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Línguas Ameaçadas de Extinção

Akira Y. Yamamoto

Indigenous People Today

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Povos Indígenas no Século 21
Tradições Vivas dos Indígenas Americanos
Meu Lugar, Minha Identidade
Ideias de Governança dos Indígenas Americanos e a Constituição dos EUA
O Vaivém da Política Indigenista
Galeria: As Pessoas e as Artes
Com o Lema da Verdade, Jornal Indígena Vence Batalha
Duas Línguas na Mente, mas Apenas Uma no Coração
Línguas Ameaçadas de Extinção
O Universo dos Espíritos
Ceremônia
Conversa Global: Entrevista com José Barreiro
A CGNet e o Jornalismo Cidadão na Índia
Rumo a uma Rede Indígena Mundial
Recursos Adicionais
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An indigenous tribe member
Membro de tribo indígena segura cópia da constituição brasileira. O reconhecimento legal e a proteção do status dos grupos indígenas e de suas línguas são essenciais para a sobrevivência de suas culturas (© Eraldo Peres/AP Images)

Nascido no Japão, Akira Y. Yamamoto dedicou sua longa carreira a preservar línguas e culturas indígenas ameaçadas. Atualmente professor de antropologia e linguística da Universidade do Kansas, trabalhou com comunidades linguísticas do mundo todo. Também presidiu o Comitê da Sociedade Linguística dos Estados Unidos sobre Línguas Ameaçadas e sua Preservação. Escritor prolífico, escreveu livros sobre as línguas hualapai e kickapoo e sobre o haiku.





Uma avó chamicuro, Natalia Sangama, em 1999 pronunciou estas palavras:

Eu sonho em chamicuro,
mas não posso contar meus sonhos
para nenhuma pessoa,
porque já não há ninguém
que fale chamicuro.
É solitário ser a última.

O chamicuro (ou chamekolo) é uma língua falada em Lagunas, Peru. O atlas da Unesco de línguas ameaçadas de extinção registra apenas oito falantes dessa língua, que está seriamente ameaçada. De acordo com o Ethnologue 2005, as línguas do mundo estão distribuídas da seguinte maneira:

Região Número de línguas % do total
Europa 239 3,5%
Américas 1.002 14,5%
África 2.092 30,3%
Ásia 2.269 32,8%
Oceania 1.310 19,0%
5 regiões 6.912 100%

Existem 347 línguas com mais de um milhão de falantes, mas 95% das línguas faladas no mundo têm muito menos falantes.

Globalmente, as línguas estão desaparecendo

O Atlas das Línguas do Mundo Ameaçadas de Extinção da Unesco (o Atlas daqui em diante) documenta 2.279 línguas no mundo ameaçadas em diferentes graus: 538 correm sério risco, os falantes mais jovens já são idosos e a interação nessa língua é infrequente ou rara. Portanto, devemos supor que essas 538 línguas desaparecerão em poucos anos, quando seus falantes se forem.
As línguas estão desaparecendo porque as pessoas deixam de usar sua língua de herança e, em seu lugar, começam a usar outra, em geral dominante nos âmbitos político, econômico, militar e/ou religioso.
As principais razões para o desaparecimento das línguas, além das catástrofes humanas e naturais, são:

  • A língua de educação formal não é a língua de herança da criança, então ela não a aprende totalmente.

  • Os meios de comunicação, de entretenimento e outros produtos culturais usam, todos, as línguas dominantes.
  • As línguas dominantes têm maior status, enquanto as línguas de herança têm status inferior.

  • A urbanização, a migração e a mobilidade no emprego levam à desintegração das comunidades linguísticas.

  • Os mercados de trabalho exigem conhecimento das línguas dominantes em detrimento das línguas de herança.

  • O multilinguismo não é valorizado, mas o monolinguismo na língua dominante é considerado suficiente e desejável.

  • A língua dominante é desejável para os Estados (uma nação — uma língua) e para os indivíduos, encorajando a concepção de que as crianças devem escolher entre aprender sua língua de herança ou a língua dominante.

As forças externas que afetam a comunidade linguística incluem as políticas governamentais sobre o assunto. Políticas que dão proteção insuficiente aos direitos humanos linguísticos podem forçar a comunidade a abandonar sua língua de herança. Políticas de apoio encorajam a comunidade a manter e promover sua língua. O documento da Unesco Language Vitality and Endangerment [Vitalidade e Riscos Linguísticos] sintetiza as atitudes governamentais e seus efeitos, que variam desde políticas que valorizam a diversidade e fornecem proteção legal a línguas específicas até aquelas que promovem a assimilação passiva, ativa ou forçada da língua dominante.

Esses fatores externos influenciam a opinião dos falantes sobre o valor e o papel de sua língua. Os membros de uma comunidade linguística em geral não são neutros com relação a sua própria língua; conforme o estudo da Unesco: “Eles podem percebê-la como essencial para sua comunidade e identidade e promovê-la; podem usá-la sem promovê-la; podem se envergonhar dela e, portanto, não promovê-la; ou podem vê-la como um problema e evitar usá-la ativamente”.

O que as nações estão fazendo

No mundo inteiro, as comunidades linguísticas indígenas enfrentam o rápido desaparecimento de suas línguas ancestrais. A crise incentivou os esforços para documentá-las e revitalizá-las, tanto junto à população quanto no âmbito governamental. Embora ainda seja cedo para ver uma significativa revitalização e promoção das línguas indígenas, os esforços nesse sentido são cada vez maiores.

Há aproximadamente 600 comunidades de primeiras nações, 50 comunidades inuíte e 80 comunidades métis no Canadá, o que representa cerca de 3% da população total do país. (O termo “primeiras nações” descreve as tribos indígenas canadenses que não são inuíte, isto é, indígenas do Ártico, ou métis, descendentes de indígenas que se casaram com europeus.) O Atlas identifica 86 línguas indígenas ameaçadas, das quais estima-se que apenas três, cree, inuktitut e anishinaabe, permanecerão e prosperarão nas comunidades aborígenes. Em 1998, o governo introduziu a Iniciativa em Prol das Línguas Indígenas, que dá apoio a projetos de preservação das línguas de comunidades indígenas. O Dia Nacional da Língua Indígena foi declarado em 1989. Em 2008, o primeiro-ministro canadense Stephen Harper desculpou-se com as primeiras nações e os povos inuíte pelos abusos nos internatos, para onde as crianças indígenas eram obrigadas a ir após serem retiradas à força de suas famílias.

Na Austrália, o Atlas identifica 102 línguas indígenas ameaçadas. Atualmente a situação é crítica, já que quase todos os falantes que restam são idosos e há pouca ou nenhuma transmissão da língua para as gerações mais jovens. Nova Gales do Sul (NGS) adotou a Política de Educação Indígena, defendendo que as línguas indígenas sejam mantidas, revividas e reivindicadas. Isso é reforçado pela Declaração de Compromisso com os Povos Indígenas do governo de NGS, que estabelece que “A língua é um componente importante do patrimônio cultural e da identidade ... a importância de aprender as línguas indígenas é reconhecida como vital para a experiência dos estudantes aborígenes”. O primeiro-ministro Kevin Rudd desculpou-se formalmente com os aborígenes em 2008 pelas injustiças do passado.

A young man of Walla Walla Indian descen
Jovem descendente dos índios walla walla estuda a língua tribal com ancião da tribo na reserva indígena Umatilla no Oregon. Essa é em geral a melhor forma de salvar uma língua indígena quando ela é falada fluentemente só pela geração mais velha (© Don Ryan/AP Images)

Estima-se que cerca de 24 mil aborígenes do povo aino ainda vivam em Hokkaido, ilha no extremo norte do Japão, embora esse número possa ser maior, se forem incluídos os que se recusam a revelar sua identidade étnica por medo de discriminação. Há possivelmente 40 falantes fluentes e um número crescente de aprendizes do idioma como segunda língua. Em 1869, após a restauração Meiji, começou a assimilação forçada dos aino, quando o governo determinou que a Kaitakushi (a comissão de desenvolvimento) controlasse e desenvolvesse Hokkaido. A promoção da língua japonesa pelo governo resultou em rápido declínio da língua aino. Em junho de 2008, uma resolução sem precedentes foi adotada pela Dieta do Japão (órgão legislativo japonês) reconhecendo os problemas dos ainos e apoiando os esforços dos grupos populares de revitalização da língua e da cultura autóctone.

O México é um país multicultural e multilinguístico, com 144 línguas indígenas ameaçadas segundo as estimativas. Em 2001, os direitos e as comunidades indígenas foram reconhecidos por meio de sua inclusão na constituição mexicana. Em 2003, a Lei Geral para os Direitos Linguísticos dos Povos Indígenas foi publicada como decreto. Organizações populares indígenas estão trabalhando em estreita colaboração com acadêmicos na documentação e revitalização de suas línguas. Um movimento de alfabetização indígena está ganhando ímpeto em várias comunidades linguísticas.

Papua-Nova Guiné (PNG) é a nação com a maior diversidade linguística do mundo, com 823 línguas vivas faladas por uma população de 5,2 milhões de pessoas (Censo PNG 2000). Entre 1870 e os anos 1950, a maioria das escolas de PNG estabeleceu-se nas missões. As línguas vernáculas eram usadas como a língua de instrução. Uma política de exclusividade de uso do idioma inglês foi adotada na década de 1950, porém reformada após a independência de PNG em 1975. Entre 1979 e 1995 os programas pré-escolares de língua vernácula espalharam-se informalmente e em 1995 a política governamental exigiu a inclusão do aprendizado da língua vernácula nos primeiros anos de educação infantil, com uma transição gradual para o uso de inglês como uma das línguas de instrução.

A Venezuela tem 34 línguas indígenas ameaçadas. A constituição atual, adotada em 1999, declara o espanhol e as línguas indígenas como línguas oficiais da Venezuela. Alguns acadêmicos estão trabalhando intensamente com as comunidades indígenas para a documentação e a revitalização de suas línguas.

Sobre as línguas indígenas nos Estados Unidos

Na época do contato inicial com a Europa, estima-se que havia 300 línguas indígenas, correspondentes a mais de 50 famílias linguísticas na América do Norte. A primeira classificação importante das línguas nativas norte-americanas, feita por John Wesley Powell (1891), identificou 58 famílias linguísticas. Conforme o Atlas, antes de 1950 havia 192 línguas nos Estados Unidos; desde então, 53 se extinguiram, restando 139 línguas com um ou mais falantes. Onze estão classificadas como “em perigo”; são línguas que a maior parte das crianças fala, mas cujo uso é restrito a certos âmbitos, como o de casa. Vinte e cinco línguas estão efetivamente ameaçadas, o que significa que as crianças já não aprendem esse idioma como língua materna. Trinta e duas estão seriamente ameaçadas e são faladas principalmente pelas gerações mais velhas. Setenta e uma línguas estão classificadas como “em estado crítico”, porque os falantes mais jovens são idosos.

Akira Y. Yamamoto with Yavapai Indian elder Ted Vaughn
Akira Y. Yamamoto e o ancião índio yavapai Ted Vaughn em Prescott, Arizona, trabalham no dicionário de Vaughn (Cortesia: Ted Vaughn e Akira Yamamoto)

Nos Estados Unidos, todas as línguas indígenas estão ameaçadas. No Alasca, onde havia 21 línguas com um ou mais falantes, o eyak perdeu seu último falante em 2008. O estado com maior diversidade linguística é a Califórnia. Das 58 famílias classificadas por Powell, 22 estavam na Califórnia. As línguas da Califórnia sofreram amplamente e, ainda assim, continuam representando uma grande diversidade de famílias linguísticas. Quase metade das línguas nativas da Califórnia desapareceu desde os anos 1950, restando 30 línguas com um ou mais falantes.

Esforços de preservação dos EUA

Profissionais da língua, líderes comunitários e membros de comunidades indígenas continuam a promover a conscientização sobre o rápido declínio das línguas indígenas entre seus povos, os formuladores de políticas e o público em geral. O líder da nação ojibwe, Floyd Jourdain Jr., disse recentemente à nação ojibwe de Red Lake: “Nossa língua ojibwe está oficialmente em situação de crise. ... Calculamos que restam apenas 300 falantes fluentes da língua na nossa tribo. O número oficial de membros da nossa tribo é 9.397” (The Bemidji Pioneer, 6 de abril de 2009).

A última falante de eyak, Mary Smith, que faleceu em janeiro de 2008, fez este apelo: “É triste ser a última pessoa que fala sua língua. Por favor, volte-se para suas raízes e aprenda sua língua, assim você não vai estar sozinho como eu” (Kodiak Daily Mirror, 20 de agosto de 2006).

Indivíduos e comunidades linguísticas têm dirigido programas para revitalizar seu patrimônio linguístico em casas, comunidades e escolas desde os anos 1970. Como há diversas comunidades, há diferentes programas. Alguns “revivem” línguas não faladas durante décadas, com base em material de documentação; alguns utilizam a transmissão de pessoa a pessoa, especialmente quando os falantes que ainda restam são idosos; alguns reintroduzem a língua para crianças em idade escolar e seus pais; alguns são programas intermediários de línguas nativas; e muitos ensinam a língua como uma matéria acadêmica. Os programas visam alunos de todas as idades.

Líderes indígenas, membros de comunidades linguísticas, educadores e linguístas reuniram-se na Conferência sobre a Questão das Línguas Indígenas Americanas (Nali, na sigla em inglês) de 1988 em Tempe, Arizona. Na conferência, os participantes esboçaram, discutiram e aprovaram resoluções sobre os direitos linguísticos dos indígenas. As resoluções foram enviadas à Comissão Especial do Senado para Assuntos Indígenas. Isso resultou na aprovação da Lei de Línguas Indígenas de 1990, que trata oficialmente dos direitos fundamentais dos indígenas, destacando a singularidade de suas culturas e línguas, bem como a responsabilidade do governo de trabalhar junto aos seus povos para preservá-las. A lei reconhece que as línguas tradicionais são uma parte integral das culturas e identidades indígenas para a transmissão da literatura, história, religião e outros valores necessários à sobrevivência de sua integridade cultural e política. Reconhece que a língua fornece meios diretos e poderosos de promover a comunicação internacional entre pessoas que a compartilham. Desde sua promulgação, as comunidades linguísticas motivadas têm recebido apoio legal e econômico, embora a quantia de apoio financeiro seja limitada. A Sociedade Linguística dos Estados Unidos (LSA) liderou as campanhas para documentação, revitalização e conscientização pública entre os profissionais.

Onde estamos e para onde vamos?

Nos últimos anos, temos visto uma mudança gradual nas atitudes em relação ao bilinguismo: pelo menos uma valorização, se não o incentivo da educação bilíngue. As mudanças mais notáveis são as atitudes dentro das comunidades indígenas. A vergonha de usar a língua de herança transformou-se em orgulho. Os mais jovens estão ativamente interessados na revitalização da língua, e estão surgindo mais programas para o seu ensino.

No âmbito institucional, há cada vez mais esforços ativos para promover o ensino das línguas indígenas.

Organizações como o Instituto de Línguas Indígenas dão assistência a comunidades linguísticas e indivíduos em seus esforços para a documentação e a revitalização, por meio de subsídios e apoio técnico de organizações governamentais, não governamentais e internacionais (veja a lista de organizações em Recursos Adicionais).

Todas as línguas são preciosas. Por meio da língua, os indivíduos formam um grupo. Por meio da língua, os seres humanos criam um mundo no qual a relação com o ambiente é estabelecida, alimentada e mantida. Quando perdemos uma língua, perdemos uma visão do mundo, uma identidade única e um depósito de conhecimento. Perdemos diversidade e direitos humanos.

Um ancião navajo disse:
Se você não abre seus olhos,
não há céu.
Se não escuta,
não há ancestrais.
Se não respira,
não há ar.
Se não caminha,
não há terra.
Se não fala,
não há mundo.

(Parafraseado por Yamamoto das palavras de um ancião navajo, Tribal Wisdom and the Modern World [Sabedoria Tribal e o Mundo Moderno], série Millennium da PBS-TV.)

Indigenous People

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.