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Tradições Vivas dos Indígenas Americanos

Gabrielle Tayac

Indigenous People Today

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Povos Indígenas no Século 21
Tradições Vivas dos Indígenas Americanos
Meu Lugar, Minha Identidade
Ideias de Governança dos Indígenas Americanos e a Constituição dos EUA
O Vaivém da Política Indigenista
Galeria: As Pessoas e as Artes
Com o Lema da Verdade, Jornal Indígena Vence Batalha
Duas Línguas na Mente, mas Apenas Uma no Coração
Línguas Ameaçadas de Extinção
O Universo dos Espíritos
Ceremônia
Conversa Global: Entrevista com José Barreiro
A CGNet e o Jornalismo Cidadão na Índia
Rumo a uma Rede Indígena Mundial
Recursos Adicionais
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Beaded cloth (Courtesy National Museum of the American Indian)
Tapete de contas dos sioux de Sisseton, de 1877 aproximadamente. Contas de vidro, tecido de lã, algodão e fio de lã (Cortesia: Museu Nacional do Índio Americano, Instituto Smithsoaniano)

A historiadora Gabrielle Tayac é curadora do Museu Nacional do Índio Americano (NMAI) em Washington, D.C. e descendente da tribo piscataway, que habitava a área da Baía de Chesapeake. Seu avô, o cacique Turkey Tayac (1895-1978), foi um curandeiro tradicional. Aqui, ela fala sobre a importância de um retrato preciso da história e da cultura dos povos indígenas.

“A Terra e eu somos um só espírito”.
Cacique Joseph

O cacique Joseph (1840-1904) do grupo nimipu dos nez perces viveu grande parte de sua vida em meio a invasões de colonizadores brancos atraídos pela Corrida do Ouro no oeste dos Estados Unidos. O governo americano prometeu reservar terra para os nez perces, incluindo sua terra natal, atualmente os estados de Oregon, Washington e Idaho. Entretanto, em 1863 a terra havia sido reduzida a um décimo do seu tamanho original, perdendo 2,4 milhões de hectares. O cacique Joseph relutou, mas concordou em mudar para a reserva. Porém, uma reação violenta dos jovens guerreiros levou o Exército dos EUA a perseguir os nez perces. Apesar de sua brilhante estratégia militar, o cacique Joseph foi forçado a se render em 1877, devido ao enfraquecimento de seu povo pela fome, pelo frio e pela doença. Ele pronunciou as palavras citadas acima durante sua rendição. Nunca mais pôde retornar ao vale Wallowa, sua amada terra natal. Os nimipus não apenas sobreviveram como também participam de uma economia moderna por meio da pesca, da extração de madeira, da educação e do comércio. Um grupo nosso que trabalha no Museu Nacional do Índio Americano (NMAI) em Washington, D.C. acreditava que a história do cacique Joseph e seu sentimento com relação à terra deveriam estar logo na entrada do museu, bem em frente para os visitantes que entram no nosso prédio.

Quatro ideias principais ajudam a entender o passado e a situação atual dos povos indígenas. Primeira, eles possuem culturas diferentes que se unem no conceito de que os seres humanos devem ser os administradores de um mundo vivo. Segunda, as pessoas são definidas por suas comunidades tribais e são responsáveis por elas. Terceira, o trauma dos encontros destrutivos com os colonizadores europeus moldaram o que somos atualmente. Finalmente, as expressões criativas passadas e presentes dos povos indígenas continuam a contribuir para a cultura e a ciência globais.

A América indígena, para ser entendida como o mundo descrito pelo curador do NMAI, Paul Chaat Smith (comanche), é “antiga e moderna e está em constante mudança”.

Cerca de 4 milhões de pessoas identificam-se como índio americano ou seu descendente. Os índios americanos podem ser encontrados em todo o país e 70% deles não vivem nas reservas, que são as terras designadas para as tribos pelos tratados. Muitos são casados com pessoas descendentes de outras etnias e raças, a maior taxa de miscigenação entre todos os grupos étnicos dos Estados Unidos. Apesar dos recentes ganhos econômicos, em especial por meio de jogos de cassino permitidos devido à soberania jurisdicional das tribos, os índios americanos, mais do que qualquer outro setor da população americana, ainda sofrem de saúde frágil, alta taxa de pobreza e baixo grau de instrução.

As tribos são muito diferentes, cada uma com sua própria cultura, língua, história e governo tradicionais. A maioria dos povos nativos busca o equilíbrio entre a manutenção das culturas ancestrais e a participação em um cenário cada vez mais global.

Durante muitos anos, devido à discriminação e aos mal-entendidos na sociedade em geral, os indígenas americanos não foram valorizados, e nossas culturas pareciam estar morrendo. Porém nos últimos 30 anos, graças aos esforços coletivos de pessoas de todas as origens, uma nova vida se acerca das tribos em uma era de crescente liberdade de expressão. Nosso museu, inaugurado em 2004, é um resultado desse esforço. Criado por uma lei do Congresso em 1989, o NMAI trouxe uma coleção privada importante, de mais de 800 mil objetos, para a administração pública sob a responsabilidade do Instituto Smithsoniano. Talvez ainda mais importante, o NMAI permite que o povo indígena fale por si próprio na interpretação de suas histórias, filosofias e identidades para um público global.

Close-up of Gabrielle Tayac (Courtesy National Museum of the American Indian)
(Cortesia: Museu Nacional do Índio Americano, Instituto Smithsoaniano)

O NMAI representa uma mudança profunda na valorização das culturas indígenas. Um papel fundamental desempenhado pelo museu é a instrução do público sobre os povos indígenas a partir de seu próprio ponto de vista. Embora seja difícil lidar com estereótipos entre adultos, nossa esperança real está em formar a opinião das crianças. As crianças em idade escolar são um público fundamental para a nossa instituição, e nosso departamento de educação trabalha com estudiosos tribais para desenvolver o material certo para uso em salas de aula. Uma vez que muitas pessoas no país não terão a oportunidade de visitar o museu, recursos de internet também estão disponíveis, mostrando uma diversidade de culturas nativas em tópicos das artes e ciências.  Por exemplo, muitas pessoas conhecedoras da cultura americana devem saber que a tradição de Ação de Graças de realizar um jantar especial em novembro baseia-se em uma troca pacífica entre índios americanos e colonizadores puritanos no século 17. No entanto, mesmo nos Estados Unidos, poucas pessoas sabem que a ideia da ação de graças teve origem em uma cerimônia indígena tradicional praticada diariamente para demonstrar gratidão e responsabilidade pela abundância no mundo. Diferentes estações trazem diferentes ações de graças, tais como a “ação de graça do morango”, praticada todo mês de junho pelas tribos do nordeste.

Mundos vivos

“Com beleza eu falo, estou em paz e em harmonia”.
Benção navajo

Ensinamentos profundos de várias culturas indígenas são muitas vezes conhecidos como “instruções originais”, significando que as formas de estar no mundo foram passadas para os humanos por um Criador ou outros seres espirituais. Essas ideias foram transmitidas oralmente, incorporadas em histórias, músicas e danças, uma vez que os índios americanos do norte do México não possuíam sistemas de escrita até que as formas europeias foram adaptadas pelas tribos. Não há uma filosofia indígena — há centenas delas. Viver em equilíbrio com os reinos natural e espiritual, respeitar nosso papel no mundo como seres humanos e aceitar a responsabilidade pela família e pela comunidade são valores culturais compartilhados, destinados a guiar nossos povos no mundo de hoje.

Um exemplo, os navajos, cuja benção é citada acima, se autodenominam dinés ou o povo. Eles vivem em uma reserva que se estende por cerca de 7 milhões de hectares nas terras áridas que abrangem as fronteiras do Arizona, do Novo México e de Utah. Sua população atual de aproximadamente 300 mil pessoas representa a maior tribo dos Estados Unidos. Os dinés são tradicionalmente pastores de ovelhas e tecelões, embora atualmente possam ser encontrados em todas as profissões e em todos os continentes. Um princípio básico da filosofia diné é o hozho, termo que foi simplificado como “beleza” em inglês. Mas hozho é mais complexo do que isso. Exprime valores de plenitude, equilíbrio e restauração. Muitas cerimônias e práticas dos dinés são devotadas a restaurar a harmonia nas pessoas, nas comunidades e no mundo. Então, quando uma pessoa diz, “com beleza eu falo”, ela está exprimindo uma ideia muito mais complexa — a de que os seus pensamentos devem ser restaurativos, holísticos e equilibrados. Com a retomada do controle de seus sistemas educacionais e governamentais durante as últimas décadas, os dinés estão inserindo essa filosofia do que deve guiar suas escolas, seus tribunais e sua economia.

As filosofias indígenas são ricas e variadas. Pessoas de todas as origens estão cada vez mais interessadas em aprender sobre esses antigos sistemas, ainda relevantes. Na maior parte da história americana, infelizmente, as religiões e filosofias indígenas foram no mínimo mal-entendidas e, na pior das hipóteses, declaradas proibidas. Várias nações indígenas estão trabalhando muito agora para recuperar tradições que foram perdidas e preservar as que ainda possuem.

Viver em equilíbrio com os reinos natural e espiritual, respeitar nosso papel no mundo como seres humanos e aceitar a responsabilidade pela família e pela comunidade são valores culturais compartilhados, destinados a guiar nossos povos no mundo de hoje.

Comunidade

“Ser índio não é ser alguma coisa que tem partes; é ser parte de alguma coisa.” — Angela Gonzales, 2007

Os relacionamentos estão no âmago da identidade indígena. O sentido de família é geralmente mais amplo do que o que vemos nos Estados Unidos contemporâneo, no qual a maior parte das famílias é nuclear, composta principalmente de pais e filhos.  Nas culturas indígenas americanas, a família inclui não apenas os parentes consanguíneos como também os relacionamentos de clã ou sociedade. Ser membro de uma tribo é também uma chave para a identidade, que é determinada pelo grau de herança indígena, ou o “quantum de sangue”, aceitável para ser membro da tribo. Ser índio americano não é meramente ser membro de um grupo étnico ou racial mais amplo, é também pertencer à uma comunidade específica que define seus próprios membros. Algumas tribos traçam sua linha de descendência pela mãe, outras pelo pai e outras ainda adotaram as regras estabelecidas pelo governo dos EUA no início do século 20. Cada tribo é única.

Como objeto de políticas raciais discriminatórias, os indígenas americanos e os afroamericanos têm muito em comum. Tanto os nativos americanos como os afroamericanos foram vistos como biológica e culturalmente inferiores por muitos euroamericanos durante séculos. Havia leis proibindo os brancos de se casarem com eles, leis que eram mais rigorosamente aplicadas para os afroamericanos. É interessante notar que tanto os nativos americanos como os africanos compartilhavam estilos de vida indígenas, o que lhes permitia relacionarem-se uns com os outros a partir do primeiro contato. Na história colonial antiga, encontramos um bom número de casamentos entre eles na costa atlântica. Seus esforços de combate à discriminação também eram vinculados. Estimulados pelo movimento pelos direitos civis dos anos 1960, muitos indígenas americanos iniciaram seu próprio movimento social com o propósito de reaver direitos. A identidade indígena americana é talvez um dos tópicos mais comentados entre os próprios índios americanos. As tensões entre as obrigações para com a comunidade tribal e a vida em uma era de globalização em rápida mudança fazem muitas pessoas sentir que estão em constante malabarismo entre “dois mundos”. No entanto, como as políticas e as atitudes sociais sobre o valor das culturas indígenas americanas mudaram, alguns jovens indígenas estão explorando a ideia de que vivem em um único mundo como todas as outras pessoas, com uma identidade tribal que pode se adaptar a qualquer circunstância.

Expressão

“O jeito indígena é uma tradição sábia”.
—John Mohawk, cerca de 1990

O brilho das culturas indígenas é multíplo. Pode-se observar o gênio criativo em antigas inovações agriculturais, na arte contemporânea, nos conceitos de governança pré-contato ou nas tradições de preservação ambiental.  Os povos indígenas têm muito a oferecer ao mundo, mesmo quando trazem sua identidade tribal e realidade contemporânea global para o mundo.

Indigenous People

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.