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A Não Violência na História dos EUA

Ira Chernus

Nonviolent Paths to Social Change

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Poder da Ação Não Violenta
A Não Violência na História dos EUA
O Que Fazem os Organizadores Comunitários?
A Campanha Eletrônica: Arregimentação de Voluntários e Eleitores
Direcionando o Poder do Protesto
A Guerra Nunca Vai Terminar?
O Dilema do Prisioneiro e Outras Oportunidades
Poucas Pessoas Fazendo Acontecer
Recursos Adicionais
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Protester holding giant peace symbol (Bettman/Corbis)
Os protestos não violentos contra a Guerra do Vietnã nos anos 1960 seguiram o exemplo do movimento pelos direitos civis dos EUA (© Bettmann/Corbis)

Com raízes na Europa do século 16, as tradições intelectuais do pensamento e da ação da não violência foram desenvolvidas nos Estados Unidos nos séculos 19 e 20 e se propagaram para a Ásia e a África.

Ira Chernus é professor de Estudos Religiosos da Universidade do Colorado, em Boulder, e autor de American Nonviolence: The History of an Idea [Não Violência Americana: A História de uma Ideia].

Quando as pessoas se dispõem a criar mudança social, elas devem decidir se usarão ou não a violência para atingir seus objetivos. Aqueles que optam pela não violência podem, em principio, não fazer objeção à violência. Apenas acreditam que a violência não os ajudará a atingir suas metas, ou temem sair feridos, ou não podem convencer outras pessoas a se juntar a elas em atos violentos. Sua não violência é mera questão de conveniência ou pragmatismo.

Porém, ao longo dos séculos, muitas pessoas poderiam ter atingido seus objetivos por meio da violência – elas tinham os meios, a coragem e a força para praticar a violência – e mesmo assim decidiram não usá-la sob nenhuma circunstância. Preferiram seguir o caminho da não violência por uma questão de princípio. Embora muitos tenham sido inspirados a adotar esse princípio por razões emocionais e culturais, foram também influenciados pela rica tradição intelectual que apresenta argumentos lógicos a favor da não violência.

Essa tradição intelectual permeia toda a história dos EUA como um fluxo subterrâneo. Suas raízes remetem aos cristãos anabatistas da Europa do século 16, época do início do cristianismo protestante. Os anabatistas rejeitaram a violência porque estavam empenhados em permanecer separados da sociedade dominante e de seus múltiplos conflitos. Alguns de seus descendentes vieram para os Estados Unidos, onde estabeleceram o que é conhecido como igrejas históricas da paz.

A contribuição característica dos EUA ocorreu quando outros cristãos, que estavam profundamente envolvidos nos conflitos da sociedade, decidiram, por uma questão de princípio, buscar mudanças políticas e sociais usando apenas meios não violentos. O processo teve início na época colonial, antes de os Estados Unidos declararem sua independência da Grã-Bretanha, entre membros da Sociedade de Amigos, conhecidos como quakers. Seu estrito compromisso com a não violência levou alguns deles a se posicionar contra o pagamento de impostos de guerra, a escravidão de afro-americanos e a perseguição e o deslocamento de povos nativos americanos. Mas os quakers eram em essência um grupo religioso, cujas crenças os levaram à não violência.

1851 etching of Boston anti-slavery meeting (Corbis)
O abolicionista Wendell Phillips profere discurso contra a escravidão no Boston Common em abril de 1851 (© Corbis)

A grande transformação veio nos anos 1820 e 1830, quando um grupo de pessoas de diferentes origens religiosas começou a exigir a abolição da escravidão nos Estados Unidos. Esses abolicionistas eram quase todos cristãos e nem todos estavam comprometidos em alcançar suas metas sem recorrer à violência. Os que estavam, porém, criaram o primeiro grupo formado com o objetivo de uma mudança político-social e optaram por meios não violentos. Eles acreditavam em Deus como o governante supremo do universo. Sendo assim, diziam, nenhum ser humano deve jamais exercer autoridade sobre outro ser humano. Com base nisso, eles denunciaram a escravidão. E, como a violência é sempre uma forma de exercer autoridade, o fato de a terem rejeitado seguiu a mesma lógica.

A mesma linha de pensamento influenciou o grande ensaísta Henry Thoreau em sua decisão de preferir a cadeia a pagar impostos a um governo que apoiava a guerra e a escravidão. Em seu famoso ensaio de 1849, “Desobediência Civil”, Thoreau explicou que ele nunca obedeceria a uma lei injusta, independentemente da punição aplicada, porque as pessoas deveriam seguir sua própria consciência e não atender passivamente às exigências do governo. O principal objetivo de Thoreau era manter a própria virtude moral e sua liberdade para agir de acordo com a sua verdade. Mas ele chegou a ressaltar que, se um número suficiente de pessoas se recusasse a obedecer leis injustas, elas poderiam “paralisar a máquina” do Estado.

Tolstoi e Gandhi

Os textos dos abolicionistas e de Thoreau inspiraram o grande romancista russo Leon Tolstoi a se tornar um ardente expoente da não violência cristã. Seus escritos, por sua vez, ajudaram a moldar as ideias do maior de todos os ativistas não violentos, o líder do movimento de independência da Índia, Mahatma Gandhi. No século 20, as ideias de Tolstoi e de Gandhi retornaram aos Estados Unidos e inspiraram muito americanos, os quais geralmente não sabiam que grande parte da teoria da não violência havia se originado em seu próprio país.

Para Gandhi, a não violência era mais uma questão de intenção do que de comportamento propriamente dito. Ele definiu “violência” como a intenção de coagir outra pessoa a fazer alguma coisa que ela não queria fazer. Ações não violentas, como boicotes, bloqueios e desobediência às leis podem parecer coercitivas, mas, se realizadas no verdadeiro espírito da não violência, são meras formas de agir de acordo com a verdade moral de cada um. Elas deixam outras pessoas livres para reagir da forma que considerarem apropriada. Um seguidor da não violência de Gandhi diz, no espírito de Thoreau: “Estou fazendo o que sinto que devo fazer. Agora faça o que você sente que deve fazer. Você pode me prender, me bater ou até me matar. Mas você não pode tirar a minha liberdade de ser fiel à minha consciência.”

Gandhi reconheceu que estava conclamando todas as pessoas a agir de acordo com a sua própria visão da verdade. Ninguém pode conhecer toda a verdade, disse, e devemos estar abertos para a possibilidade de descobrirmos mais tarde que estávamos errados. É por isso que nunca devemos impor nossas próprias opiniões aos outros. Mas devemos tomar uma posição firme – mesmo sob risco de morte – com base na verdade como a vemos no momento. Só então poderemos descobrir por nós mesmos o que é a verdade, em qualquer situação.

Uma vez que não violência por princípio significa não coerção, as pessoas comprometidas com a não violência acreditam que nunca estão tentando transformar uma situação em algo que querem. Em sua visão, trabalham não com propósitos egoístas, mas para o bem de todos. De fato, segundo Gandhi, elas nunca deveriam se preocupar com o resultado de suas ações. Deveriam apenas ter a certeza de que estão fazendo a coisa moralmente certa em todos os momentos. Seguir a verdade moral representa tanto o meio como o fim da não violência; um processo justo é a meta. Sendo assim, a não violência não deveria ser julgada por sua capacidade de produzir resultados.

O mais famoso expoente da não violência nos Estados Unidos foi Martin Luther King Jr., grande porta-voz dos direitos civis dos afro-americanos nos anos 1950 e 1960. Luther King concordava com Gandhi que as ações não violentas devem ser sempre realizadas levando-se em conta a preocupação com o bem-estar de todas as pessoas, mesmo os injustos e os opressores. “Estamos presos em uma rede inevitável de mutualidade”, proclamava, “unidos em um único tecido do destino. O que afeta uma pessoa diretamente, afeta todas indiretamente.”

Porém, diferentemente de Gandhi, Luther King se preocupava com o resultado de suas ações. Ele julgava as estratégias do movimento pelos direitos civis não só por sua virtude moral intrínseca, mas também por sua eficácia no combate à discriminação contra os negros. Luther King queria provocar conflito e obter vitórias políticas.

Mas, desde que se trabalhe de forma não violenta por justiça e igualdade, argumentava Luther King, o conflito produzirá maior justiça e paz para todos. Assim, em sua visão, não há conflito entre o sucesso pessoal e o benefícios para a sociedade: “Estamos na posição privilegiada de ter nosso senso de moralidade mais profundo em uníssono com nossos próprios interesses.” Segundo ele, mesmo quando nossos atos envolvem duras confrontações e pressões, contanto que estejamos motivados pelo amor desinteressado oferecido igualmente aos dois lados do conflito, estaremos trabalhando para harmonizar os lados opostos e melhorar a vida de todos. Nesse ponto, Gandhi certamente haveria de concordar.

Resultados da não violência

O movimento pelos direitos civis demonstrou que a não violência pode produzir resultados, desde que este seja o padrão de julgamento. Nos anos 1960, o movimento não violento pelo fim da Guerra do Vietnã – amplamente inspirado pelo sucesso dos ativistas dos direitos civis – desempenhou papel significativo no convencimento do governo dos EUA para retirar suas tropas do Vietnã.

Até os anos 1960, a maioria dos americanos comprometidos com o princípio da não violência foi movida pelas crenças religiosas cristãs. Mas o movimento de protesto contra a Guerra do Vietnã envolveu muitas pessoas que não eram cristãs. A Irmandade Judaica pela Paz (fundada em 1941) cresceu de modo significativo. Um movimento budista emergente foi liderado pelos ensinamentos de Thich Nhat Hahn e, mais tarde, do Dalai Lama.

Havia também muito mais americanos sem afiliação religiosa que aderiram à não violência. Também podiam encontrar inspiração nos textos da feminista Barbara Deming. A não violência é necessariamente coercitiva, escreveu ela. Mas força as pessoas a parar de fazer coisas que elas não têm o direito moral de fazer. A não violência não fere a liberdade de fazer tudo a que se tem direito. Assim, a não violência é a força mais eficaz para se fazer mudança social e política duradoura, porque é a forma menos provável de antagonizar as pessoas que estão sendo forçadas a mudar.

Desde os anos 1960, os Estados Unidos têm presenciado um interesse crescente pela não violência por princípio aplicada a várias questões políticas, embora seus adeptos ainda representem apenas uma pequena parcela da população.

Os movimentos de não violência nos Estados Unidos também ajudaram a gerar movimentos similares no mundo todo. Esses movimentos obtiveram melhoria significativa das condições de vida – mais notavelmente na derrubada de regimes totalitários do Leste Europeu às Filipinas. Ativistas da não violência ajudaram a acabar com os amargos conflitos há muito tempo existentes na Irlanda do Norte, na Guatemala e no Timor Leste, entre outros lugares. Estão atualmente ativos em várias linhas de frente em zonas de conflito no mundo todo. Ao longo da história, os Estados Unidos estão no centro de um processo global em curso de mudança social e política não violenta.

Nonviolent Paths to Social Change

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.