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Escrevendo a partir de
uma Perspectiva Étnica Complexa

Persis M. Karim

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos: A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Persis Karim
A poetisa e editora Persis Karim descobre um
recurso rico em suas raízes persas (Foto: Adlai Karim)

Nascida nos Estados Unidos, Persis Karim é poetisa e organizadora da antologia Let Me Tell You Where I’ve Been: New Writing by Women of the Iranian Diaspora [Deixem-me Contar por Onde Estive: Nova Produção Literária de Mulheres da Diáspora Iraniana] (2006). Ela é coorganizadora e coautora de A World Between: Poems, Short Stories, and Essays by Iranian-Americans [Um Mundo Intermediário: Poemas, Contos e Ensaios de Iraniano-Americanos] (1999) e, atualmente, professora associada de Inglês e Literatura Comparada da Universidade Estadual de San José, em San José, Califórnia.

Um aspecto característico de ser americano é o fato de colocar você literalmente em contato com o mundo. Como filha de imigrantes do pós-Segunda Guerra Mundial, cresci sentindo que os Estados Unidos eram um lugar de oportunidades e refúgio e que para meus pais a decisão de tornar-se americanos significava privilégio e responsabilidade. Para meu pai, um iraniano que viu mudanças drásticas em seu país como resultado da descoberta de petróleo e da política da Guerra Fria, vir para os Estados Unidos representou uma oportunidade de refazer e reinventar suas possibilidades e metas individuais. Depois de passar pela ocupação do Irã por tropas soviéticas e britânicas durante a guerra, ele pensou muito sobre o que aconteceria com o Irã e com sua própria vida. Quando jovem, leu sobre os ideais democráticos americanos incorporados na Constituição dos EUA e sobre a ideia de os Estados Unidos serem, conceitualmente, um ponto de destino para pessoas que se sentiam limitadas pela política de Estados-nação que emergiam do jugo do controle imperial e colonial. Para minha mãe, uma imigrante que vivenciou as devastações da guerra e da ocupação na França, os Estados Unidos eram um lugar para reencontrar os vislumbres dos valores americanos inflamados que ela notou nos soldados dos EUA quando lhes ensinava francês, já perto do fim da guerra. Para meus pais, os Estados Unidos tinham uma fascinação onírica que lhes permitiu começar vida nova. Eles vieram para cá em parte por acidente, mas a intenção de permanecer e tornar-se americanos foi muito ponderada.

Fui criada no norte da Califórnia, em um bairro de classe média predominantemente de brancos e anglo-saxões, com uma ideia confusa da minha própria identidade. Inconscientemente, tentei assumir uma identidade californiana e americana. Contudo, desde muito cedo experimentei forte percepção da minha diferença. Minha família não estava rodeada nem por uma comunidade iraniana ou francesa, nem por nossos parentes, mas mesmo assim me senti etnicamente marcada. Talvez fosse meu nome, minha aparência, o que comíamos (grande quantidade de arroz e cordeiro) ou, talvez, fosse minha própria atração, decididamente forte, pela noção de “os outros” que ficava mais fortalecida à medida que eu me tornava mais consciente das notícias do mundo. Foi a Guerra do Vietnã que me alertou, em primeiro lugar, para o mundo fora dos Estados Unidos, mas foram os acontecimentos posteriores que me deram uma conscientização maior da minha identidade iraniano-americana.

Durante os anos 1970, quando os Estados Unidos começaram a desempenhar um papel mais ativo e visível na política do Oriente Médio, minha curiosidade a respeito do Irã ficou mais aguda. Na época em que entrei no ensino médio, o Irã era uma grande preocupação na política externa americana. Meu pai, já desiludido pelo golpe de estado patrocinado pelos EUA em 1953 contra o primeiro-ministro do Irã Mohammed Mossadegh, eleito democraticamente, já começara, durante minha adolescência, a verbalizar suas opiniões e ser mais crítico com relação ao papel dos EUA no seu país de origem. Embora eu não tivesse pontos de vista políticos claros e somente uma compreensão limitada do Irã, comecei a fazer perguntas sobre o significado de ser americano. Na época da crise dos reféns americanos e da erupção da revolução iraniana de 1979, comecei minha própria exploração das origens do meu pai e senti, cada vez mais, necessidade de compreender e explorar essa parte das minhas origens.

Para mim, a literatura e a produção literária forneceram a janela mais importante para minhas raízes iranianas. Quando eu era criança, meu pai compartilhava comigo sua paixão por poesia. Ele lia em voz alta em persa e inglês as obras dos grandes poetas persas Hafez, Rumi e Khayyam, bem como de poetas britânicos e europeus como Baudelaire, Shelley e Shakespeare. Seu amor pela literatura e pela leitura era contagioso e tornou-se para mim o modo mais importante de satisfazer minha crescente curiosidade sobre o Irã e a cultura iraniana. Nessa época, o Irã estava em ebulição, e a mídia americana representava constantemente o país e seu povo de forma dura e negativa. Até a cultura popular era descortês para com o Oriente Médio. Minha adolescência foi marcada pelo epíteto pejorativo “jóquei de camelo”, e a canção de maior sucesso nas rádios AM era “Ahab, o árabe”. Como jovem adulta, descobri-me querendo defender o país de meu pai e seu povo da acusação de serem “extremistas, terroristas, tomadores de reféns”. Na escola, nas ruas da cidade e nos noticiários da TV, as pessoas em volta de mim entoavam “Bombardeiem o Irã” e “Iranianos, voltem pra casa!”

Em casa eu ouvia a análise do meu pai, astuta e mais complexa, dos acontecimentos políticos que se desenrolavam em Teerã. Comecei a entender que os acontecimentos que ocorriam lá eram tanto o resultado de problemas criados por meu país, os Estados Unidos, quanto o resultado de uns poucos extremistas que haviam tomado americanos como reféns na embaixada dos EUA. Esses acontecimentos e as imagens excessivamente simplistas do Irã na mídia me deixavam ainda mais curiosa sobre o que estava ocorrendo naquela nação. Em vez de me retrair devido à raiva e à hostilidade demonstradas contra a comunidade dos imigrantes iranianos, levei o assunto mais a sério e me comprometi a aprender sobre o Irã e a minha identidade iraniana. No decorrer do meu aprendizado, então e agora, sempre volto à literatura e ao poder de representação que ela confere ao escritor. Lentamente, comecei a sentir o surgimento de um sentimento de propriedade em primeira pessoa vindo da minha herança de sangue mesclado e de imigrante. Eu era então compelida pela ideia de escrever “nossa” narrativa, contar “nossa” própria história. Tornou-se uma espécie de missão, para mim, ajudar a narrar a história da comunidade dos imigrantes iranianos nos Estados Unidos, que continuava a crescer à medida que os acontecimentos da revolução, da crise dos reféns e da guerra Irã /Iraque se desenrolavam e à medida que a iconografia cada vez mais negativa do Irã se cimentava na mentalidade americana. Iniciei uma jornada com o objetivo de reivindicar um pouco da minha ‘iranianidade’, explorando os modos pelos quais o Irã e a cultura iraniana me haviam influenciado como escritora e como cidadã dos Estados Unidos.

Como escritora, comecei a perceber o valor – até a vantagem — de expressar as características complexas e matizadas de minha formação não inteiramente americana. Queria atrelar e desenvolver uma perspectiva e uma voz como escritora que fizesse parte da época específica em que cresci. Também queria escrever sobre todos os diferentes modos pelos quais minhas raízes e minha diferença me ajudaram e me forçaram em um processo de autodefinição que só podia ser possível nos Estados Unidos, um lugar onde definir-se não é uma proclamação estática, mas um processo dinâmico continuamente influenciado pelos diálogos políticos e culturais mais amplos que fazem parte da estrutura que circunda a vida americana. Foi preciso um certo tempo para os leitores americanos reconhecerem as complexidades, as dificuldades e a beleza da experiência do imigrante iraniano — e da vasta literatura que agora descreve essa experiência. Uma literatura jovem mas florescente da Diáspora Iraniana finalmente se estabeleceu. Essa sensibilidade literária iraniano-americana é atenuada pelo sentido de perdas e deslocamento da primeira geração de imigrantes iranianos, mas também pelo reconhecimento do que a imigração tornou possível para a segunda geração. Os iraniano-americanos têm um profundo apreço pela liberdade de expressão e pela oportunidade de criar uma nova cultura literária que inclui as vozes de escritores historicamente excluídos ou minimizados na tradição das letras no Irã; isso inclui as vozes das mulheres, de minorias religiosas e culturais e de dissidentes políticos.

Em minha jornada como escritora, tentei encontrar e ligar os fios da minha complexa herança cultural. Aproveitei a riqueza da viagem de meus pais aos Estados Unidos, um dos inúmeros resultados involuntários e coincidentes da Segunda Guerra Mundial. Foi uma guerra que alterou os rumos de governos de todos os cantos geográficos e políticos do globo, mas cujos abalos se espalharam afetando a vida de milhões de pessoas e terminando por levar meus pais de suas casas para o mesmo salão de baile em Chicago, em uma época que apresentava um grande sentido de esperança e oportunidade a ambos. Como escritora, valho-me muito da ideia de que filhos de imigrantes devem narrar um pouco das suas próprias histórias, como crianças nascidas neste continente, mas também como pessoas que vêm de outro. Minhas próprias oportunidades de me expressar foram grandemente influenciadas pela minha crença sobre o que é ser um escritor americano. Estou ciente de que não se pode viver nos Estados Unidos e ignorar os modos problemáticos ou benéficos pelos quais esta nação influencia tanto o mundo com seu poder cultural e político. Contudo, estou também consciente de que precisamos nos valer continuamente da noção de que estamos em um país adolescente, profundamente envolvido com nosso senso de formação. Em tal contexto, escrever a partir de sua origem é apenas um começo. Gostaria de acreditar que as histórias de meu pai e de minha mãe assumiram controle de mim e me deram o ímpeto de narrar algo da trajetória desafiadora de suas vidas, mas que meu papel como escritora é ir além de suas histórias, além de qualquer herança étnica que possa ter herdado, se quiser fazer algo novo.

Para mim, o que estou fazendo — como escritora, poetisa e editora — talvez seja a expressão final de minha identidade americana híbrida. Escrevo sobre o que estou me tornando devido aos acidentes históricos e aos acidentes da vida dos meus pais, mas minha produção literária também contempla e envolve o sentido de dinamismo e possibilidade que é essencial para nosso caráter americano. Esse caráter é a cola que mantém este país com algum sentido de unidade social, mas também cria as fissuras que permitem a entrada de novas perspectivas e vozes e seu arrastar-se das margens para o centro. Embora meu trabalho não seja sempre movido conscientemente pela presença dessas fissuras, elas são uma necessidade absoluta que sustenta o que há de melhor sobre a reivindicação da minha identidade americana e da minha identidade americana mista.