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Escrever para Unir Culturas Diferentes:
Uma Perspectiva do Indígena Americano

Susan Power

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos: A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Susan Power
Tradições da cultura dos índios sioux são poeticamente traduzidas na ficção da autora Susan Power (Doug Dreyer/AP Images)

Descendente de índios americanos e de escoceses, irlandeses e ingleses colonizadores dos Estados Unidos, Susan Power, advogada formada em Harvard, passou a escrever sobre a herança dos índios dacota sioux. Seu primeiro romance, The Grass Dancer [Dançarino da Relva], ganhou o Prêmio PEN/Hemingway de 1995 de melhor primeira ficção. Seus livros incluem Strong Heart Society [Sociedade do Coração Forte], de 1998, e Roofwalker [O Telhadista], de 2002, e seus trabalhos têm sido publicados pelas publicações The Atlantic Monthly, Paris Review, Ploughshares e Story. Susan Power leciona Redação Criativa na Universidade de Hamline em St. Paul, Minnesota.


Minha mãe nasceu em 1925 em Fort Yates, Dakota do Norte, uma cidade empoeirada na Reserva Indígena Sioux de Standing Rock. Seu nome dacota é Mahpeyabogawin, que em nossa língua tribal significa Mulher que Anuncia Tempestades, portanto, ela veio a este mundo como uma premonição de todas as tempestades negras que estavam prestes a ocorrer, já que o solo demasiadamente explorado das Grandes Planícies transformou-se em um pó seco, abundante e assassino. Ela cresceu em uma pequena cabana rústica de madeira do lado oposto da rua onde se encontra o túmulo original do nosso famoso chefe Touro Sentado.

“Ele era a nossa proteção. Se estivéssemos com problemas ou com medo de alguma coisa, corríamos para seu marco de pedras empilhadas e chamávamos ‘La La, La La, ajude-nos.”’ Minha mãe tem uma excelente memória sioux, “como a de um elefante”, diz ela. Ouvi essa história muitas vezes.

“Naturalmente. É diminutivo para ‘tunkashila’. Avô.”

“Está certo.”

Não fui criada falando a língua dacota, mas aprendi palavras e frases suficientes para apreciar o que é uma língua visual – cada palavra é uma figura aninhada em um emaranhado de histórias que levei para a minha vida e a minha arte. Não nasci em uma reserva, mas sim na grande cidade de Chicago, e as memórias de minha mãe representam somente metade do que sou, já que meu pai nasceu no estado de Nova York e é descendente de ingleses, escoceses e irlandeses, que deixaram a Europa no século 17 para se aventurarem nos Estados Unidos. Ele tinha dez anos a mais que minha mãe, possuía nível universitário, foi criado com privilégios, e na minha infância eu gostava de imaginar como teria sido estranho e chocante para eles se tivessem se conhecido quando minha mãe tinha 10 anos e meu pai 20. Ele teria tido pena dela nessa época? Ele a enxergaria cheia de pó, descalça, cabelos simplesmente cortados no estilo “tigelinha” e usando um macacão puído? Ao ver suas roupas atraentes e cachimbo elegante, rosto limpo, barbeado e sempre perfumado com Old Spice, ela acharia que ele veio de outro mundo? De algum modo, em suas jornadas individuais, meus pais se encontraram, amantes companheiros de livros trabalhando no mercado editorial. E é aí onde sempre convergimos, não importa quão diferentes éramos, e somos, um do outro – nesse amor pelas palavras.

Susan Power
Susan Power com 18 anos, época em que ganhou o título de Miss Indígena de Chicago (Cortesia: Susan Power)

Susan Power
A mãe de Susan Power, Susan Kelly Power, aos 16 anos. Mãe e filha usam trajes dacotas tradicionais (Cortesia: Susan Power)

Minha mãe era um dos membros fundadores originais do Centro Indígena Americano em Chicago, e eu cresci cercada pela comunidade intertribal, aprendendo a dançar o estilo washboard (tábua de esfregar e lavar roupas) como as senhoras mais velhas da tribo winnebago, ouvindo histórias verdadeiras de fantasmas e contos de fundo moral sobre o uso inadequado da magia. Aprendi como diferentes tribos professavam sua fé, muitas mesclando suas crenças tradicionais com o cristianismo. Assim foi a minha vida nos finais de semana, nas noites, nos verões, mas não foi a minha única vida. Meus pais também colocaram-me em contato com a cultura americana dominante , levaram-me a balés e teatros, bibliotecas e museus. “Descobri” Shakespeare quando tinha 12 anos, dando uma olhada na extensa coleção de discos da principal biblioteca pública da cidade, e então carregada de vários discos, arrastava-me para casa e escutava-os durante horas. Memorizei longos trechos dramáticos, com preferência pelas cenas de morte, e costumava ofegar pela casa em um discurso que nunca parecia terminar, dizendo: “Estou morrendo, Egito, morrendo”. Achei que Shakespeare teria se sentido à vontade com os índios, por ser um excelente contador de histórias, e parecia bastante natural para mim considerá-lo um parente, um conhecido, e buscar inspiração nele de modo tão fácil como ocorreu com Stella Johnson, que contou-me histórias winnebagos dos irmãos Sapatos de Neve.

Na escola sempre fui a única aluna indígena, desde a pré-escola até o último ano do ensino médio, e vi a sociedade se transformar ano após ano, de modo que minha diferença transformou-se de obstáculo que desafiava os professores em alguma coisa que eles valorizavam e nutriam. Nos primeiros anos na escola, uma professora poderia me dar uma ótima nota por um trabalho bem escrito e cuidadosamente pesquisado, mas não estava completamente certa se gostaria que eu lesse o texto em voz alta (como todos os outros alunos eram convidados a fazer) porque minha visão de história não era o modelo usualmente aceito. Mas no ensino médio, meus professores costumavam me chamar propositadamente na classe quando queriam a manifestação de outro ponto de vista, um desafio à opinião predominante. Amigos que a princípio desconfiavam da colega que parecia não se encaixar, por fim afirmaram que eu tinha uma vida secreta invejada por eles, fins de semana em Nova York assistindo a um casamento mohawk tradicional em uma casa comunal, o feriado de Ação de Graças de onde eu voltava com uma coroa de contas e o título de Miss Indígena de Chicago. Estou animada de ver que cada vez mais leitores, assim como os professores, estão interessados em todas as histórias dos Estados Unidos, em todas as vozes e, portanto, como escritora abri as portas da minha vida secreta e convido todos a entrar.

Após a morte de meu pai mudei-me com minha mãe para um prédio de apartamentos, porque ela queria que eu me sentisse ligada à parte da família dele do mesmo modo que estava ligada à parte da família dela. Ela organizou nosso espaçoso hall de entrada como uma espécie de galeria de ancestrais, um lugar onde o Leste e o Oeste, índios e brancos, pudessem se encontrar como um lembrete visual de histórias e esperanças diferentes, todas fundindo-se em mim. Na parede leste ela pendurou concessões de terra e retratos do pessoal do meu pai, no centro deles colocou um homem idoso com barba branca exuberante e olhos maliciosos: meu tataravô Joseph Henry Gilmore, pastor batista, professor universitário, poeta compositor da letra do cântico sacro “He Leadeth Me” [Ele me Conduziu] e cujo pai foi governador de New Hampshire durante a Guerra Civil (1861-1865). Na parede oeste ela colocou duas varetas de bateria com contas, pinturas a óleo de chefes sioux, tranças aromáticas de erva-doce americana e, bem no centro dessa coleção, uma foto de meu tataravô Mahto Nuhpa (Dois Ursos), chefe hereditário do yanktonnai dacota, orador respeitado, defensor de sua tribo durante a Batalha da Colina da Pedra Branca em 1863. Os dois homens olhavam fixamente o abismo de nosso piso de cerâmica escura, a sua divisão cultural, contemporâneos que nunca se encontraram em vida, encontrando-se agora nesse lugar improvável. A imaginação de minha mãe deve ter achado a cena irresistível, e ela começou a me contar histórias de como eles, às vezes, discutiam à noite.

Monument to famous Lakota Sioux Chief Sitting Bull
Monumento ao famoso chefe Touro Sentado da tribolakota sioux (aproximadamente 1831-1890), que liderou seus guerreiros à vitória contra a cavalaria dos EUA na Batalha do Pequeno Grande Chifre. Originalmente enterrado em Fort Yates, Dakota do Norte, alguns afirmam que seus restos mortais foram removidos e enterrados novamente aqui, em Mobridge, Dakota do Sul. Ele é chamado de “tunkashila”, ou avô, pelos sioux (Doug Dreyer/AP Photo)

“Todos eles são pessoas boas, mas não se entendem, então brigam. Até mesmo Dois Ursos, que foi um chefe de conselho reverenciado, não consegue manter a paz. A guerra começou entre eles, portanto, você deve tomar cuidado à noite de não passar pelo hall. Os dois lados amam você, naturalmente, mas estão zangados, disparando balas e flechas, e eles nem sempre veem o que estão fazendo. Você pode ser pega no fogo cruzado!”

Quando eu era pequena, acreditava em tudo que minha mãe dizia. Eu evitava o hall tarde da noite, após irmos para a cama, mas pela manhã eu costumava verificar se podia encontrar evidências da batalha – buracos de balas nas paredes de gesso, manchas de sangue no chão. Não importava que o hall estivesse sempre arrumado; eu simplesmente achava que meus ancestrais faziam a limpeza após as batalhas porque se preocupavam com o fato de me assustar com sua violência e seus erros.

Anos  depois de me mudar desse apartamento e corredor, minha mãe lembrou-me de suas histórias com relação à divisão ancestral contando-me como tudo resultou no final.

“Está certo!” Eu a repreendi. “Você me fez ter um medo terrível de atravessar aquele hall à noite, pensando em todos os tipos de atos violentos que estavam ocorrendo.”

“Eu sei, eu sei. Isso foi horrível”, ela ria. “Mas há um final feliz.”

“Verdade?”

“Sim. Desde a publicação de seu livro The Grass Dancer, notei que à noite há paz e tranquilidade no hall. Não há mais discussões ou desentendimentos, não há mais raiva. Os dois lados estão muito orgulhosos de você, do que você escreveu e os dois lados sentem como se tivessem desempenhado um papel importante em seu sucesso. Ninguém foi esquecido. Isso dá a eles muito assunto, muito sobre o que podem concordar. Provavelmente estão percebendo que têm mais em comum do que pensavam.”

Quando comecei a escrever ficção, nunca imaginei que minhas história e palavras, meu amor pela literatura reproduzido no papel e em narrativas mágicas transmitidas por meio de uma corrente de vozes, uniria meu sangue – os fantasmas encantados dos que vieram antes de mim. Esse é o melhor resultado, em minha opinião: meu trabalho é uma ponte entre divisões, onde todos sentem-se honrados e incluídos, consultados, todos têm voz na mesa, todos têm uma participação no que vem a seguir.