reconstruir minha vida porque exauri todos os recursos e talento meditando sobre o passado. Em algum ponto, escritores sérios devem se comprometer o mais entusiasticamente possível a transformar nossas próprias experiências em arte. * * * A transformação da experiência em arte, da observação em arte, da emoção em arte ou mesmo da idéia em arte é a alquimia do escritor. Essa mágica acontece no meio do caminho entre o cérebro e o coração. Talvez o local encantado seja a garganta, onde a voz nasce. Todos os meus romances se passam em Atlanta, Geórgia — minha cidade natal. Os centros urbanos do Sul dos EUA são os cenários favoritos da minha obra. Eu os amo porque são espaços onde o velho mundo encontra a nova tecnologia, onde os marcos de raça, classe, gênero e política são frequentemente trocados durante a noite, de modo que quando meus personagens acordam pela manhã não têm a menor idéia de onde se encontram e devem passar o resto da história na procura. Estamos juntos nessa — minhas personagens e eu. Estamos sempre em busca da verdade. E a verdade, como sabemos, é universal. Pode ser que eu caia em contradição neste ensaio. No início eu falo da especificidade da minha experiência como afro-americana. Cheguei até mesmo a defender a seção separada das livrarias americanas. Mas então, apenas alguns parágrafos depois, começo a divagar abstratamente sobre a universalidade e a transcendência da arte. Para mim, esses pensamentos certamente não se contradizem. Eles se cruzam. Em muitas tradições da diáspora africana, a encruzilhada é um lugar sagrado onde o mundo mortal e o mundo espiritual se superpõem. Penso na literatura afro-americana como uma arte que se sente em casa no local onde dois caminhos se encontram. Ligados ao mundo físico, os escritores afro-americanos falam da realidade do nosso povo diversificado e brilhante. As maneiras como interpretamos essa realidade tangível são tão variadas quanto nossos rostos. Não existe nenhuma realidade autêntica distinguindo a literatura afro-americana, mas há algo como testemunho autêntico, que é determinado pelo escritor e sua consciência. Mas nesse caminho espiritual se encontra aquilo que nos une como seres humanos, que é mais importante que nossas realidades construídas. Para terminar esta história no ponto onde comecei, vamos voltar à livraria com suas seções separadas. Aos meus amigos e leitores que ficam consternados ao encontrar meus livros em uma seção que consideram “anormal”, eu os estimulo a ser mais prudentes. O letreiro acima da prateleira que mostra meus romances, histórias humanas de amor, de família e do lar não os torna “anormais”. O letreiro apenas lembra ao comprador que sou afro-americana, que minha obra possui rica tradição histórica. É um convite a conhecer as qualidades humanas das vidas descritas nessas obras de arte diversas, porém interligadas. Não acredito que a verdade possa ser inimiga da arte, e o letreiro ali dependurado revela uma verdade complicada, mas inequívoca. Ao ficar diante dessa prateleira marcada, você se encontra naquela encruzilhada mágica e mítica. Dá para ousar sentir ambas as coisas ao mesmo tempo? Qualquer que seja a sua reação emocional diante da franca descrição racial da autora, ela representa seu pé sobre esse caminho sólido, fincado na terra, mas dá para ousar vivenciar essa outra coisa, essa coisa extra humana? A literatura afro-americana, como toda literatura, é alimento para as almas de todas as pessoas. Dá para adotar o rótulo e avançar, absorvendo sua relevância e irrelevância simultâneas? É difícil percorrer ambos os caminhos, mas você pode fazer isso. E eu acredito que conseguirá. Você só precisa aceitar a fome de sua alma, e fome é expressão da maior necessidade humana de todas. |
||||