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O Dilema do Prisioneiro e Outras Oportunidades

David P. Barash

Nonviolent Paths to Social Change

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Poder da Ação Não Violenta
A Não Violência na História dos EUA
O Que Fazem os Organizadores Comunitários?
A Campanha Eletrônica: Arregimentação de Voluntários e Eleitores
Direcionando o Poder do Protesto
A Guerra Nunca Vai Terminar?
O Dilema do Prisioneiro e Outras Oportunidades
Poucas Pessoas Fazendo Acontecer
Recursos Adicionais
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A teoria dos jogos sugere que, embora a cooperação não seja nada fácil de ser alcançada, é possível demonstrar que muitas vezes ela é preferível ao conflito.

David P. Barash é professor de Psicologia da Universidade de Washington e coautor de Peace and Conflict Studies [Estudos sobre Paz e Conflito], entre outros livros.

O problema parece bastante simples: por que as pessoas não cooperam? Ou, pelo menos, por que não cooperam mais do que o fazem atualmente? Afinal, se eu ajudasse você e em troca você me ajudasse, não iríamos ambos estar melhor? Da mesma forma, não seria um benefício para todos se todos seguissem o caminho da não violência? Em resumo, o que há de tão difícil na famosa questão colocada pelo motorista americano Rodney King após ter sido espancado pela polícia de Los Angeles: por que não podemos simplesmente conviver? Sem violência.

A resposta acaba sendo mais complexa do que poderíamos pensar. Por outro lado, uma série de técnicas de tomada de decisão, conhecida como teoria dos jogos, ajuda a esclarecer os dois problemas — incluindo o problema da violência contra a não violência — e apresenta algumas estratégias para resolvê-los.

A teoria dos jogos, em poucas palavras, é um modo de observar situações que envolvem, pelo menos, dois lados (ou “jogadores”), e seus “desenlaces” ou “resultados” são determinados não só por aquilo que determinado jogador faz, mas pela interação dos dois lados envolvidos. Sem esse componente interativo, esses “jogos” seriam muito difíceis: cada jogador faria simplesmente o necessário para obter o melhor resultado para si mesmo, sem considerar o outro jogador. Por exemplo, se estiver chovendo, a “jogada” correta pode ser levar um guarda-chuva, não importando o que o outro vai fazer. É improvável que as condições atmosféricas sejam influenciadas pelo comportamento de alguém; cada um, portanto, é livre para seguir suas inclinações, sem considerar o curso de ação do outro.

Por outro lado, imagine que duas pessoas descobrem, digamos, uma pequena pilha de dinheiro. É provável que seja melhor levar o outro em consideração: por exemplo, dividir o butim em vez de cada um tentar monopolizar o lucro e, possivelmente, brigar por isso como resultado. Quando o resultado é determinado não só por aquilo que o indivíduo A faz, mas também pelo que o B faz simultaneamente, é que entra em ação a teoria dos jogos.

Infelizmente, no entanto, essas decisões não costumam ser tão simples quanto uma mera divisão do lucro e, ainda pior, são com frequência motivo de não cooperação, especialmente quando a cooperação de um dos jogadores o torna vulnerável a ser explorado pelo outro. Essas situações são encontradas amiúde por indivíduos e grupos sociais que procuram prevenir conflitos e evitar violência.

Em resumo, há um risco constante de que, ao escolher a cooperação em vez da competição, os participantes não violentos percam para aqueles mais propensos à agressividade e à violência. Imagine, por exemplo, no caso de duas pessoas que descobrem uma pilha de dinheiro, que uma delas escolhe puxar uma arma e reclamar o dinheiro para si, enquanto a outra pratica a não violência. O resultado inevitável seria que o participante violento seria recompensado por seu comportamento (ele ficaria com o dinheiro), enquanto o não violento sairia de mãos vazias. Ou, como expressou Maquiavel de modo célebre: “Um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade, perder-se-á em meio a tantos que não são bons.”

Soluções não violentas

Mas também há esperanças. A teoria dos jogos não apenas ajuda a entender o problema, mas também sugere e apoia soluções não violentas.

O Dilema do Prisioneiro deriva da teoria dos jogos e é um modelo para a evolução da cooperação em oposição à competição de maneira generalizada. Como a maioria dos modelos, é muito simples, porém ajuda a destrinchar a forma de pensar.

Suponha que dois indivíduos — ou grupos ou até Estados — tenham, ambos, a escolha de ser não violentos ou violentos. (Os teóricos generalizam essas opções como “cooperar” contra “trair” ou “bom” contra “mau”, incluindo assuntos internacionais como a corrida armamentista e a imposição de barreiras comerciais.) Se ambas as partes escolherem a não violência, recebem uma recompensa por essa atitude: resolver a disputa pacificamente ou, no caso de encontrar dinheiro, obter uma parte sem brigar. Se ambas escolherem a violência, recebem outro pagamento: a punição de uma possível perda. Mas se um trai e o outro coopera, o participante violento fica com o que se chama a tentação de trair (todo o dinheiro, no exemplo), e o que cooperou (e que se comportou de forma não violenta, enquanto o outro escolheu a violência) recebe a parte do trouxa: nenhum dinheiro, neste caso.

Para compreender o que acontece depois, imagine-se dentro da cabeça de cada um dos jogadores: “O outro pode cooperar comigo (ser não violento) ou me trair. Se ele escolher a primeira opção, então, meu melhor movimento será ameaçar violência porque assim eu posso obter o melhor resultado enquanto ele — um trouxa — ficará sem nada. Por outro lado, ele pode escolher me trair e ameaçar violência, nesse caso minha melhor jogada — uma vez mais — será fazer o mesmo, porque embora eu possa ser punido em um possível confronto, o que certamente é um resultado ruim, pelo menos é melhor do que terminar como um trouxa e perder tudo.”

O resultado dessa lógica rigorosa é que os dois lados possivelmente se inclinarão à traição violenta, o que apresenta um dilema problemático porque, ao fazê-lo, ambos são punidos (no caso de indivíduos, com uma briga, e no caso das nações, talvez com uma desgastante corrida armamentista ou uma guerra comercial), enquanto o melhor desenlace para ambos teria sido dividir a recompensa pela cooperação e pela não violência.

O Dilema do Prisioneiro é uma boa maneira de exemplificar esse problema, ao mostrar que acaba sendo necessário ser mau por medo, já que quem é bom fica à mercê daqueles que perseveram em ser maus (lembrem de Maquiavel).

Por outro lado, essa não é a única forma de ver esse tipo de situação. Por exemplo, quando se trata de violência e não violência, um modelo mais apropriado pode bem ser o chamado jogo do medroso (chicken game), que se parece com o Dilema do Prisioneiro, só que aqui a punição é o pior desenlace de todos: o custo da briga — ou até da ameaça de briga — excede o custo de ser um trouxa e evitar o conflito. O “jogo” do medroso é aquele onde dois motoristas dirigem, um em direção ao outro, rumo à colisão, com um tentando induzir o outro a desviar. Aquele que desvia — o equivalente ao que coopera no Dilema do Prisioneiro — é considerado um medroso, enquanto aquele que continuou seu rumo — o equivalente ao que trai no Dilema do Prisioneiro — vence. O problema, no entanto, é que se cada jogador estiver determinado a trair e, portanto, a ganhar à custa do outro, o resultado será que ambos perderão!

Jogos repetidos

Os modelos simplificados da teoria dos jogos também supõem que há apenas um desenlace possível e que qualquer interação ocorre uma única vez. Mas, na realidade, indivíduos e grupos costumam interagir repetidamente e podem variar seu comportamento dependendo do que aconteceu na vez anterior. Ambos os lados, portanto, têm interesse genuíno em gerar uma sequência de interações cooperativas não violentas, porque tanto no Dilema do Prisioneiro como no jogo do medroso a recompensa pela cooperação não violenta é sempre maior que a da violência mútua. Portanto, esses resultados podem, na verdade, produzir o melhor retorno para todos os envolvidos.

Curiosamente, mesmo em interações únicas e isoladas, em que um cálculo estritamente racional sugeriria que a traição competitiva seria a resposta “lógica”, a maioria das pessoas se inclina a tentar cooperar, especialmente quando entende que a interação em questão pode se repetir. Interações contínuas oferecem não só as possíveis desvantagens de punições repetidas para a traição mútua (violência), mas também a perspectiva de desfrutar recompensas duradouras pela cooperação mútua (não violência).

Simulações matemáticas e computadorizadas demonstraram, por exemplo, que uma simples estratégia de reciprocidade (pagar na mesma moeda) pode gerar o melhor resultado para todos, inclusive no clássico Dilema do Prisioneiro. Essa estratégia envolve uma cooperação inicial, após a qual cada jogador simplesmente repete a jogada usada pelo outro na rodada anterior. Assim, a cooperação do jogador A provoca a cooperação do jogador B indefinidamente — como resultado de que ambos obtêm repetidamente a recompensa pela cooperação não violenta. Do mesmo modo, a traição de A produz a traição de B, protegendo, assim, B de ser enganado mais de uma vez e desencorajando A de trair em primeiro lugar.

Mahatma Gandhi não aprovava a retaliação na base do “pagar na mesma moeda”, mas enfatizou de maneira contundente que a satyagraha — o termo que ele usava para a não violência ativa — deve ser diferenciada da aceitação passiva ou do desejo de evitar conflitos a qualquer preço. Ele também deixou claro que por meio de suas ações os satyagrahis acabam modificando o comportamento do possível traidor e que por seu exemplo e disposição para aceitar o sofrimento (de ser trouxas ocasionais, na terminologia da teoria dos jogos) eles podem fazer algo que os teóricos dos jogos em geral não levam em consideração: mudar o comportamento da outra parte apelando à sua natureza mais elevada.

Quando uma vítima responde à violência com ainda mais violência, está se comportando de forma previsível, talvez até instintiva, o que tende a reforçar a agressão do atacante original e inclusive, de certo modo, a validar a violência original, pelo menos do ponto de vista do atacante. Se a vítima é tão violenta, provavelmente ela mereceu ser vítima! Além disso, há uma expectativa generalizada em relação ao poder compensatório, análogo na esfera social à primeira Lei de Newton, que estabelece que para cada ação há uma reação oposta correspondente. Assim, se A ataca B e B ataca de volta, isso quase sempre encoraja A a atacar novamente. Gandhi não era adepto do preceito bíblico “olho por olho, dente por dente”, assinalando que, se todos nos comportássemos desse modo, em breve todo mundo estaria cego e desdentado.

Em vez disso, se B responder com não violência, essa resposta não só rompe a cadeia de fúria e ódio (análoga à cadeia hindu de nascimento e reencarnação), mas também põe A em uma posição inesperada. “Trato de inutilizar a espada do tirano”, escreveu Gandhi, “não a cruzando com uma arma mais afiada, mas defraudando suas expectativas ao não oferecer resistência física alguma”. Essa resistência não é fácil nem indolor, mas a teoria dos jogos, bem como a experiência prática de Gandhi na África do Sul e na Índia e de Martin Luther King Jr. e outros ativistas nos Estados Unidos, confirma que pode ser espetacularmente bem-sucedida.

O estadista e filósofo romano Cícero, em suas cartas pergunta: “O que pode ser feito contra a força, sem força?” (ad Familiares 12.3). Os estudantes da não violência responderiam: “Muito.” Ainda mais, eles perguntariam se algo efetivo, duradouro ou proveitoso pode ser feito contra a força, com o uso da força. Finalmente, como vimos, o recurso mútuo à violência leva rapidamente ao que os teóricos dos jogos identificaram como a punição da traição mútua em detrimento de todos. O líder ativista dos direitos civis americanos Martin Luther King, que, como Gandhi, era extremamente prático e voltado para resultados, escreveu que “retribuir violência com violência multiplica a violência, acrescentando uma escuridão mais profunda a uma noite já carente de estrelas. A escuridão não pode banir a escuridão; só a luz pode fazê-lo. O ódio não pode banir o ódio; só o amor pode fazê-lo”.

Em resumo, a teoria dos jogos ajuda a iluminar os limites da cooperação, revelando porque “conviver” não é tão simples — ou tão natural — quanto muitos desejariam. Mas, ao mesmo tempo, mostra que os seres humanos não estão necessariamente condenados a um mundo hobbesiano de traição interminável e punitiva e competição dolorosa, se puderem ser persuadidos a ter uma visão mais ampla de sua situação e, assim, de suas oportunidades.

Nonviolent Paths to Social Change

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.