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Cão Fantasma: Ou como Escrevi
Meu Primeiro Romance

Randall Kenan

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos: A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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O autor Randall Kenan inspira-se nas pessoas e nos lugares do Sul rural (©Jill Krementz, Cortesia: Randall Kenan)

As obras de Randall Kenan aclamadas pela crítica incluem A Visitation of Spirits [Visitação de Espíritos] (1989) e Let The Dead Bury Their Dead [Deixem os Mortos Enterrar Seus Mortos] (1992). Durante muitos anos ele viajou pelos Estados Unidos, entrevistando afro-americanos de todas as classes sociais para escrever Black American Lives at the Turn of the Twenty-First Century [Vida dos Negros Americanos na Virada do Século 21] (2000). Seu livro mais recente, The Fire This Time [Desta Vez, o Fogo] (2007), é uma oportuna homenagem a James Baldwin. Kenan leciona Redação Criativa na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

I.


Jamais vi o cão fantasma, mas posso vê-lo, mesmo assim. Alguns diziam que ele era na verdade um lobo, cinza e com olhos vermelhos flamejantes. Outros diziam que ele era um grande “tanto faz” (um termo sulista para mestiço ou vira-lata, significando “tanto faz essa raça como aquela”). Mas em relatos sobre aparições de cães fantasmas, as pessoas notavam que o cachorro era branco, fantasmagoricamente branco e, com muita frequência, um pastor, do tipo com nariz aguçado e orelhas pontudas. Nobre. Resoluto.

Em todos os relatos que ouvi quando criança o cão era sempre prestativo: minha tia bisavó contou-me como o cachorro a havia tirado do bosque quando estava perdida. Havia até uma longa história que apresentava minha trisavó, uma tempestade, uma mula, uma carroça quebrada e o heroico cão fantasma. Uma mulher contou que uma matilha de cães caiu em cima dela e esse belo cão branco saltou em seu socorro, vindo de lugar nenhum, e a escoltou para casa em segurança. Quando ela se virou na soleira da porta, o cão havia desaparecido.

As aparições ocorriam sempre em um determinado trecho de uma estrada asfaltada –no passado uma trilha para índios americanos, depois uma estrada de terra e, quando eu era menino, o principal acesso para a praia. A autoestrada 50 passava por uma assustadora floresta de árvores antigas. Carvalhos. Salgueiros. Pinheiros. Especialmente o majestoso e alto pinheiro, de galhos frondosos e folhas compridas, que ultimamente está ameaçado de extinção. Para mim, como criança, essa floresta era primordial, cheia de mistérios, perigos, bruxas e gnomos e com todos os tipos de maravilhas sobre as quais lia nos contos de fadas de Grimm. E o incrível cachorro branco. O cão que eu nunca havia visto. Mas ele vivia em minha imaginação. E ainda vive.

Faz muito sentido para mim, agora, que um dia eu escreveria sobre esse cão fantasma e esse mundo do sudeste da Carolina do Norte. O condado de Duplin. Chinquapin. Uma cidadezinha de apenas umas poucas centenas de almas. Em grande parte agricultores, empregados de fábricas avícolas e trabalhadores de bases marinhas. Mas essa aparente inevitabilidade não era tão óbvia para mim na época.

II.

Quando deixei pela primeira vez minha cidadezinha da Carolina do Norte, assombrada por fantasmas, matriculei-me na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, a universidade pública mais antiga da nação, um baluarte do pensamento clássico, do pensamento social progressista, da arte maior e do pensamento científico, então importantíssimo para mim. Naqueles tempos minha meta era tornar-me médico. Meu interesse na ciência havia sido despertado por eu ter ficado perdido durante horas em óperas espaciais como Fundação, de Isaac Asimov, e Duna, de Frank Herbert, em Jornada nas Estrelas e em fantasias sobre culturas alienígenas e em viagens mais rápidas que a luz, buracos negros, buracos de vermes e revólveres de raios frios. (Jamais esquecerei o dia em que meu orientador de física me disse, quando eu estava no primeiro ano: “Acho que na verdade você quer escrever ficção científica, rapaz.” Ao me ver ofendido, tentando explicar porque amarguei nota C em cálculo diferencial, ele me disse mais do que depressa: “Não é vergonha nenhuma ser escritor. Muitos cientistas”, disse ele, “seriam escritores, se pudessem. Seja grato, então, porque você pode”, acrescentou.)

Verdade seja dita, meu interesse em ficção científica me levou a estudar redação criativa, e o estudo da produção literária me levou a estudar literatura. Mas estamos falando do tipo pomposo e canônico de literatura, como a de Charles Dickens e F. Scott Fitzgerald e William Makepeace Thackeray. Desde muito cedo, ficou claro para mim que havia aqui uma ortodoxia em andamento. Estando no Sul dos Estados Unidos e em uma das principais universidades da região, a literatura sulista dava as cartas: Thomas Wolfe. William Faulkner. Flannery O’Connor. Richard Wright. Eudora Welty. A literatura sulista significava realismo social. Essas eram as figuras icônicas que serviam de exemplo para nós, jovens sulistas aspirantes a escritor. Qualquer pendor para o fantasmagórico era desencorajado. Até mesmo ridicularizado. Escritores de verdade, bons escritores escreviam sobre o mundo como ele era. “Escreva sobre o que você sabe” era o mantra dos cursos de redação criativa aninhados no seio do Departamento de Inglês, e minha área de especialização no último ano não era mais física, mas inglês. Estava escrevendo sobre o que sabia. Eu sabia a respeito de cães fantasmas.

III.

Dez coisas a respeito de Chinquapin:

1. Campos de soja

2. Duas igrejas batistas negras

3. Cascavéis

4. Casas de perus

5. Campos de pepinos

6. Veados

7. Reuniões familiares de verão

8. Celeiros de tabaco

9. Encontros de setembro de renovação da fé

10. Cobras d’água

IV.

Quando cheguei a Chapel Hill no outono de 1981, a porcentagem de afro-americanos ficava em um dígito — em torno de 4% ou 5%. No entanto, essas centenas entre milhares marcaram presença. Qualquer que seja a razão, a maioria dos meus amigos mais próximos eram colegas afro-americanos. Seria necessidade de familiaridade? Um sentido de compromisso? O conforto do parentesco? Para falar a verdade, eu tinha muitos bons e verdadeiros amigos íntimos brancos — e japoneses e hispânicos e índios, com muitos dos quais ainda sou íntimo — mas a gravidade da cultura afro-americana me atraiu. Escrevi no jornal estudantil negro. Cantei no Coral Gospel do Movimento Estudantil Negro.

Jamais senti qualquer pressão para “escrever negro”. Tinha muito respeito pelo Evangelho do Realismo Social e seu Cânone e o conhecia bem. Porém, para cada história autobiográfica que eu entregava no workshop, também redigia outra apresentando um praticante de magia folclórica afro-americana ou uma estação espacial ou um cão falante. Além disso, nessa época eu havia encontrado três escritores que me deram o que eu gosto de chamar de permissão.

O melhor treinamento que qualquer escritor pode receber é ler, ler e ler. Até mais do que escrever, isso também é essencial. E embora eu absorvesse prontamente os escritores canônicos já mencionados do Sul e adicionasse a essa mistura uma profunda investigação do Grande Livro Afro-Americano de Ficção — Ralph Ellison, James Baldwin, Gwendolyn Brooks — eu tropeçava em escritores além desses muros de jardim que causavam enorme impacto no meu modo de olhar o mundo da ficção em prosa. Issac Bashevis Singer. Yukio Mishima. Anthony Burgess. Escritores que não eram, à primeira vista, os heróis óbvios de um jovem negro do sudeste rural da Carolina do Norte.

Foi Toni Morrison, já popular, mas anos antes de seu romance Amada e dos prêmios Pulitzer e Nobel, quem me ensinou alguma coisa sobre a importância de um mente aberta. Com poucas exceções, a literatura afro-americana ficou sob a égide da literatura de “protesto”, voltando ao século 19 e à pletora de famosas narrativas de escravos. Mesmo em 1970, o ano em que o primeiro romance de Toni Morrison foi publicado, os romances afro-americanos mais importantes tratavam muito das questões dos direitos civis e da justiça social para os negros. Mas Morrison teve como seu principal tema os próprios negros, não o racismo ou a política. Em vez disso, ela optou por focalizar a dinâmica pessoal e familiar, assuntos do coração e da alma. No seu mundo, a perspectiva dos brancos podia ser ignorada por centenas de páginas. Para minha cabeça de 18 anos, isso foi uma revelação.

A produção literária do grande autor colombiano Gabriel García Márquez foi minha primeira apresentação ao que se tornou popularmente conhecido como realismo mágico. Nunca mais eu seria o mesmo. (Em sua palestra proferida ao receber o Prêmio Nobel, García Márquez enfatizou que não há nada fantástico em relação à sua obra, o mundo sobre o qual escreve é inflexivelmente real. Entendi na hora exatamente o que ele queria dizer.) Eis aí um autor que escreveu sobre fantasmas e uma cidade que sofria de amnésia em massa , tempestades de borboletas e mulheres voando para o céu na mesma linguagem prosaica do realismo social — na verdade, seus três escritores prediletos são Faulkner, Ernest Hemingway e Virgínia Woolf.

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Celeiro de tabaco no interior do Sul dos Estados Unidos (© The Murray Ledger & Times, John Wright/AP Images)

Zora Neale Hurston, cuja obra fora por muito tempo negligenciada e estava exatamente começando a ser redescoberta quando eu estava na faculdade, me atingiu como uma bomba de nêutron. Aqui estava essa antropóloga especializada, essa afro-americana da Flórida, que aparentemente integrava o folclore com a vida folclórica, o realismo social com o fantástico. Como Toni Morrison, que aprendeu muito com Zora Hurston, ela não colocou a política racial acima da essência existencial da cultura negra.

A Canção de Salomão. Cem Anos de Solidão. Seus Olhos Viam Deus. Era como se dissessem, coletivamente: continue a escrever, rapaz. Faça a sua parte.

Para minha defesa de tese, entreguei vários capítulos de um pretenso romance passado em uma pequena cidade da Carolina do Norte, muito parecida com Chinquapin, chamada Tims Creek. Apresentava um jovem advogado, um filho da terra, que havia se tornado advogado de sucesso em Washington, DC. Porém, em um fatídico verão, ao retornar a Tims Creek acometido por determinado distúrbio emocional, cruza com um praticante de magia folclórica afro-americana que o amaldiçoa (abençoa?) e, na noite seguinte, de lua cheia, ele se transforma em lobisomem! Intitulei-o “Ashes Don’t Burn” [Cinzas não Queimam].

Piedade, piedade de mim.

V.

Imagine o que é ter como primeiro emprego fora da faculdade trabalhar para o editor de dois de seus heróis literários. Alfred A. Knopf. Cidade de Nova York . Há muito tempo editor de Toni Morrison. O novo editor de Gabriel García Márquez. 1985.Logo eu me tornaria assistente do editor do autor de O Amor nos Tempos do Cólera. Para um aspirante a escritor, isso era como estudar aos pés de Merlin.

Mas outro tipo de formação me esperava. Eu viria a morar alguns anos em Queens e depois no Brooklyn. Agora eu encontrava diariamente, no metrô, nas ruas, nas lojas e, ocasionalmente, em suas casas, os negros de todos os lugares da diáspora africana. Conheci negros de Gana e Trinidad, do Haiti e de Toronto e de Houston, no Texas. Essa exposição desafiava as noções firmemente estabelecidas do que significa ser negro e me fez olhar para trás, para o mundo inicial em que eu havia crescido, com olhos novos em folha. De repente, os peixes fritos, os corais desafinados das igrejas, as horas passadas labutando sob o sol nos campos de tabaco, a Escola Bíblica de Férias, a matança de porcos e as histórias de cães fantasmas tornaram-se de algum modo importantes, o suficiente para serem escritas.

“Ashes Don’t Burn” tinha una falha fundamental e, em retrospecto, agradeço meus professores da UNC [Universidade da Carolina do Norte] saturada de realismo social por me ajudarem a identificar essa barreira. O obstáculo nada tinha a ver com licantropia. Dito de maneira simples: eu não era nenhum advogado trintão em crise por voltar para casa. Eu não estava escrevendo sobre o que eu “sabia”. Mas tinha sido garoto nessa mesma casa, então, aos poucos, a narrativa em que eu estava trabalhando mudou. Mantive o elenco sobrenatural que, tenho certeza, habitava esses bosques escuros. Não houve nenhuma mudança de cenário, na verdade, ele provavelmente enriqueceu e se aprofundou, em parte por causa da saudade que tinha dele, e também como resposta à cidade de seis bilhões de pés, sonhando com os bosques e os veados e os milharais.

A história que rabisquei obstinadamente, de noite, no metrô, nos fins de semana, seria por fim publicada no verão de 1989 como A Visitation of Spirits. Nela, surpreendentemente, não há cães fantasmas, mas muitos outros fantasmas e criaturas, espíritos do mundo e da mente, misturados com uma dose saudável de realismo social, como me haviam ensinado de forma escrupulosa e que eu respeito com grande admiração.

Para mim, agora, esta abordagem parece inevitável. Certa. A única maneira de eu fazer isso. No entanto, o caminho rumo a essa visão ficcional não foi nem reto nem trilhado com facilidade, mas digno de cada mudança e curva e beco sem saída.

Espero voltar à licantropia um dia, logo. Há nessa mitologia alguma coisa que combina bem com Tims Creek, com Chinquapin. Naturalmente, logo e muito em breve, espero que um cão fantasma faça uma aparição em uma de minhas histórias. Pulando em nosso socorro, apenas para desaparecer de novo na imaginação.