Ensinando a Arte de Ser Humano:
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Os povos indígenas que primeiro habitaram as Américas conservavam sua literatura na memória para ser transmitida oralmente; membros das nações indígenas sobreviventes ainda procedem da mesma forma. Lea Terhune é editora-gerente desta eJournal USA.
A escrita foi inventada, e muitas histórias transmitidas oralmente foram colocadas no papel, mas os contadores de histórias continuaram a encantar comunidades tradicionais do mundo todo. Mesmo a revolução tecnológica do século 20, que trouxe o rádio, a televisão, a internet e a mídia digital, não foi capaz de silenciar os contadores de histórias. Os indígenas americanos possuem uma rica tradição oral entre suas várias tribos, ou nações, que habitaram a América do Norte e a do Sul bem antes de aparecer o primeiro explorador europeu. Atualmente, essas histórias, preservadas em suas comunidades, alcançam um público maior graças a contadores de histórias como Sunny Dooley e Dovie Thomason. Sunny Dooley, índia navajo, ou diné, e Dovie Thomason, que tem ancestrais lakota e kiowa apache, sentaram-se para juntas discutir a função dos contadores de histórias no século 21 após apresentação no Museu Nacional do Índio Americano, em Washington, DC. Sunny Dooley é uma intérprete precisa da tradição navajo. Seguindo o conselho de seu avô cantor de coro, conta histórias apenas quando convidada e não faz publicidade a respeito. Imersa na cultura tribal da reserva navajo do Arizona onde foi criada, sua primeira língua é o diné. Os navajos, atualmente a maior nação indígena dos Estados Unidos, eram seminômades e pastores. Dovie Thomason pertence às nações dos Índios das Grandes Planícies, os lakota, cuja subsistência girava em torno da caça ao búfalo antes de os rebanhos serem dizimados, e dos kiowa apache, legendários e ferozes guerreiros. As tradições orais diferem entre as tribos, mas os objetivos são semelhantes. “Há centenas de nações nativas, e cada nação e tribo tem finalidades específicas para suas histórias”, diz Sunny Dooley. Para os navajos, “as histórias são utilizadas como parte da informação e do aprendizado de uma pessoa como ser humano. A dimensão espiritual da história a torna parte integrante de todas as cerimônias navajo, onde é usada “para curar, para ensinar, para entreter dando de fato um ponto de origem a seus integrantes”, acrescenta Sunny. Dovie Thomason representa várias tradições indígenas. Além da sua origem de nascimento, ela foi adotada no pueblo e “emprestada aos iroqueses, porque precisavam de um contador de histórias”. Dovie concorda com Sunny. Entre as tradições de Dovie, “grande parte de tudo que Sunny disse sobre o sentido e a finalidade de contar histórias é semelhante. Precisamos ser ensinados e lembrados sobre como ser humanos; precisamos de um modelo, algum tipo de mapa e direção sobre como fazer escolhas e tomar decisões”, acrescenta.
Histórias como professores As histórias ajudam os pais a educar e “preservar certas formas de comportamento do ser humano em uma comunidade”, afirma Dovie. Ao falar sobre o apreço dos lakota e dos kiowa apaches pela independência e pela individualidade, ela lembra de sua avó, de quem aprendeu muitas histórias que fazem parte do seu repertório. “Minha avó dizia que me contava histórias para que eu pudesse ser livre. E acredito que em parte isso possa estar refletindo sua experiência no final do século 19 e início do século 20, quando as histórias eram a maneira de ensinar a autocontenção, o autocontrole”, sem tentar ditar comportamentos. “A ideia de ter de controlar o comportamento de outra pessoa não é tabu, é apenas desconfortável, é inadequada”, acrescenta Dovie. As histórias são usadas para ensinar o valor da responsabilidade e da autocontenção. As personagens de palhaços sagrados, como o Coyote, o Iktomi ou o Raccoon, oferecem fábulas sobre as consequências do mau comportamento e as vantagens de se fazer a coisa certa. O Coyote e o Iktomi “ensinam que só porque você pode fazer alguma coisa não significa que deve fazê-la”, diz Dovie. As histórias fazem a pessoa pensar: “Eu posso fazer isso. Devo fazer? Bem, talvez não.” Significam mais “respeito do que confrontação” ou controle. As histórias esclarecem as falhas, enquanto permitem que possíveis infratores façam suas escolhas. Dovie explica: “A pessoa pode ouvir a história e dizer: ‘eu era o pássaro? Quem era eu? Por que essa história foi contada para mim?” Tanto Dovie quanto Sunny lembram de ter de ouvir histórias, algumas vezes durante horas, após terem feito alguma travessura infantil. Sunny diz que os contadores de histórias ensinam “a bondade da vida. Mostram a lenha que você pode apanhar para aquecer sua casa. Ensinam quais animais são apropriados para criar, para comer. E, acredito também, nos tornam bastante conscientes do meio ambiente”. Sunny Dooley e Dovie Thomason começaram a contar histórias em suas comunidades tribais. O dilema surgiu após ganharem um público maior: como contar histórias de forma sagrada e de forma profissional. “Você praticamente tem que se separar da maneira cultural e cerimonial de contar histórias e ir para esse outro lado, que é o da profissão de contar histórias”, diz Sunny. As histórias dos rituais navajos não mudam, e nem novas histórias são criadas. Algumas “foram extintas” – “não há mais tantas como antigamente, mas ainda há muitas para serem contadas”. As histórias navajo são longas, geralmente levam dias, um desafio de interpretação em apresentações curtas. Novas histórias são criadas no que Sunny chama de esfera “profissional”. “Nesse gênero em particular, novas histórias estão sendo contadas em vários meios, não apenas verbalmente.” Ela diz que suas próprias contribuições “são histórias pessoais, mostrando como é crescer em um mundo bicultural”. E acrescenta: “Acredito que os nativos de todas as nações podem se identificar com isso” por conta da sua experiência histórica da “conquista europeia”. As culturas indígenas sobreviveram à colonização. Sunny diz que os legados coloniais “são sistemas políticos que de certa forma corroeram nossa integridade cultural. E acredito que as histórias estão reivindicando essa integridade”. Dovie, da mesma forma, teve uma “experiência dividida”, equilibrando o contar histórias tradicional com o profissional. Há histórias que ela nunca conta fora da comunidade. Ela teme que a suposição de que as histórias tribais são folclore e, portanto, de domínio público, podendo ser livremente apropriadas e contadas, possa distorcer as tradições sagradas. “Com a profissionalização isso se tornou uma questão muito importante. Presenciei muitos danos e destruição ao ato de contar histórias no campo profissional, muitas vezes involuntários ou fruto de boas intenções”, diz Dovie. Ela acredita que a criação de novas histórias pode ser necessária. “Estou muito envolvida com vários contadores do mundo todo, contadores nativos que estão vendo a necessidade de novas histórias. “Novos comportamentos estão surgindo no século 21, e não temos histórias para abordá-los”, diz, dando dois exemplos: “crianças se matando” na violência das gangues e o que ela chama de “a doença da pressa... de realizar múltiplas tarefas e de fazer sempre mais. (...) As pessoas nunca se movimentaram tão rápido. Precisamos de histórias que nos tornem mais sábios quanto a isso”. Restauração da harmonia Contar histórias é uma atividade sazonal. Dovie lembra de algo que lhe foi dito por um ancião: “O mundo está de cabeça para baixo. Nós seguimos as estações, porém, esse mundo em que vivemos... não procede assim. Houve um tempo em que parávamos quando ficava frio. Agora, colocamos correntes no carro, temos carros com tração nas quatro rodas. Saímos três horas mais cedo para trabalhar. Não temos mais a tranquilidade do teepee. Não temos mais a calma do wikiup, onde o inverno todo é tempo de dormir, tempo parado de reflexão. (Teepee e wikiup são tipos de abrigos dos indígenas americanos). Dovie continua: “Então, em um mundo que está de cabeça para baixo, temos de observar nossas tradições, temos de observar nossos mundos? Onde precisamos nos adaptar? Onde a adaptação é perigosa? Onde devemos mudar? Onde mudar não é necessário? As histórias tradicionais devem permanecer inalteradas”, diz ela. “Os ossos não podem ser alterados. O peso da história, o tamanho da história podem ser alterados. Elas podem ser aumentadas e diminuídas. As coisas são adaptáveis... mas tem de haver consenso sobre o que é uma adaptação razoável”, conclui Dovie. O ato de contar histórias reivindica a harmonia perdida. As histórias e as cerimônias navajo “restauram a harmonia, então você entra mais uma vez em estado de graça, em harmonia com toda a criação”, diz Sunny. “Nossas histórias de certa forma percorrem a gama que vai da ordem à desordem e de volta à ordem. É dentro desses parâmetros que existimos.” As duas mulheres reagem ao termo “multicultural” aplicado aos índios americanos. “Não somos uma minoria, pura e simples. Somos nações soberanas, com status legal específico; somos indígenas, o que nos coloca em uma estrutura legal global e internacional de relacionamentos que se perde quando nos tornamos ‘nativos americanos’”, diz Dovie. E acrescenta: “Gostaria apenas que nos juntássemos ao mundo e começássemos a usar o termo indígena ou sermos específicos.” Ser descendente das Primeiras Nações, cuja presença data de milhares de anos, é diferente das experiências de outros emigrantes recentes, afirma. Sunny Dooley concorda: “Essa ideia toda de multiculturalismo incomoda, e a pergunta que me vem à mente é: ‘Cultura de quem?’” Sobre seus encontros com outras culturas não anglo-europeias, ela diz: “Você entra na selva africana e constata que nossas ricas culturas são muito semelhantes. Não há nada muito “multi” nisso tudo. Eu conheço minha história, eles conhecem a deles. Elas são semelhantes ou parecidas.” As histórias requerem tempo para reflexão, algo que falta no mundo moderno. Sunny questiona “se as pessoas começarão realmente a ouvir de novo. Porque eu realmente acredito que precisamos de momentos de quietude”. Dovie acrescenta que “para falar e falar bem, de forma articulada, sem apontamentos, e ter as coisas na mente, são necessários períodos de silêncio e quietude para que se possa desenvolver essa capacidade. E isso requer um público capaz de cultivar o silêncio, a calma, a atenção e a arte de ouvir”. “Perdemos a antiga graça de conhecer, falar e ouvir”, acrescenta. Um ponto positivo é que agora os acadêmicos “não falam de nós como se estivéssemos extintos, fôssemos primitivos ou atrasados e veem a dádiva valiosa das nossas tradições orais lado a lado com toda a literatura mundial”, diz Dovie. Sunny, que utiliza uma cesta navajo finamente trabalhada como acessório em suas apresentações, diz que a atitude de considerar que alguma coisa “é válida somente se for escrita” a aborrece. Ela usa sua cesta “porque não há nada escrito nela. Há um padrão incorporado a ela, e esse padrão não muda. Mas isso é tão válido quanto a história escrita de qualquer pessoa.” Sunny tem publicado poesias, e Dovie escreve canções e livros infantis que remetem aos contos tribais tradicionais. Mas a principal vocação de ambas é estabelecer o contato pessoal que acreditam ser parte crucial do processo de contar histórias, necessário para provocar o maior impacto possível. O Museu do Índio Americano apresentou as habilidades de Sunny e Dovie para envolver o público de maneira memorável personalizando contos instrutivos consagrados pelo tempo. Suas apresentações foram saudadas com entusiasmo pelos aplausos dos adultos e gritos deliciados das muitas crianças presentes, encantadas com as aventuras do Coyote e do Iktomi ou com a história de como o milho, a batata, o tomate, a pimenta, o feijão e o chocolate originaram-se das culturas indígenas americanas para se tornarem alimentos básicos no mundo tudo. |
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