Direcionando o Poder do ProtestoClay Shirky
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Em 27 de março de 2006, uma segunda-feira, alunos do ensino médio de Los Angeles, Califórnia, surpreenderam professores e diretores realizando uma marcha de protesto contra o HR4437, projeto de lei a ser votado pelo Congresso americano que propunha sanções severas contra imigrantes ilegais. No entanto, essa não foi uma passeata comum, pois dezenas de milhares de estudantes participaram, vindos de escolas da cidade inteira. Os alunos participantes da marcha, em grande parte hispânicos, haviam se inspirado a agir devido a um protesto realizado apenas dois dias antes por adultos de sua comunidade. Tantos alunos deixaram suas escolas em direção à Prefeitura que o trânsito ficou parado enquanto caminhavam, gerando uma demonstração pública e bastante visível da causa. O protesto tinha vários aspectos notáveis, começando pelo tamanho: dezenas de milhares de pessoas, todas realizando uma ação política coordenada. A coordenação de um evento assim em diversos locais geográficos ao mesmo tempo é difícil. Fazê-lo com alunos do ensino médio, quando a maior parte deles ainda é muito jovem para votar, é mais difícil. E envolver imigrantes, que podem nunca conseguir votar, é ainda mais difícil. Conseguir realizar essa ação sem o conhecimento da direção da escola é simplesmente espantoso — manter um segredo entre 30 mil pessoas não pode ser considerado trivial. E fazer tudo isso em 48 horas deveria ter sido impossível, na verdade, teria sido impossível um ano antes. O que fez com que o protesto enorme, rápido e secreto acontecesse foi a adoção de novas ferramentas de comunicação, em especial o MySpace (site interativo de relacionamentos) e torpedos SMS (mensagens de texto enviadas por telefone). Armados com essas ferramentas, os estudantes conseguiram se organizar uns com os outros, não apenas em pares, mas em grupos. Quase tão fundamental foi o fato de as mensagens trocadas serem enviadas às pessoas que importavam — os outros alunos — sem chegar à direção da escola. Possibilitar o protesto estudantil, no entanto, não era o mesmo que fazê-lo acontecer. O que fez com que acontecesse foi um verdadeiro sentimento político: os estudantes tinham uma mensagem a expressar, juntos e em público. O MySpace e os torpedos ampliaram e expandiram essa mensagem ao dar aos “mensageiros” uma capacidade que não tinham antes, mas a mensagem em si, uma demanda por inclusão política na criação da política de imigração, independia dessas ferramentas. Apesar de uma utopia inicial sobre as novas ferramentas de comunicação ter sugerido que estávamos andando em direção a algum tipo de paraíso pós-hierárquico, não é isso que está acontecendo agora e não é o que irá acontecer. Nenhuma das vantagens absolutas da mídia profissional e em larga escala desapareceu. Ao contrário, aconteceu que a maior parte das vantagens relativas dessas instituições desapareceu — quer dizer, relativas quanto à mídia controlada diretamente pelos cidadãos. A história aqui é a nova habilidade de grupos não coordenados alcançarem os tipos de objetivos que esses grupos sempre tiveram em comum. Os seres humanos são criaturas sociais, não ocasionalmente ou por acidente, mas sempre, e a sociedade não é apenas o produto de seus membros individuais; é também o produto dos grupos que a constituem. Quando se aprimora a capacidade de comunicação de um grupo com outro, as coisas que eles podem alcançar juntos mudam. Falar é publicar Você pode ver essas mudanças na mudança do relacionamento entre os cidadãos e a mídia: o velho ditado que diz que a liberdade de imprensa existe apenas para quem é dono dela aponta para a importância da internet e dos telefones celulares. No reino digital, falar é o mesmo que publicar, e publicar on-line é abrir as possibilidades de conexão com outros. Com a chegada de um meio no qual a comunicação interpessoal, a difusão pública e a coordenação social se misturam, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de associação agora também fazem o mesmo. Com essa mistura de elementos conversacionais, de difusão e sociais em um só meio, entramos em um mundo onde qualquer parte da mídia digital é uma comunidade latente: as pessoas interessadas em qualquer tipo de escrita, foto ou vídeo podem ter interesse em conversar entre si também. Conseguir sincronizar grupos através das mídias sociais é acrescentar uma nova característica às mídias tradicionais; está se tornando não apenas uma fonte de informação, mas um local de coordenação. No caso da marcha de Los Angeles, o MySpace forneceu aos alunos um espaço para publicarem informações sobre o HR4437 (uma função de difusão), para conversarem uns com os outros diretamente sobre o projeto de lei (uma função comunicativa) e para proporem um curso de ação em comum (uma função de coordenação), tudo na mesma arena. Em termos militares, as mídias digitais podem criar uma “consciência compartilhada”, a percepção em um grupo de que não apenas todos entendem o que está acontecendo, mas também que o entendimento é similar entre todos e, o principal, que cada membro entende isso também. A consciência compartilhada é um precursor útil à ação coordenada, e a capacidade de criar uma consciência compartilhada melhora com as mídias em tempo real e com as mídias móveis. Um aplicativo recente que aumenta a consciência compartilhada usando ao mesmo tempo mensagens rápidas e móveis é o Twitter, serviço que difunde mensagens curtas a partir de um telefone ou computador pessoal para todos os seus amigos que tenham assinado sua “alimentação” (feed) do Twitter. Apesar do Twitter poder ser usado para qualquer tipo de mensagem curta, sua proposta é usá-lo para responder a pergunta “O que você está fazendo agora?” Como resultado, grande parte do conteúdo no Twitter é fútil. Em uma tarde de uma quinta-feira qualquer, essa é uma amostra aleatória do que se pode encontrar no Twitter:
PaulDizmang: Mudando utensílios de um imóvel alugado para outro. radiopalmwine: King Sunny Adé - Dance, Dance, Dance Lisanae: estou tendo um péssimo dia. Patorama: É aparentemente impossível comprar um pincel preto da Faber-Castell on-line. Mas posso comprar um pacote com 10. Acho que terei alguns extras. Muitas das postagens públicas têm esse tipo de qualidade — dançando ao som de King Sunny Adé, transportando utensílios, dias ruins de um modo geral — em que o conteúdo disponível ao público dificilmente interessa à maioria dos usuários. Mas só porque grande parte do conteúdo é banal, não significa que todo ele o seja, como nesse feed do Twitter enviado do Cairo, em 2007 (com a hora das mensagens entre parênteses): Alaa: Indo para promotor de doky juiz murad acusou manal e a mim de difamação (10h11, 4 de abril) Alaa: Esperando decisão dos promotores podemos até passar a noite sob custódia (13h57, 4 de abril) Alaa: Estamos indo para a delegacia de polícia de dokky (15h31, 4 de abril) Alaa: Na delegacia de polícia nenhum oficial superior presente então estamos no limbo (16h29, 4 de abril) Alaa: Não seremos soltos pelos seguranças de giza teremos que voltar para delegacia de dokki (19h59, 4 de abril) Alaa: Voltando para a delegacia (22h25, 4 de abril) Alaa: Estamos livres (23h22, 4 de abril) Alaa, ou Alaa Abd El Fattah, é um programador egípcio, ativista pró-democracia e blogueiro que vive no Cairo. Aqui, ele documenta sua prisão com sua esposa, Manal, em El Dokky, bairro do Cairo, em episódio que terminou 12 horas depois com a libertação do casal. A prisão foi ordenada por Abdel Fatah Murad, juiz egípcio que tentava bloquear dezenas de sites no Egito afirmando que os sites “insultam o Alcorão, Deus, o presidente e o país”. Quando os blogueiros egípcios pró-democracia iniciaram a cobertura da censura proposta, Murad acrescentou seus sites à lista que ele estava tentando proibir. Virando o jogo O que um serviço como o Twitter, com uma face pública tão banal, oferece a El Fattah e outros ativistas egípcios? El Fattah descreve: “Nós o usamos para manter uma rede restrita de ativistas informada sobre ações de segurança em protestos. Os ativistas então usam o Twitter para coordenar uma reação.” Como os ativistas pró-democracia são observados tão cuidadosamente, o Twitter permite uma combinação de coordenação de grupo e em tempo real que os ajuda a virar o jogo a seu favor. Em um dos usos recentes do Twitter, El Fattah e cerca de uma dúzia de seus colegas coordenaram movimentos para cercar um carro no qual seu amigo Malek estava sendo detido pela polícia, para evitar que o carro fosse rebocado e ele levado. Sabendo que estavam sendo monitorados, eles enviaram mensagens sugerindo que havia muitos outros deles a caminho. A polícia mandou reforços, cercando e imobilizando o carro. Isso manteve Malek no lugar até que a imprensa e membros do Parlamento chegassem. A ameaça de publicidade negativa levou à libertação de Malek, resultado difícil de coordenar sem o Twitter. O poder de coordenar grupos dispersos continuará a crescer: novas ferramentas sociais ainda estão sendo inventadas. Por mais inferior que pareça ser, qualquer ferramenta que faça crescer a consciência compartilhada ou a coordenação de grupos pode ser usada a serviço de meios políticos, pois a liberdade de agir em grupos é inerentemente política. Da China à Nigéria, o que o uso social e em tempo real cada vez maior de mensagens de texto nos mostra é que adotamos essas ferramentas que amplificam nossas capacidades e modificamos nossas ferramentas para melhorar essa amplificação. As ferramentas sociais não estão criando ações coletivas; elas estão meramente removendo obstáculos para isso. Esses obstáculos têm sido tão significativos e difundidos que, conforme são removidos, o mundo está se tornando um lugar diferente. É por isso que muitas das mudanças significativas não são baseadas nas novidades tecnológicas mais extravagantes, mas nas ferramentas simples e fáceis de usar como e-mail, telefones celulares e sites. A maior parte das pessoas tem acesso a essas ferramentas e, mais importante, se sente confortável para usá-las diariamente. A revolução não acontece quando a sociedade adota novas tecnologias; ela acontece quando a sociedade adota novos comportamentos.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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