A Campanha Eletrônica:
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A eleição presidencial de 2008 nos EUA mostrou o grande poder das redes de relacionamento on-line de produzir mudanças. Em 2007 e 2008, a campanha política de Barack Obama fez amplo uso da web, criando interfaces simples para os partidários se organizarem, doarem dinheiro, despertarem a consciência sobre assuntos específicos como a reforma da saúde e entrarem em contato com os eleitores. Isso foi feito em tal escala que não somente ultrapassou as realizações em eleições anteriores, mas também as operações na internet dos oponentes de Obama — o senador John McCain nas eleições gerais e, antes, a senadora Hillary Rodham Clinton nas eleições primárias do Partido Democrata. A estratégia da campanha on-line de Obama representou uma evolução natural de suas raízes como organizador comunitário em Chicago. E se beneficiou do novo grande interesse em redes de relacionamento on-line em geral. Nos últimos anos, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo reuniram-se em sites de redes de relacionamento da internet como MySpace, Facebook, hi5 e Orkut, por considerar que propiciam meios poderosos e simples de conectar amigos, organizar grupos, compartilhar hobbies e unir-se na defesa de causas. A campanha de Obama marcou sua presença em alguns desses sites, principalmente o Facebook, com uma rede enorme de seus partidários. Mas, o mais importante é que a campanha criou seu próprio site de relacionamento social, chamado my.barackobama.com ou simplesmente MyBO. Ele foi feito sob medida por uma empresa particular chamada Blue State Digital, de Washington, DC. Os resultados foram impressionantes. A campanha de Obama arrecadou US$ 500 milhões em doações on-line de mais de 3 milhões de pessoas. E graças ao MyBO — além de outras estratégias, inclusive pedindo às pessoas em comícios para enviar mensagens de texto com seus endereços de e-mail para a campanha — Obama desenvolveu um enorme exército de voluntários on-line. Quando a campanha terminou, ele tinha uma lista de 13 milhões de partidários e seus endereços de e-mail, uma realização espetacular.
Abundância de opções A marca registrada do MyBO foi a simplicidade e o foco constante em estimular os visitantes a realizar algum tipo de ação para ajudar na campanha. Ao visitar o MyBO, encontrava-se grande variedade de opções. O eleitor podia clicar em um botão para obter um formulário para doação de dinheiro. Ou podia clicar em outro botão para organizar uma festa para Obama em sua casa e baixar literatura de campanha para distribuir a seus amigos e vizinhos na festa. Se não quisesse patrocinar esse tipo de evento, o eleitor podia descobrir um outro perto de sua casa mediante pesquisa no aplicativo Google Maps mostrando ícones de festas disponíveis. Ao clicar no ícone, obtinha o endereço e informações para contato. Ou podia criar sua própria iniciativa de captação de recursos e envolver seus amigos e conhecidos para alcançar uma meta definida por ele. No MyBO, iniciativas de captação de recursos organizadas diretamente pelos partidários arrecadaram US$ 30 milhões de 70 mil pessoas. É digno de nota que essa forma de captação de recursos não exigiu praticamente nenhum esforço da equipe de campanha de Obama, deixando-as livres para realizar outras tarefas. Uma vez informado o endereço de e-mail, o eleitor recebia mensagens da campanha — às vezes assinadas pela esposa de Obama, Michelle, ou até do ex-vice-presidente AL Gore, que perdeu a eleição presidencial de 2000 para George W. Bush, mas veio a ganhar um Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho sobre aquecimento global. Essas mensagens podiam conter pedidos para as pessoas realizarem funções úteis para a campanha naquele momento, talvez telefonando para eleitores indecisos em estados americanos importantes como Ohio e Pensilvânia, onde as eleições estavam indefinidas. A campanha também arregimentou pessoas pela geografia, por exemplo, fornecendo aos membros do MyBO listas de pessoas que moravam perto e não estavam registradas para votar e instruções para entrar em contato e registrá-las. E também pedia a veteranos do serviço militar, simpatizantes de Obama, para se apresentarem como voluntários para fazer chamadas telefônicas. Para esses voluntários foram criadas listas telefônicas especiais, disponíveis na internet, de outros veteranos a serem contatados em estados com disputas eleitorais acirradas. Cativar veteranos tornou-se especialmente importante, pois Obama, que não serviu nas Forças Armadas, enfrentava John McCain, um veterano condecorado da Guerra do Vietnã e ex-prisioneiro de guerra. Bancos de dados multifuncionais O acesso a grandes bancos de dados de eleitores americanos tornou essas ferramentas da internet ainda mais poderosas. Tanto o Partido Democrata quanto o Republicano há muito gastam quantias consideráveis para criar listas precisas de nomes de todos os eleitores dos Estados Unidos, junto com qualquer dado coletado sobre o eleitor (principalmente durante entrevistas por telefone realizadas por vários voluntários de campanha ao longo dos anos). Essas informações incluem qual partido político a pessoa prefere, se é partidário fervoroso ou apenas simpatizante e quais assuntos lhe interessam particularmente.
Cada partido mantém seus próprios bancos de dados, e os republicanos são, por tradição, mais disciplinados e organizados na sua manutenção em âmbito nacional. Mas, entre 2006 e 2008, o banco de dados dos democratas foi aperfeiçoado por uma empresa chamada Voter Activation Network (VAN) de Somerville, Massachusetts. A VAN, contratada pelo Comitê Nacional Democrata, reuniu um banco de dados dos 50 estados americanos e criou maneiras simples para os partidários acessarem os dados de formas limitadas e controladas por meio da internet. O MyBO e os sites de outros candidatos democratas em outras disputas fizeram links de grande eficiência com esse banco de dados recém-aperfeiçoado. Em consequência, tão logo Barack Obama se tornou o candidato indicado do Partido Democrata, qualquer voluntário comum — tanto aqueles com acesso pelo MyBO, quanto por meio de sites de outros candidatos democratas ou do próprio site do Comitê Nacional Democrata — podia clicar em um botão para fazer o download de pequenos lotes de nomes e números de telefone de eleitores relacionados no banco de dados da VAN. Juntamente com essa lista vinha um roteiro de consulta aos eleitores sobre suas opiniões e um formulário on-line para registrar as respostas. Milhões desses telefonemas foram feitos por partidários comuns durante a campanha das primárias. Além disso, as ferramentas do MyBO permitiam que os voluntários baixassem formulários de registro de eleitores — personalizados para cada estado americano, conforme o caso — para pessoas incluídas no banco de dados e não registradas, mas prováveis simpatizantes de Obama, com base em informações demográficas. A utilização tão eficiente e em tal proporção dos bancos de dados pela campanha de Obama durante o processo dinâmico das primárias presidenciais ajudou-o a obter a indicação do Partido Democrata. Esses contatos com eleitores — possibilitados pelas ferramentas da internet — foram também realizados em grande escala na eleição geral de novembro, quando Barack Obama enfrentou John McCain. Mas a estratégia mudou conforme a necessidade. Por exemplo, somente nos quatro dias finais da campanha, os voluntários do MyBO telefonaram para 3 milhões de eleitores, principalmente para garantir que as pessoas já registradas para votar simpatizantes de Obama realmente saíssem de casa e votassem. Jascha Franklin-Hodge, co-fundador e diretor de Tecnologia da Blue State Digital, diz que a magnitude de todas essas operações ultrapassou tudo o que foi feito em qualquer campanha anterior. A campanha eletrônica de Obama incluiu não somente o site MyBO, mas também a forte alavancagem de outras novas ferramentas de mídia, desde o envio de mensagens de texto até vídeos no YouTube. As pessoas gastaram 14 milhões de horas assistindo a vídeos relacionados com a campanha de Obama no YouTube, totalizando 50 milhões de visualizações. E Obama tinha mais de 3,4 milhões de partidários no Facebook, seis vezes o número de McCain. Estratégia continuada Como o presidente Barack Obama usará todos esses recursos agora que tomou posse? Graças a todas as ligações feitas aos eleitores pelos voluntários da internet, o Partido Democrata hoje detém dez vezes mais dados sobre os eleitores americanos do que há quatro anos. Essas informações podem, por sua vez, ser usadas não somente em futuras eleições para melhorar a organização dos partidários em torno de assuntos específicos para produzir mudanças, mas também para, potencialmente, ajudar a envolver americanos comuns na luta por novas políticas governamentais. Contudo, não está claro até que ponto o Partido Democrata e as organizações de campanha de Obama fora da Casa Branca vão incrementar o banco de dados de eleitores ou a lista de Obama com e-mails de 13 milhões de pessoas para ajudar a cumprir sua agenda. No dia seguinte à vitória de Obama nas eleições, sua equipe de transição lançou um novo site: http//www.change.gov. Nesse site, sua equipe de transição fez consultas públicas sobre políticas públicas e transmitiu vídeos de seus indicados para cargos do secretariado, com respostas aos comentários no YouTube. A equipe de transição também publicou os nomes e declarações de posicionamento dos grupos que estavam fazendo lobby e lançou um recurso chamado “Open for Questions” (Aberto a Perguntas) pelo qual os visitantes podiam escrever e votar em assuntos do governo Obama: em um semana de dezembro, cerca de 20 mil pessoas enviaram 10 mil perguntas e um milhão de votos sobre elas. Mas, no dia da posse (20 de janeiro), o governo fechou o site www.change.gov e lançou uma nova versão do site presidencial, o www.whitehouse.gov. Até o fim de janeiro, esse novo site tinha poucos recursos interativos, mas começou a postar os textos dos atos do Executivo e incluiu a promessa de que qualquer legislação não emergencial seria publicada no site durante cinco dias, juntamente com um recurso para o público colocar comentários, antes que o presidente Obama a transformasse em lei. Embora ainda não se saiba quais recursos adicionais o governo poderá acrescentar, a campanha de Obama prometeu usar a internet para disponibilizar arquivos de busca fácil sobre gastos e outras atividades do governo e para transmitir mais encontros públicos pela web. E Obama já instituiu o pronunciamento por vídeo no YouTube, além do tradicional programa semanal de rádio utilizado há décadas pela Casa Branca. É improvável que qualquer campanha política futura — ou outra campanha ampla de mudança social ou de outras causas — venha a ignorar as lições de 2008. Prevê-se que os republicanos responderão energicamente nas eleições parlamentares de 2010 e nas eleições parlamentares e presidenciais de 2012. A vitória de Barack Obama mostrou que a organização pela internet pode agrupar pessoas comuns em uma força que rivaliza com as instituições tradicionais e os centros de poder. De fato, essa lição está sendo observada no mundo todo. A Blue State Digital abriu um escritório em Londres para ampliar suas operações, e a VAN tem respondido a muitas chamadas do exterior. Ações semelhantes são esperadas por parte de sites e fornecedores de banco de dados com tendências republicanas. É evidente que a política jamais será a mesma. Em 1992, um chefe de campanha costumava lembrar o candidato presidencial Bill Clinton sobre o tema mais importante da campanha: “É a economia, idiota.” Agora, para citar Joe Trippi, um antigo consultor das campanhas dos democratas: “É a rede, idiota.”
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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