Simples Memórias como PoemasOfelia Zepeda
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Poetisa busca inspiração nas memórias de família e na sua língua nativa. Ofelia Zepeda é poetisa e educadora nascida na nação indígena Tohono O’odham do sudeste dos EUA. É, há muito tempo, defensora das línguas indígenas americanas e escreveu A Papago Grammar [Uma Gramática dos Papago]. É autora de três livros de poesia, inclusive Ocean Power: Poems from the Desert [A Força do Oceano: Poemas do Deserto] e o bilingue Earth Movements/Jewed I-Hoi [Movimentos da Terra/Jewed I-Hoi]. Foi premiada por sua obra com a prestigiada Bolsa de Estudos MacArthur em 1999. Zepeda leciona nos Programas de Estudos sobre os Índios Americanos da Universidade do Arizona, em Tucson, e é codiretora do Instituto de Desenvolvimento das Línguas Indígenas Americanas, do qual foi cofundadora. A questão é básica: O que ou quem influencia minha produção literária? A resposta, no entanto, não é fácil de ser dada no meu caso. No poema “The Place Where Clouds Are Formed [“O Lugar Onde as Nuvens se Formam”], as linhas “com as costas da mão enluvada ele limpa a janela, / ‘ainda vem?’” evoca uma imagem e uma voz que lembro com tanta clareza, como se fosse ontem, embora essa memória de infância seja de há muito tempo. Muitos dos meus poemas são fruto de simples memórias. Memórias capturadas no tempo, memórias de certas frases, atos e movimentos. E que sempre me surpreendem quando afloram à superfície. Quando comecei a escrever poesia como adulta, foi interessante ver a facilidade com que resgatava fragmentos de coisas lembradas da infância. Em minha primeira coletânea de poesia, Ocean Power: Poems from the Desert, incluí um ensaio introdutório que reflete sobre esse fenômeno e meu desejo de dar o devido mérito a essas coisas que ajudaram a dar corpo às minhas memórias. Elas não são exclusivamente minhas, já que constituem pedaços de pessoas da minha vida, em especial, minha família. Representam frequentemente uma memória coletiva, mas fui a única que quis se mover na esfera da poesia. Posso relatar os sons e as formas que atuam como recurso mnemônico para muitas das coisas que me ajudam a lembrar. Atribuo um grande valor à minha língua: a Tohono O’odham, falada no sul do Arizona e no norte de Sonora, no México, pertence ainda à tradição oral; a leitura e escrita dessa língua não é uma ocorrência comum. A sua oralidade me força à prática de lembrar coisas. Como essa língua caminha em direção ao século 21, a permanência do ato de lembrar torna-se ainda mais indispensável, seja por meio da lembrança dos rituais sagrados e das canções do O’odham ou por intermédio dos acontecimentos do dia a dia e dos sons do povo de um lugar especial. Todas essas coisas lembradas são parte da oralidade geral de uma língua e todas contribuem para o processo criativo em muitos níveis, como no meu caso. Atualmente procuro ficar atenta aos mínimos movimentos ao meu redor. Presto atenção aos sons rotineiros, percebo a movimentação diária das pessoas. Registro especialmente algumas dessas coisas na minha memória, sem nunca saber quando uma ocasião ou uma palavra assomará à superfície e me guiará na criação de um poema. |