O Biscoito da Sorte AmericanoJennifer 8. Lee
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Jennifer 8. Lee é autora de The Fortune Cookie Chronicles:Adventures in the World of Chinese Food Os americanos adoram o biscoito da sorte. Temos biscoitos da sorte de Natal, biscoitos da sorte de casamento, biscoitos da sorte de São Valentim, biscoitos da sorte de Chanucá. Até os cachorros têm seus próprios biscoitos da sorte caninos. O biscoito — uma massa fina amanteigada, de baunilha, em forma de meia lua e com papeizinhos no seu interior — tem forte apelo sentimental para os americanos. As padarias vendem biscoitos da sorte em formato de bolinhos. Há até jóias em forma de biscoitos da sorte. Um biscoito da sorte de ouro 14 quilates, com um diamante incrustado, está à venda por US$ 1.100 na Nieman Marcus, uma luxuosa loja de departamentos. Há periféricos de computador em formato de biscoitos da sorte: você pode comprar discos rígidos em formato de biscoito da sorte. E há também álbuns de biscoito da sorte, que são como álbuns de foto, só que usados para guardar as tirinhas de papel encontradas dentro do biscoito. Os americanos acreditam fervorosamente no que está escrito naquelas tirinhas de papel, ao ponto de terem uma fé inexplicável no número da sorte que costuma vir impresso. Em março de 2005, 110 pessoas em todo o país ganharam US$ 19 milhões no total, por terem jogado na loteria os pequenos números que aparecem no fundo de seus biscoitos da sorte. Dois meses mais tarde, outras 84 pessoas ganharam na loteria no mesmo dia, pelo mesmo motivo. O mais engraçado é que a maioria dos americanos acha que os biscoitos da sorte são da China, porque os compram em restaurantes chineses. Já fui uma dessas pessoas. Afinal, nasci na cidade de Nova York e comíamos biscoitos da sorte nos restaurantes chineses onde crescemos. O que eu poderia saber? Só pus os pés na China quando tinha 20 anos. Foi só no ginásio, quando li um romance popular da escritora Amy Tan chamado O Clube da Felicidade e da Sorte, que aprendi que o biscoito da sorte não era chinês em absoluto, porque as mulheres do livro, imigrantes chinesas, faziam piadas sobre isso em uma fábrica de biscoitos da sorte em São Francisco. Meu mundo parou. Os biscoitos da sorte não eram chineses? Era como se eu ficasse sabendo que havia sido adotada ao mesmo tempo que me contavam que Papai Noel não existia. Aquilo balançou a minha noção de mundo. Esse choque plantou dentro de mim a semente da curiosidade sobre o biscoito da sorte. Foi uma longa viagem que, mais de uma década depois, me levou a cruzar os Estados Unidos e chegar aos cantos mais longínquos do mundo — Peru, Brasil, Índia, China e Japão. Eu queria entender o caminho desse misterioso biscoito. O que eu aprendi é que os biscoitos da sorte são sempre reconhecidos nos Estados Unidos, mas na China eles confundem as pessoas. Se você der um biscoito da sorte para os chineses, eles ficarão completamente perplexos. Primeiro vão perguntar: “O que é isso?”. Quando você contar que vem dos Estados Unidos, eles vão acenar com a cabeça. Então, vão morder e se sobressaltar ao encontrar uma tirinha de papel, seja na boca ou no biscoito. E vão perguntar o que é aquele papel. Você diz: “É para ler a sorte”. Eles vão resmungar: “Os americanos são tão estranhos. Por que eles põem pedaços de papel nos biscoitos?”
Seguir a história do biscoito da sorte foi como puxar o fio de um grande novelo. Segui os seus rastros até os padeiros japoneses que imigraram para a Califórnia no começo do século 20, pesquisa que atualmente continua em andamento. Porém, mais surpreendente que isso, pude seguir o rastro do biscoito da sorte até o Japão, onde eles ainda são feitos em pequenas padarias familiares em Kyoto. Há inclusive um desenho japonês do fim do século 19, décadas antes de o biscoito ser sequer mencionado nos Estados Unidos, que mostra um homem vestido com quimono fazendo o que parecem ser biscoitos da sorte. Chamados de tsujiura senbei e de suzu senbei, os biscoitos japoneses são maiores e mais amarronzados que seus primos amarelos dos Estados Unidos. Eles são aromatizados com sésamo e missô, o que lhes dá um sabor muito mais parecido ao das nozes. Então como foi que o biscoito da sorte passou de um biscoito japonês a algo servido nos restaurantes chineses? Segundo as minhas investigações, foi só somar dois mais dois. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos prendeu muitos japoneses por medo de que cometessem traição, inclusive aqueles que faziam os biscoitos da sorte. Dois terços dos que foram enviados aos campos de confinamento eram cidadãos americanos, e décadas mais tarde o governo americano finalmente se desculpou por esse fato. Levei três anos para compreender as raízes do meu interesse: minha busca para entender os biscoitos da sorte era na verdade uma busca para compreender a mim mesma. A China é o país que mais gerou imigrantes na história do mundo. Os Estados Unidos são o maior receptor de imigrantes na história do mundo. Eu me encontro na contracorrente desse movimento, assim como a comida chinesa que cresci comendo. O biscoito da sorte é símbolo da adaptação dos imigrantes chineses ao seu país de adoção. Os americanos estavam ávidos para acreditar que aqueles exóticos biscoitos vinham do longínquo Reino do Meio, apesar de as pequenas mensagens no seu interior não serem escritas por sábios chineses, e os chineses estavam felizes por corresponder às suas expectativas, produzindo milhões — que logo seriam bilhões — de biscoitos da sorte. Mas por décadas as pessoas na China continuarão olhando para os biscoitos da sorte com perplexidade, apesar de a crocante forma de lua crescente ser universalmente reconhecida pelos americanos. As pessoas nos Estados Unidos olham para um biscoito da sorte e pensam “China”. Mas, na verdade, o biscoito da sorte foi introduzido pelos japoneses, popularizado pelos chineses e finalmente consumido pelos americanos. Nos Estados Unidos, sempre dizemos: “É americano como a torta de maçã.” Mas se esse é o ponto de referência da nossa identidade como americanos, deveríamos nos perguntar com que frequência os americanos comem torta de maçã? Agora, com que frequência eles se encontram com os biscoitos da sorte? São 3 bilhões de biscoitos da sorte feitos a cada ano — 10 para cada homem, mulher e criança do país. De modo similar, às vezes as pessoas olham para mim e pensam que estão vendo uma chinesa. “De onde você é?”, perguntam. (A resposta é: da cidade de Nova York, onde nasci, fui criada e moro atualmente.) Mas se eles fechassem os olhos, escutariam alguém que é sem dúvida americana. |
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