Experiência de um Escritor IndianoAkhil Sharma
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O primeiro romance de Akhil Sharma, Um Pai Obediente, ganhou o Prêmio PEN/Hemingway 2000 e o Prêmio Whiting Writers 2001. Ele escreve para as revistas The New Yorker e The Atlantic Monthly, entre outras publicações. Foi considerado um dos melhores jovens romancistas americanos (2007) pela revista Granta.
Comecei escrevendo contos na 9ª série. Fiz isso porque estava muito infeliz e queria atenção. Minha família veio para os Estados Unidos em 1979. Éramos eu, meu irmão, minha mãe e meu pai. Dois anos após chegarmos, meu irmão sofreu um acidente em uma piscina que o deixou com graves danos cerebrais. Eu tinha 10 anos na época, e meu irmão, 14. Meu irmão ainda é vivo e não consegue andar nem falar. Anup, é o nome do meu irmão, não pode ser alimentado via oral, e então é alimentado por uma sonda gastrointestinal que vai até o estômago, entrando bem por baixo das suas costelas do lado direito. Anup não se vira automaticamente enquanto dorme e, assim, alguém tem de ficar com ele a noite toda e virá-lo de um lado para o outro a cada duas horas, evitando desse modo que ele desenvolva escaras. Durante dois anos após o acidente, meu irmão ficou internado em um hospital, e depois meus pais decidiram eles mesmos cuidar dele. Trouxeram-no para casa e contrataram enfermeiras. Além das preocupações diretas a respeito da condição do meu irmão, dinheiro era outra preocupação angustiante com a qual cresci. Como tínhamos pouco dinheiro e dependíamos das companhias de seguro e de enfermeiras, achávamos que estávamos sempre sendo enganados, as pessoas não estavam cumprindo suas responsabilidades. Muitas vezes tínhamos enfermeiras que se comprometiam a vir e a começar o turno em determinado dia e hora, mas elas não apareciam. Além disso, como havia estranhos em nossa casa, estávamos sempre com medo de que as pessoas roubassem nossas coisas. Tivemos uma enfermeira que roubou ursinhos de pelúcia comprados pela minha mãe em um mercado das pulgas. Até a 9ª série, quando tinha 15 anos, a única vez que escrevi contos foi quando eles foram exigidos como tarefa escolar. Na 9ª série eu tinha uma professora, a senhora Green, que me elogiava por eu entender bem nossas atividades de leitura e, assim, para conseguir mais atenção dela, comecei a escrever histórias. No início, em todas as histórias escritas por mim havia personagens americanos brancos. Em minha opinião, isso acontecia, em parte, pelo fato de toda a ficção que eu lia ser sobre pessoas brancas. Igualmente importante, contudo, era o fato de não achar relevante a experiência de ser um indo-americano. Vivendo como minoria, não compartilhando experiências da maioria da população, sentia que minhas experiências, como não eram a experiência da maioria, não eram tão importantes quanto as das pessoas brancas. Além disso, até certo ponto, eu sentia que minhas experiências, porque não eram compartilhadas, não eram nem mesmo tão verdadeiras quanto as dos americanos brancos. Entre os meus problemas com relação a escrever sobre os brancos é que eu não sabia nada sobre eles. Foi somente na 10ª série que fui pela primeira vez à casa de uma pessoa branca. Na 10ª série, li uma biografia de Ernest Hemingway. Lembro-me de começar a lê-la em uma manhã sentado à mesa da cozinha, com as janelas fechadas. Li a biografia de Hemingway para poder mentir para as pessoas dizendo-lhes que tinha lido os livros de Hemingway. (Eu costumava mentir o tempo todo e dizia ter lido livros que não lera.) Li o livro e fiquei impressionado. O que me impressionou foi o fato de Hemingway ter conseguido viver na França e na Espanha, viajado para Cuba e aparentemente ter se divertido muito em sua vida. Até então eu achava que seria um programador de computador, engenheiro ou médico. Quando li o livro, de repente achei que podia ter um estilo de vida como o de Ernest Hemingway e não levar uma vida maçante.
Após ler a biografia, comecei a ler outros livros sobre Hemingway. Li biografias e coletâneas de ensaios críticos. Devo ter lido 20 livros sobre Hemingway antes de ler qualquer obra realmente escrita por ele. Li tudo sobre Hemingway porque queria aprender como repetir o que ele tinha feito e não queria deixar nenhuma pista sem ser analisada. A princípio, não estava realmente interessado na produção literária de Hemingway. Considero Hemingway o escritor que mais me influenciou. Hemingway, como vocês provavelmente já sabem, escreveu sobre personagens cuja experiência era exótica aos leitores americanos. Escreveu sobre gângsteres e soldados na Itália e jornalistas em Paris. Entre as muitas coisas que aprendi por meio de Hemingway, e posso dizer que quase tudo que sou como escritor começou com Hemingway ou como uma reação contra Hemingway, uma foi como escrever sobre coisas exóticas sem ficar emperrado pelo exotismo. Estudiosos da obra de Hemingway apontaram que suas histórias começavam no meio da ação, que ele escrevia como se o leitor já soubesse bastante a respeito do ambiente sobre o qual ele estava escrevendo, que quando dava explicações diretas essa quebra da realidade da experiência ficcional era um modo de dizer ao leitor que a razão de estar desobedecendo essa convenção ficcional é porque não queria mentir. Para mim, porque comecei minha formação como escritor com Hemingway e não li realmente nenhum escritor não branco até chegar à faculdade, sempre achei que escrever era apenas escrever. Escrever é apenas uma sequência de palavras e uma série de estratégias que geram experiências no leitor. Sempre acreditei que do mesmo modo que a raça de um cirurgião não importa, porque um coração e uma vesícula continuam sendo coração e vesícula não importando a raça do paciente, a raça do escritor não importa. Vim para os Estados Unidos como parte de uma grande onda de imigração. Devido à curiosidade que essa onda de imigrantes asiáticos gerou na sociedade americana em relação ao que realmente é viver em uma família asiática, tenho tido sorte de ter meus livros lidos. (Considero-me um bom escritor, mas posso imaginar que se estivesse escrevendo 50 anos atrás, minha produção literária poderia ter sido exótica e periférica demais para que sua leitura valesse a pena para leitores comuns.) Meu primeiro livro ganhou o prêmio PEN/ Hemingway. Esse prêmio é dado ao primeiro melhor romance publicado em determinado ano. A pessoa que me entregou o prêmio era um dos filhos de Hemingway. Acredito que foi Patrick Hemingway quem me entregou o prêmio. Esse cavalheiro de cabelos brancos e eu sentamos e conversamos em uma sala de conferências por cerca de 10 ou 15 minutos. Eu não lhe disse o quanto seu pai havia sido importante para mim por timidez. Em vez disso, conversamos sobre como seu pai tinha descoberto títulos para seus livros em O Livro de Oração Comum. Às vezes, quando penso como tenho tido sorte, tenho vontade de chorar. |
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