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A Guerra Nunca Vai Terminar?

John Horgan

Nonviolent Paths to Social Change

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Poder da Ação Não Violenta
A Não Violência na História dos EUA
O Que Fazem os Organizadores Comunitários?
A Campanha Eletrônica: Arregimentação de Voluntários e Eleitores
Direcionando o Poder do Protesto
A Guerra Nunca Vai Terminar?
O Dilema do Prisioneiro e Outras Oportunidades
Poucas Pessoas Fazendo Acontecer
Recursos Adicionais
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Chinese man kneeling on cracked, drought-stricken earth (AP Images)
Antropólogos encontraram correlações entre a guerra e tensões ambientais, como a seca (© Imaginechina via AP Images)

A guerra não faz parte da condição natural do homem. A civilização promove modos menos violentos de efetuar mudanças.

John Horgan é jornalista científico e diretor do Centro de Escritos Científicos do Instituto de Tecnologia Stevens, em Hoboken, Nova York. Entre seus livros estão O Fim da Ciência, A Mente Desconhecida e Rational Mysticism [Misticismo Racional].

De todas as formas de violência humana, a guerra — violência organizada e letal entre dois ou mais grupos — é a mais profundamente destrutiva. Em toda a história da humanidade visionários tão diferentes como Immanuel Kant e Martin Luther King Jr. profetizaram o fim da guerra ou de sua ameaça como um meio de resolver disputas entre nações.

No entanto, de acordo com as pesquisas que realizei nos últimos anos, a maioria das pessoas atualmente aceita a guerra e o militarismo como inevitáveis. Quando perguntados se “os homens deixarão de travar guerras?”, mais de 90% dos alunos da minha universidade responderam “não”. Instados a justificar essa opinião, muitos alunos responderam que a guerra está “em nossos genes”.

Pesquisa recente sobre a guerra e a agressão parece, à primeira vista, apoiar essa conclusão fatalista. O antropólogo Lawrence Keeley da Universidade de Illinois estima que mais de 90% das sociedades tribais pré-Estado se envolviam no mínimo em guerras eventuais e que muitas guerreavam constantemente. O combate tribal envolvia geralmente escaramuças e emboscadas, em vez de batalhas intensas, mas com o passar do tempo a luta podia produzir taxas de mortalidade de até 50%. Essas descobertas, argumenta Keeley, destroem a alegação do filósofo francês do século 18 Jean Jacques Rousseau de que, antes da civilização, os homens eram “nobres selvagens” que viviam em harmonia entre eles e com a natureza.

Alguns cientistas investigam a prática da guerra até o ancestral comum que compartilhamos com os chimpanzés, nossos parentes genéticos mais próximos. A partir de meados dos anos 1970, pesquisadores da África observaram que os chimpanzés machos do mesmo grupo formavam bandos para patrulhar o território; se encontravam um chimpanzé de grupo diferente, os patrulheiros o surravam, muitas vezes até a morte.

Legal institutions, such as this mobile court in the Philippines, have reduced the risk of violence (Image Source/Corbis)
Instituições legais, como este tribunal móvel nas Filipinas, reduziram o risco de violência (Pat Roque/AP Images)

As taxas de mortalidade derivadas da violência intergrupal entre chimpanzés, relata o antropólogo Richard Wrangham da Universidade de Harvard, podem ser comparadas grosseiramente às taxas observadas entre os caçadores-coletores humanos. “A violência como a dos chimpanzés precedeu a guerra humana e preparou o caminho para ela”, afirma Wrangham, “fazendo dos homens modernos os sobreviventes estupefatos de um hábito contínuo de agressão letal de 5 milhões de anos.”

Wrangham argumenta que a seleção natural beneficiou os primatas machos, inclusive os humanos, predispostos à agressão violenta. Como prova, ele cita estudos sobre os ianomâmi, tribo polígama que habita a floresta tropical amazônica. Os homens ianomâmi de aldeias diferentes se engajam com frequência em incursões e contraincursões letais. O antropólogo da Universidade da Califórnia Napoleon Chagnon, que observou os ianomâmi durante décadas, descobriu que os machos matadores tinham, em média, o dobro de mulheres e o triplo de filhos dos machos que jamais matavam.

Mas Chagnon rejeita com veemência a noção de que os guerreiros ianomâmi são compelidos a lutar por seus instintos agressivos. Os matadores realmente compulsivos, explica Chagnon, morrem rapidamente, em vez de viver o suficiente para ter muitas mulheres e filhos.

Os guerreiros ianomâmi bem-sucedidos, diz Chagnon, são geralmente bastante controlados e calculistas; eles lutam porque é assim que um macho progride na sociedade deles. Além disso, muitos homens ianomâmi confessaram a Chagnon que detestavam a guerra e desejavam que ela pudesse ser abolida de sua cultura — e, na verdade, as taxas de violência caíram drasticamente nas últimas décadas, à medida que as aldeias ianomâmi passaram a aceitar as leis e os costumes do mundo exterior.

Natureza não humana

Na verdade, o padrão de guerra ora sim, ora não leva muitos pesquisadores a rejeitar a noção de que a guerra é uma conseqüência inevitável da natureza humana. “Se a guerra fosse profundamente arraigada em nossa biologia, então existiria o tempo todo”, argumenta o antropólogo Jonathan Haas do Museu de Campo de Chicago. “Só que simplesmente não é assim.” A guerra, acrescenta Haas, com certeza não é inata no mesmo sentido que a linguagem, que foi exibida por todas as sociedades humanas conhecidas em todos os tempos.

Os antropólogos Carol e Melvin Ember também afirmam que as teorias biológicas não podem explicar os padrões da guerra das sociedades pré ou pós-Estado. Os Ember supervisionam os Arquivos da Área de Relações Humanas da Universidade de Yale, banco de dados de informações sobre cerca de 360 culturas passadas e presentes. Embora mais de 90% dessas sociedades tenham entrado em guerra no mínimo uma vez, algumas sociedades lutam constantemente e outras, raramente. Os Ember encontraram correlações entre taxas de guerra e fatores ambientais, especialmente secas, inundações e outros desastres naturais que provocam temores de escassez.

A causa básica da guerra, na opinião do arqueólogo de Harvard Steven LeBlanc, é a luta malthusiana por alimentos e outros recursos. “Desde o início dos tempos”, diz ele, “os homens não têm sido capazes de viver em equilíbrio ecológico. Não importa em que lugar da Terra vivamos, no fim excedemos o meio ambiente. Isso sempre levou à competição como meio de sobrevivência, e a guerra tem sido a consequência inevitável de nossas propensões ecológico-demográficas.” Duas chaves para evitar conflito no futuro, acredita ele, são controlar o crescimento populacional e encontrar alternativas baratas para os combustíveis fósseis.

Estudos de primatas não humanos também revelaram a importância dos fatores ambientais e culturais. Frans de Waal, professor de comportamento dos primatas da Universidade Emory, mostrou que os macacos resos, que em geral parecem extremamente agressivos, são muito menos beligerantes quando criados por macacos de rabo curto que têm modos moderados. De Waal também reduziu os conflitos entre macacos pequenos e grandes aumentando sua interdependência — forçando-os a cooperar para obter alimentos, por exemplo — e garantindo acesso igual à comida.

Ao aplicar essas lições aos homens, de Waal vê promessas em alianças, como a União Européia, que promovem comércio e viagens e, consequentemente, interdependência. “Fomentem-se os laços econômicos, e o motivo para a guerra, que normalmente é a luta por recursos, provavelmente se dissipará”, diz ele.

Talvez a estatística mais auspiciosa e surpreendente a emergir das pesquisas modernas sobre a guerra seja a que mostra a humanidade como um todo menos belicosa hoje do que costumava ser. A Primeira e a Segunda Grande Guerra e todos os horríveis conflitos do século 20 resultaram na morte de menos de 3% da população global. Essa ordem de grandeza é menor que a taxa de morte violenta dos machos na sociedade primitiva média, cujas armas consistiam apenas em clavas e lanças, em vez de metralhadoras e bombas.

Se a guerra for definida como um conflito armado que conduz a mil mortes por ano, no mínimo, houve relativamente poucas guerras internacionais no meio século passado, e as guerras civis declinaram nitidamente desde seu pico no início dos anos 1990.

A maioria dos conflitos atuais consiste em guerrilhas, insurreições e terrorismo — ou o que o cientista político John Mueller da Universidade do Estado de Ohio chama os “restos de guerra”. Mueller rejeita as explicações biológicas para a tendência, uma vez que “os níveis de testosterona parecem estar tão altos como sempre estiveram”. Notando que as democracias raramente, senão nunca, travam guerra umas contra as outras, Mueller atribui o declínio da guerra desde a Segunda Guerra Mundial, pelo menos em parte, ao grande aumento do número de democracias no mundo inteiro.

Schoolgirl sitting at desk in classroom (Corbis)
Acredita-se que a educação de meninas leve à estabilidade populacional e a menos distúrbios sociais (© Corbis)

Mais civilização

O psicólogo Steven Pinker, da Universidade de Harvard, identifica diversos outros motivos possíveis para o declínio recente da guerra e de outras formas de violência. Primeiro, a criação de Estados estáveis com sistemas legais e forças policiais eficazes eliminou a anarquia hobbesiana de todos contra todos. Segundo, a expectativa de vida cada vez maior diminui nossa vontade de arriscar a vida ao participar da violência. Terceiro, como resultado da globalização e das comunicações, tornamo-nos cada vez mais interdependentes de outros fora de nossas tribos imediatas e temos maior empatia por eles. Embora a humanidade possa “facilmente reincidir em guerra”, conclui Pinker, “as forças da modernidade estão deixando as coisas cada vez melhores”.

Em resumo, muitas linhas de pesquisa contradizem o mito de que a guerra é uma constante da condição humana. Esses estudos sugerem também que — contrariamente ao mito do selvagem pacífico e nobre— a civilização não criou o problema da guerra; ela nos ajuda a resolvê-lo. Precisamos de mais civilização, não menos, se quisermos erradicar a guerra.

A civilização nos deu instituições legais que resolvem disputas ao estabelecer leis e acordos de negociação e fazer com que sejam cumpridos. Essas instituições, que variam de tribunais locais às Nações Unidas, reduziram consideravelmente o risco de violência dentro das nações e entre elas. Obviamente, nossas instituições estão longe da perfeição. As nações do mundo inteiro ainda conservam arsenais enormes, incluindo armas de destruição em massa, e conflitos armados ainda devastam muitas regiões. Assim, o que devemos fazer para promover a paz, além das propostas mencionadas acima?

O antropólogo Melvin Konner da Universidade Emory propõe a educação feminina como outro fator fundamental para a redução dos conflitos. Muitos estudos, observa ele, demonstraram que um aumento da educação das mulheres leva à diminuição das taxas de natalidade. O resultado é uma população estabilizada, que reduz a demanda por serviços governamentais e médicos e o esgotamento de recursos naturais e, com isso, a probabilidade de distúrbios sociais.

Uma taxa de natalidade menor também reduz o que alguns demógrafos chamam “os ramos cegos” — homens jovens solteiros e desempregados associados a taxas mais elevadas de conflitos violentos dentro das nações e entre elas. “A educação das meninas é, de longe, o melhor investimento que se pode fazer em um país em desenvolvimento”, diz Konner.

Aceitando a paz

Obviamente, acabar com a guerra não será fácil. A guerra, parece justo dizê-lo, é superdeterminada; ou seja, pode surgir a partir de muitas causas diferentes. A paz, se for para ser permanente, também deve ser superdeterminada.

Os cientistas podem ajudar a promover a paz de dois modos: primeiro, rejeitando publicamente a noção de que a guerra é inevitável; e, segundo, realizando pesquisas mais intensivas sobre as causas da guerra e da paz. A meta a curto prazo dessas pesquisas seria encontrar maneiras de reduzir conflitos no mundo atual, onde quer que ocorram. A meta a longo prazo seria identificar maneiras pelas quais a humanidade consiga obter o desarmamento permanente: a eliminação dos exércitos, das armas e da indústria bélica.

O desarmamento global parece agora uma possibilidade remota. Podemos, porém, aceitar de fato exércitos e armamentos, inclusive armas de destruição em massa, como aspetos permanentes da civilização? Há muito pouco tempo — no fim dos anos 1980 —a guerra nuclear global ainda parecia uma possibilidade clara. Então, por incrível que pareça, a União Soviética se dissolveu e a Guerra Fria acabou pacificamente. O apartheid também terminou na África do Sul sem violência significativa, e os direitos humanos avançaram no mundo inteiro. Se a capacidade para a guerra está em nossos genes, como muitos parecem temer nos nossos dias, também o está a capacidade — e o desejo — para a paz.

Nonviolent Paths to Social Change

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.