O Movimento Inter-ReligiosoGustav Niebuhr
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Há mais de um século, alguns grupos de americanos vêm tentando oferecer ajuda a outros grupos religiosos, na esperança de ampliar o entendimento e a cooperação entre suas comunidades. Gustav Niebuhr é autor de Beyond Tolerance: Searching for Interfaith Understanding in America [Além da Tolerância: Em Busca do Entendimento Inter-Religioso nos Estados Unidos]. Ele é também professor associado de Religião da Universidade de Siracusa, em Nova York. Nos idos de 1991, o rabino de uma sinagoga suburbana nova-iorquina localizada em Long Island colocou a um de seus líderes leigos uma questão que desencadeou uma busca. Haveria algum grupo de muçulmanos nas proximidades que pudesse estar interessado em conhecer os membros da sinagoga para trocarem conhecimentos acerca de suas denominações? Para o rabino Jerome Davidson, líder espiritual do Templo Beth-El no Condado de Nassau, Nova York, a idéia não era completamente incomum. Ele havia sido responsável, durante anos, por convidar não-judeus conhecidos — protestantes, católicos romanos e ocasionalmente muçulmanos americanos — para conferências em sua organização rabínica nacional. Mas nada do tipo havia sido tentado em nível local, afirmou. “Achei importante tentar”. Levou tempo, mas em um ano alguns membros da liderança do Beth-El concordaram em dar início às conversas com seus pares da Sociedade Islâmica de Long Island, uma mesquita a vários quilômetros de distância. Começaram modestamente, trocando informações a respeito de como suas religiões marcavam os grandes momentos da vida (O que vocês fazem quando nasce um bebê? Como celebram um casamento?), e então prosseguiram discutindo princípios teológicos de seus textos sagrados. Depois de terem realmente conhecido uns aos outros, judeus e muçulmanos compararam suas diferenças sobre o Oriente Médio — “a coisa sofisticada”, como Davidson descreveu essas discussões. Quando eu o entrevistei a respeito de uma pesquisa para um livro sobre relações inter-religiosas, o diálogo já existia há 15 anos. “Faz diferença?”, perguntou Faroque Khan, médico que foi presidente da mesquita. Globalmente não, afirmou, mas acrescentou: “Se eu puder ajudar duas comunidades a se entenderem melhor, para mim isso é uma realização”. Se essa história parece incomum, é porque esses encontros raras vezes aparecem nas manchetes, geralmente reservadas para histórias de conflito, não de cooperação, entre grupos religiosos. Mas os encontros de Long Island enquadram-se em um padrão em emergência nos Estados Unidos. Ainda que as diferenças religiosas sejam freqüentemente associadas a tensão e violência nas notícias, a cooperação entre americanos de diferentes tradições vem aumentando. A tendência geralmente assume a forma de encontros regulares entre membros de diferentes congregações, para conversas formais ou trabalho conjunto em projetos sociais, como uma cozinha comunitária ou um programa de alfabetização para crianças. Estudo realizado entre 2000 e 2005 pelo Instituto Hartford de Pesquisa Religiosa em Connecticut informou que entre as congregações pesquisadas — cristãs, judaicas, muçulmanas e outras — os esforços sociais de cooperação haviam aumentado mais de quatro vezes, atingindo 38% de todas as congregações. Uma nação de fé Dois fatos ajudam a explicar essa tendência. Em primeiro lugar, os Estados Unidos são uma nação religiosa, conforme auferido por pesquisas de opinião nacionais. Os americanos valorizam as crenças e práticas religiosas básicas, característica da vida passada e presente da nação. Em junho de 2008, o Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, organização sem fins lucrativos, divulgou uma pesquisa em grande escala com mais de 35 mil pessoas, informando que 92% dos americanos disseram acreditar em Deus e 75% afirmaram rezar ao menos uma vez por semana, mas muitos deles diariamente. O resultado foi compatível com as pesquisas anteriores, que mostraram que mais de 7 em cada 10 americanos consideravam a religião “importante” ou “muito importante” em suas vidas. A crença difundida de que a fé tem valor em si remonta ao passado americano. O presidente George Washington declarou em seu Discurso de Despedida, em 1796, que os cidadãos de uma república não poderiam governar-se e exercer a liberdade plena a menos que fossem dotados de virtude. E a virtude cívica, afirmou Washington, fundamentava-se na religião e na moral. (É digno de nota que ele não tenha especificado qual religião.) Em segundo lugar, a tendência para a cooperação inter-religiosa relaciona-se à mudança demográfica que vem ocorrendo nos Estados Unidos desde as últimas décadas do século 20. Em outubro de 1965, após semanas de debate no Congresso, o presidente Lyndon B. Johnson assinou legislação sancionando uma abrangente reforma das leis de imigração. A nova lei abriu as portas para novos imigrantes da Ásia, da África e da América Latina — influxo que diversificou o cenário religioso da nação. Os novos americanos incluíam não só cristãos e judeus, ambos presentes no continente desde pelo menos o século 17, mas também comunidades de budistas, hindus, jainistas, muçulmanos, siques, zoroastristas e outros.
Na prática, essa imigração significou que cristãos, judeus, muçulmanos, hindus e budistas viram-se lado a lado no mesmo local de trabalho, nos campi das universidades e nos bairros das grandes cidades. Há um número crescente de indivíduos que desejam aproximar ainda mais esses grupos diversos. Ebbo Patel, muçulmano nascido na Índia cuja família imigrou para o Meio Oeste na década de 1970, deseja ajudar a desconstruir estereótipos por meio de conversas e atividades nas quais esses grupos possam misturar-se. Após concluir a faculdade em Illinois e fazer pós-graduação em Oxford, Patel fundou o Núcleo Jovem Inter-Religioso, com sede em Chicago. A organização trabalha principalmente em campi de faculdades, angariando alunos para participar de encontros inter-religiosos, discutir a respeito de crenças importantes e voluntariar-se conjuntamente para projetos, tais como o reparo de moradias para os pobres e a limpeza dos parques da cidade. Patel, hoje diretor executivo, afirma que a idéia não é converter ninguém a uma outra religião, mas reforçar a identidade religiosa dos estudantes ao mesmo tempo que se lhes permite descobrir tradições éticas compartilhadas por suas respectivas religiões. A história do movimento inter-religioso A idéia essencial de estabelecer um diálogo mediador entre as minorias religiosas de Chicago remete a um evento histórico singular ocorrido em 11 de setembro de 1893. Realizou-se uma conferência especial nessa data, quando Chicago sediou a Exposição Mundial. Denominada Parlamento Mundial das Religiões, os protestantes locais aproveitaram o evento para convidar representantes de dez grupos de religiões distintas em todo o mundo para ir a Chicago falar a respeito de suas crenças e práticas religiosas específicas. O evento, que durou cerca de duas semanas, tornou-se sensação nacional como um curso público de religião comparada. Milhares de pessoas compareceram, inclusive repórteres de jornais que transmitiram as sessões para todo o território nacional. O mais importante foi a atenção dada aos palestrantes não-cristãos, dois em especial, um professor hindu chamado Swami Vivekananda e um monge budista, Anagarika Dharmapala. Cada um representava uma religião que os americanos pouco conheciam ou compreendiam. Ambos impressionaram as multidões que os ouviram e os leitores atentos às reportagens dos jornais. Essas duas figuras religiosas do Sul da Ásia exortaram as pessoas ao diálogo e ao respeito entre as religiões do mundo. Vivekananda, que falou no primeiro dia do parlamento, declarou que o sino que tocou na sessão de abertura havia soado “a badalada de morte de todo fanatismo”. É claro que sabemos que a esperança que ele exprimiu permaneceu irrealizada mais de um século depois, mas para alguns suas palavras retêm a capacidade de inspiração. O parlamento foi encerrado sem que houvesse um sucessor para dar continuidade a suas idéias. Um interesse generalizado no diálogo não começou realmente a se desenvolver nem nos Estados Unidos, nem na Grã-Bretanha até meados da década de 1990. Uma celebração do centenário do próprio parlamento atraiu milhares de pessoas para Chicago em 1993, multidão suficiente para incentivar a criação de uma organização permanente para dar continuidade a esses encontros internacionais. O Conselho para um Parlamento das Religiões Mundiais (CPWR) organizou encontros em 1999 na Cidade do Cabo, África do Sul; em 2004, em Barcelona, Espanha; o próximo está agendado para 2009, na Austrália. Para muitos americanos, o trabalho importante no que concerne às relações inter-religiosas ocorre em nível local, como no exemplo de Long Island. Muitas coisas ocorreram na esteira dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 na cidade de Nova York e em Washington, D.C. Embora a destruição causada naquele dia tenha aumentado as tensões entre não-muçulmanos e muçulmanos em alguns lugares, essa resposta esteve longe de ser universal. Imediatamente após os ataques, cristãos e judeus correram para proteger as mesquitas do vandalismo e restabelecer a confiança de seus vizinhos e colegas de trabalho muçulmanos em várias cidades — Seattle, Denver e Washington, D.C., por exemplo. A mais longo prazo, os ataques incitaram as congregações a comprometer-se com o diálogo umas com as outras. Agindo por sua própria conta, vários muçulmanos americanos deram início à visitação aos templos — “dias de visitação às mesquitas” – para ensinar os rudimentos do Islã aos vizinhos curiosos. A tendência descrita aqui certamente não é universal. Muitos americanos religiosos, de todas as crenças, não participam de eventos desse tipo. Alguns são profundamente céticos, até mesmo hostis, no que se refere a esse diálogo, e acreditam que apenas sua própria fé conduz à verdade absoluta. Desse ponto de vista, iniciar um diálogo religioso com outras pessoas seria uma perda de tempo, ou pior. Na Primeira Emenda da Constituição americana, que garante liberdade religiosa a todos os seus cidadãos, essas pessoas têm direito à proteção completa a suas crenças e atitudes. Mas como foi descoberto pelo relatório Pew citado acima, a maioria dos americanos não é tão dogmática no que diz respeito a sua fé. E, como descobri em minha pesquisa, muitos deles realmente querem saber mais sobre as crenças e práticas de seus vizinhos e estão dispostos a investir tempo para descobri-las. Muitos encontram inspiração em sua própria curiosidade. Mas os melhores motivos talvez estejam expressos numa declaração escrita há 41 anos pelo reverendo Martin Luther King Jr. Ministro batista afro-americano, ele costuma ser lembrado por ter liderado o movimento americano pelos direitos civis. Mas perto do fim de sua vida, tornou-se amigo de um monge budista vietnamita exilado, Thich Nhat Hanh, que então viajava pelos Estados Unidos em missão de paz. O apelo de Nhat Hanh pela paz e pela conciliação no Vietnã inspirou King, que posteriormente o indicou para o Prêmio Nobel da Paz. Por volta daquela época, King escreveu um ensaio no qual pedia aos leitores que imaginassem a humanidade como herdeira de “uma grande ‘casa mundial’, na qual todos nós tenhamos de viver juntos”. King listou seus habitantes como judeus e gentios, católicos romanos e protestantes, muçulmanos e hindus, descrevendo-os como uma família diversa nas idéias e na cultura, mas que, “como nunca mais poderemos viver separados, temos de aprender de alguma forma como conviver em paz”.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||