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Minhas Paixões Literárias

Lara Vapnyar

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Somos uma Nação de Muitas Vozes
Literatura na Encruzilhada
Cão Fantasma: Ou como Escrevi Meu Primeiro Romance
De Ruanda para os Estados Unidos: A Escrita como Transformação
O Que É Literatura Afro-Americana?
Escrever para Unir Culturas Diferentes: Uma Perspectiva do Indígena Americano
Simples Memórias como Poemas
Baixando as Nuvens
O Índio Mais Forte do Mundo
Ensinando a Arte de Ser Humano: Floresce a Antiga Tradição Indígena de Contar Histórias
Trovador dos Blackfeet Canta as Tradições
O Biscoito da Sorte Americano
Descobrindo Aliados nos Livros
A Língua da Traição
Novos Contos do Imigrante: Junot Díaz e a Ficção Afro-Latina
Rádio Cidade Perdida
Capturando as Nuvens
Escrevendo a partir de uma Perspectiva Étnica Complexa
Experiência de um Escritor Indiano
As Influências sobre o Meu Trabalho
As Gazes de Daca
Sessenta e Nove Centavos
Minhas Paixões Literárias
Recursos Adicionais
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Lara Vapnyar
A autora Lara Vapnyar (Cortesia: Random House, Inc.)

Lara Vapnyar emigrou da Rússia para Nova York em 1994 e começou a publicar contos em inglês em 2002. Ela é autora de duas coleções de contos, Broccoli and Other Tales of Food and Love [Brócolis e Outros Contos sobre Comida e Amor] (2008) e There Are Jews in My House [Há Judeus em Minha Casa] (2004), além de um romance, Memoirs of a Muse [Memórias de uma Musa] (2006).

Na adolescência, passei por uma série de obsessões literárias por escritores diferentes. Eu pegava um livro da prateleira e me apaixonava. Podia haver um verão em eu não lesse nada exceto Gogol, proclamando-o o maior escritor russo, mas em setembro eu mudava para Dostoievski, só para trocá-lo por algum outro em alguns meses ou então voltar para Gogol. Eu me apaixonava pelos escritores, mas não necessariamente aqueles por cuja obra eu gostava em especial. Havia também escritores que eu admirava muito, mas raramente desfrutava, como Tolstoi, por exemplo. De vez em quando ele tinha de dar uma lição. Quando eu lia seus romances, geralmente tinha uma imagem dele pairando como um pai ou uma mãe irritante e tinha vontade de dizer: “Ora, deixe-me em paz, deixe-me aproveitar o livro.”

Meu relacionamento mais longo, e mais sério, foi com Tchekhov. Não sei dizer se me apaixonei primeiro por suas histórias ou por sua imagem na capa do livro: ambas eram perfeitas. Suas histórias eram tenras e leves, porém sérias, muito sérias. Eram tristes, porém cômicas, mas cômicas de um modo respeitoso. Não havia piadas baratas: Tchekhov exigia que o leitor descobrisse o humor. Mas o mais importante sobre Tchekhov é sua capacidade de incitar calmamente o leitor a abrir os olhos e ver coisas que sempre estiveram ali, mas que nunca haviam sido descobertas. Ele deixa o leitor ofegante com esse reconhecimento.

Anton Chekhov
O dramaturgo russo Anton Tchekhov permanece perenemente popular: sua foto em teatro em Mineápolis, Minnesota (© Jim Mone/ AP Images)

Eu me identificava com todas as personagens de Tchekhov. Eu era Gurov, eu era Anna Sergeevna, eu era o cão de circo Kashtanka. Era um romance perfeito, calmo, até que li “O Violino de Rothschild”. Apesar do nome, a história não é sobre Rothschild, mas sobre Yakov, um agente funerário russo. Rothschild é uma figura secundária na história, apenas um pequeno judeu — não um homem mau, mas um homem ridículo, patético. Eis uma personagem de Tchekhov com quem eu não queria me identificar — mas não pude evitar de fazê-lo. Ele era um judeu, assim como eu. Descobri muitos outros judeus nas histórias de Tchekhov. Eles nunca eram maus, mas eram infalivelmente pequenos, incapazes de grandeza. Era assim que Tchekhov via os judeus.

Após ter imigrado para os Estados Unidos e começado a me identificar como escritora — dois eventos que aconteceram quase simultaneamente — me senti atraída pelos escritores americanos contemporâneos, especialmente aqueles que eram, como eu, descendentes de imigrantes. Eu admirava o estilo primoroso e a profundidade discreta de Jhumpa Lahiri, o fogo e a energia de Junot Díaz, a incrível experimentação de Alexander Hemon. Procurava suas obras em busca de inspiração quando ficava emperrada na minha produção literária e pedia ajuda às suas personagens quando estava empacada em minha vida pessoal.

No entanto, Tchekhov permanece sendo o verdadeiro amor literário da minha vida. Mantenho seus livros na minha mesa de cabeceira e volto a eles repetidas vezes para lembrar-me de que algo tão simples e despretensioso como as histórias de Tchekhov podem revelar verdadeira grandeza.