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Sessenta e Nove Centavos

Gary Shteyngart

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos: A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Gary Shteyngart
Gary Shteyngart, autor de Absurdistão, leciona na Universidade de Colúmbia, na cidade de Nova York (Getty Images)

Gary Shteyngart nasceu em Leningrado e imigrou para os Estados Unidos aos 7 anos. Seu livro Absurdistão (2006) figura entre os dez melhores livros do ano, de acordo com grandes publicações como o jornal New York Times e a revista Time. Seu primeiro romance, The Russian Debutante’s Handbook [O Manual do Debutante Russo] (2003), ganhou o Prêmio Stephen Crane de Primeiro Livro de Ficção e foi apontado entre as melhores obras de jovens romancistas americanos pela revista Granta em 2007. Ele é professor assistente do Programa de Redação Criativa da Universidade de Colúmbia, em Nova York.


Quando eu tinha 14 anos, perdi meu sotaque russo. Eu poderia, em tese, chegar em uma garota e as palavras “Oh, hi there” não soariam como Okht Hyzer, possivelmente o nome de um político turco. Havia três coisas que eu queria fazer na minha nova encarnação: ir à Flórida, onde eu acreditava que os melhores e mais inteligentes homens da nação haviam construído para si um paraíso arenoso e repleto de vícios; ouvir de uma garota, nativa, de preferência, que ela gostava de mim de alguma forma; e fazer todas as minhas refeições no McDonald’s. Eu não tinha o prazer de comer no McDonald’s com frequência. Meus pais acreditavam que ir a restaurantes e comprar roupas que não fossem vendidas por peso em Orchard Street eram coisas feitas apenas pelos muito ricos ou pelos muito esbanjadores, talvez aquelas “socialites” extravagantes sobre as quais sempre ouvimos na televisão. Por outro lado, até meus pais, por mais indiscriminadamente apaixonados que estivessem pelos Estados Unidos, como só os imigrantes podem estar, não resistiam aos atrativos icônicos da Flórida, ao chamado da praia e ao Camundongo [o famoso personagem de desenho animado Mickey Mouse].

E então, no meio das férias de inverno da minha escola hebraica, duas famílias russas espremidas em um amplo sedan usado pegaram a rodovia interestadual 95 em direção ao Estado Ensolarado. A outra família — de três membros — era um reflexo da nossa, exceto pela filha única e pelo fato de serem todos mais volumosos; contrastando com isso, minha família inteira pesava menos de 140 quilos. Há uma foto nossa abaixo do monotrilho em Epcot Center, cada um com uma tentativa de sorriso diferente para expressar a sensação de déjà-vu da pose enquadrada de estarmos na principal atração do nosso novo país, meu largo sorriso de megawatt, próprio de um mascate judeu da virada do século correndo atrás de uma possível venda na calçada. Os ingressos para a Disney foram uma cortesia, pela qual nós tivemos de aguentar uma tentativa de venda de uma residência de propriedade compartilhada em Orlando. “Vocês são de Moscou?”, perguntou o vendedor, avaliando a pinta do meu pai com sua roupa de poliéster.“Leningrado.”

“Deixe-me adivinhar: engenheiro mecânico?”

“Sim, engenheiro mecânico... E, por favor, os ingressos para a Disney.”

O percurso sobre a Ponte MacArthur até Miami Beach foi minha verdadeira cerimônia de naturalização. Eu queria tudo: as palmeiras, os iates flutuando ao lado das mansões compradas com moeda forte, os condomínios de concreto e vidro orgulhando-se dos próprios reflexos nas águas azuladas das piscinas abaixo, a disponibilidade implícita de relações com mulheres amorais. Eu podia me ver sentado em um balcão comendo um Big Mac, jogando, distraidamente, batatas fritas por sobre meus ombros no ar carregado de sal marinho. Mas eu teria de esperar. O hotel reservado pelos amigos dos meus pais tinha catres do exército em vez de camas e uma barata de 15 cm suficientemente grande para agitar o que parecia ser um punho cerrado para nós. Assustados com Miami Beach, levantamos acampamento rumo a Fort Lauderdale, onde uma iugoslava nos deu abrigo em uma hospedagem desbotada de beira de estrada, próxima à praia e com sinal UHF gratuito. Parecíamos sempre estar à margem dos lugares: a entrada para carros do Fontainebleau Hilton ou o elevador envidraçado que leva ao restaurante na cobertura, onde podíamos momentaneamente, olhando por cima do aviso de “Por favor, espere para sentar”, enxergar o oceano sem fim lá embaixo, o Velho Mundo que havíamos deixado para trás, tão distante, mas ilusoriamente tão próximo.

Para meus pais e seus amigos, a hospedagem iugoslava era sem dúvida um paraíso, um final coma sorte para um grupo de vidas difíceis. Meu pai, magnificamente deitado sob o sol com sua imitação de Speedo de listras vermelhas e pretas, enquanto eu pavoneava pela praia, passando ao lado de garotas do Meio Oeste assando debaixo do sol. “Oh, hi there.” As palavras, perfeitamente americanas, não por direito inato, mas por aquisição, empoleiravam-se entre meus lábios, mas aproximar-se de uma daquelas garotas e dizer algo tão casual exigia um profundo enraizamento naquelas areias quentes abaixo de mim, uma presença histórica mais volumosa do que meu green card gravado com a impressão do meu polegar e meu rosto sardento. De volta à hospedagem, “Star Trek” era reprisado infinitamente nos canais 73 ou 31 ou algum outro número primo, com seus planetas desbotados em Technicolor, mais conhecidos para mim do que o nosso próprio planeta.

No trajeto de volta para Nova York, pluguei-me firmemente no meu walkman, esperando poder esquecer nossas férias. Em algum momento depois de as palmeiras terem desaparecido de vista, em algum lugar ao sul da Geórgia, paramos em um McDonald’s. Eu já sentia o gosto na boca: o hambúrguer de 69 centavos. O ketchup, vermelho e decadente, salpicado de pequenos pedaços de cebola ralada. O enaltecimento das fatias de picles; a afluência obliterante da Coca-Cola fresca; o borbulhar gasoso no fundo da garganta significando que o ato estava completo. Corri em direção ao frio de carne desinfetada do lugar mágico, com os russos mais gordos me seguindo, arrastando algo grande e vermelho. Era um isopor, preparado, antes de deixar a hospedagem, pela outra mãe, a amável face rechonchuda equivalente à da minha própria mãe. Ela havia preparado um almoço russo completo para nós. Ovos cozidos embrulhados em papel alumínio; vinigret, a salada de beterraba russa, que transbordava de um pote de coalhada reutilizado; frango frio servido em meio a tiras crocantes de bulka. “Mas não é permitido”, argumentei. “Nós temos de comprar a comida aqui.”

Senti frieza, não do frio do ar-condicionado do sul da Geórgia, mas a frieza de um corpo que entende as consequências do seu próprio fim, a falta de sentido de tudo. Sentei junto a uma mesa o mais longe possível de meus pais e seus amigos. Observei o espetáculo dos recém-bronzeados residentes estrangeiros comendo sua refeição étnica — mandíbulas trabalhando, mandíbulas trabalhando — os ovos cozidos tremendo levemente ao serem levados à boca; a garota, minha contemporânea, emburrada como eu, porém com um quê de calma complacente; seus pais, distribuindo pedaços de beterraba com colheres plásticas; meus pais, levantando-se para buscar guardanapos e canudos grátis do McDonald’s, enquanto motoristas americanos, com seus filhos barulhentos de cabelos claros, compravam as mais felizes refeições.

Meus pais riam da minha arrogância. Sentado lá, com fome e sozinho — que homem estranho eu estava me tornando! Tão diferente deles. Meus bolsos estavam cheios de moedas de 25 e 10 centavos, o suficiente para um hambúrguer e uma Coca-Cola pequena. Considerei a possibilidade de redimir minha própria dignidade, de deixar para trás nossa herança de salada de beterraba. Meus pais não gastavam dinheiro porque viviam achando que um desastre poderia acontecer a qualquer momento, que o resultado de um exame renal seria recebido com o garrancho de ‘urgente’ do médico ou que seriam demitidos de seus empregos porque seu inglês não era suficientemente bom. Éramos todos representantes de uma sociedade de sombras, escondendo-se sob uma nuvem de notícias ruins que nunca iriam se realizar. As moedas prateadas permaneceram em meu bolso, a raiva se entocou e se expandiu em uma úlcera futura. Eu era filho dos meus pais.


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“Sixty-Nine Cents” por Gary Shteyngart.
Copyright © 2007 Gary Shteyngart. Publicado pela primeira vez na revista The New Yorker. Reproduzido com permissão de Denise Shannon Literary Agency, Inc.