Diversidade Religiosa no Período da Colonização AmericanaCatherine L. Albanese
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O período colonial da história americana foi marcado pelo pluralismo religioso, uma vez que os indígenas americanos, os escravos africanos e os colonizadores europeus praticavam suas diferentes formas de religião. Neste artigo, a autora investiga as raízes e o estabelecimento da tolerância religiosa na época colonial. Catherine L. Albanese é autora de A Republic of Mind and Spirit: A Cultural History of American Metaphysical Religion [Uma República da Mente e do Espírito: História Cultural da Religião Metafísica Americana]. Ela é também professora da cátedra J.F. Rowny de Religiões Comparadas e chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Três mitos prevalecem na percepção comum da história religiosa americana: • Primeiro mito: a história religiosa está relacionada exclusivamente com os europeus. • Segundo mito: o cristianismo protestante dos imigrantes e colonizadores europeus era monolítico nas primeiras décadas da nação. • Terceiro mito: o pluralismo religioso é um desdobramento recente do século 20. Há vários problemas com relação a essa visão da história religiosa americana. Em primeiro lugar, ela ignora o lugar dos povos indígenas — os índios americanos predecessores dos europeus nestas terras há séculos. Em segundo lugar, ignora também o lugar dos africanos que constituíam uma grande minoria da população colonial. Em terceiro lugar, com relação à história européia, é importante observar que, embora a população americana da época colonial fosse em sua grande maioria protestante, havia católicos romanos e judeus entre os colonizadores. Por fim, no início da colonização dos Estados Unidos, o pluralismo era disseminado mesmo entre os protestantes, tendo sido uma característica importante do cenário religioso americano. O desenvolvimento do sectarismo na Grã-Bretanha no período imediatamente anterior à colonização, bem como a imigração sectária, especialmente da Alemanha, garantiram uma perspectiva pluralista. Enquanto isso, colonizadores oriundos de outros países, principalmente da Europa Setentrional, com suas preferências religiosas particulares, também estiveram presentes no início da colonização americana. Mesmo com essa breve descrição da real diversidade religiosa no início da colonização do país, podemos muito bem colocar questões sobre como o mito da identidade protestante monolítica teve início em primeiro lugar. Os primeiros historiadores da experiência religiosa americana eram eles mesmos representantes das principais denominações protestantes. Eles exerceram a atividade de historiadores não como profissionais, mas a partir de sua posição como religiosos. Assim, somente de maneira gradual o estudo da história religiosa americana tornou-se profissionalizado — sendo os protestantes claramente majoritários na nação até muito recentemente —, e não é de surpreender que a real diversidade no início da nação fosse ignorada. Tradições de povos indígenas e afro-americanos
Os povos indígenas desenvolveram suas culturas americanas distintas, em nações separadas, durante séculos. Cada nação indígena tinha seu próprio sistema de crenças, códigos de conduta e práticas cerimoniais que eram, e permanecem até hoje, distintos entre si. (Este material e muito do que segue foi resumido do livro de Catherine L. Albanese, America: Religions and Religion [Estados Unidos: Religiões e Religião], 4ª edição, Belmont, Califórnia, Wadsworth Publishing, 2007.) Com cerca de 550 sociedades e línguas distintas nos Estados Unidos do século 17, a cultura indígena americana foi marcada por uma diversidade muito maior do que a maioria de pode cogitar. Mas se examinarmos o que há de comum entre os grupos, os indígenas americanos caracterizavam-se por um forte sentido de continuidade com o mundo sagrado, expresso em crenças, cerimônias e modos de vida que revelavam sua afinidade com a natureza. Consideravam o mundo material a seu redor sagrado e não o separavam de um domínio sobrenatural, a exemplo do que faziam os europeus. Eles também enxergavam uma realidade sagrada em estados oníricos interiores e encaravam suas vidas interiores e a realidade externa como totalmente fluidas e abertas a transformações. Os animais sagrados podiam se transformar em pessoas e vice-versa. Nesse contexto, a ética indígena poderia ser descrita como estando em completa harmonia com o mundo natural. Além disso, os indígenas estavam confortáveis em situações que mais tarde viriam a ser denominadas de pluralidade religiosa. Entre os indígenas americanos, as diferenças religiosas eram observadas, honradas e aceitas. Tribos diferentes prestavam culto a espíritos distintos, realizavam cerimônias distintas e observavam práticas particulares. Entre os africanos, por sua vez, a religião não desapareceu com o estado de escravidão. A maioria deles veio da África Ocidental e da região do Congo-Angola e muitos eram mandinga, iorubá, ibo, bacongo, jeje e fon. O islamismo foi escolhido como religião por alguns, enquanto outros praticavam várias e distintas religiões africanas tradicionais. Novamente, como aconteceu para os indígenas americanos, certos temas prevaleceram entre essas formas nativas. A comunidade era central, e o mundo sagrado nunca esteve distante, sendo habitado por espíritos e divindades que incluíam ancestrais venerados. A comunidade sagrada era presidida por um Deus superior, cujo poder era apropriado pelo povo por meio de divindades intermediárias. A adivinhação, o sacrifício animal, a música e a dança — ao ritmo insistente do tambor —, tudo funcionava para criar e expressar o significado espiritual. Nos Estados Unidos, essas idéias e práticas religiosas tomaram novos rumos nas comunidades de escravos, nas quais os negros se adaptaram ao cristianismo protestante e também incorporaram temas relacionados com sua condição involuntária de servidão. Assim, em seu desenvolvimento, o cristianismo negro nunca foi igual à sua versão européia branca. Paralelamente a ela, também, tradições de magia e cura, freqüentemente chamadas de possessão, cresceram e floresceram, misturando-se às crenças e práticas indígenas americanas e, às vezes, atraindo brancos à procura de cura ou ajuda material por meio da prática da magia. Tradições dos primeiros europeus Os primeiros europeus presentes na colonização dos Estados Unidos foram os espanhóis que, sob o comando de Juan Ponce de León, chegaram à península, a que hoje chamamos Flórida, em 1513. Somente oito anos mais tarde, os padres católicos romanos estabeleceram missões entre os índios. Em 1564, os espanhóis haviam fundado Santo Agostinho. O mesmo tipo de atividade religiosa ocorria a centenas de quilômetros, nas regiões a oeste do novo continente. Antes do fim do século 16, os missionários franciscanos instalaram-se onde hoje se localiza o estado do Novo México, e os jesuítas deram início a uma missão no Arizona no início do século 18. Entre os ingleses, os católicos vieram com o intuito de colonização, não de conversão dos índios. De fato, a carta constitucional para dar início à colônia que se tornou Maryland foi entregue a um católico romano. O rei Charles I, da Inglaterra, concedeu a carta constitucional ao católico George Calvert, o primeiro lorde de Baltimore. Seu filho, Leonard, chegou em 1634 como primeiro governador da colônia. A colônia de Maryland não permaneceu por muito tempo em mãos católicas, mas sua mera existência atestou o poder das minorias religiosas no período colonial. Nesse ínterim, a colônia de quakers da Pensilvânia recebia bem os católicos, e a colônia de Nova York, pelo menos durante parte de sua história, também os tolerou. Houve até mesmo um governador católico em Nova York de 1682 a 1689, em Thomas Dongan. Nova York também foi reduto dos primeiros judeus no início dos Estados Unidos. Eles se estabeleceram no local em 1654 quando ainda se chamava Nova Amsterdã (a colônia passou das mãos dos holandeses para a dos ingleses em 1664). Esses judeus — parte de uma comunidade de refugiados espanhóis e portugueses formada após a expulsão dos judeus de suas terras no fim do século 15 — haviam se instalado inicialmente na Holanda liberal. Mais tarde, mudaram-se para o Nordeste do Brasil no contexto da empreitada colonial holandesa, até que, com a expulsão dos holandeses por Portugal, os judeus fugiram para o norte, chegando a Nova Amsterdã. Lá formaram uma diminuta comunidade de sefaraditas, principalmente de comerciantes, sem rabinos. A prática de casamento com não-judeus na área significou que vários deles se misturaram à população local, mas em 1692 conseguiram criar a primeira sinagoga da América do Norte. Alguns dos sefaraditas também se estabeleceram em Rhode Island, e outros — juntamente com os judeus que começavam a chegar da Europa Setentrional — pontilharam as cidades da Costa Leste com suas pequenas comunidades e congregações religiosas até o sul de Charleston, na Carolina do Sul. Nesse mundo americano de diversidade religiosa dos primeiros tempos, os protestantes mantiveram sua posição de maioria coletivamente. Duas pandemias no início do século 17 dizimaram os povos indígenas no continente norte-americano — devastados pelos micróbios trazidos pelos europeus muito mais do que por suas armas. Os outros grupos — africanos, católicos e judeus — pertenciam claramente à minoria, apesar do grande número de africanos em alguns lugares. Pensar nos colonizadores protestantes coletivamente, contradiz, contudo, a situação de diferença religiosa que, na verdade, caracterizou esses imigrantes europeus. Muitos deles exibiam um cristianismo protestante cultural, mas viviam, também, em contato com uma série de crenças e comportamentos metafísicos semelhantes aos dos indígenas e negros — recorrendo à prática de magia de curandeiros, a formas astrológicas de orientação e a formas elitistas de esoterismo (ver Jon Butler, Awash in a Sea of Faith: Christianizing the American People [Imerso num Mar de Fé: Cristianizando o Povo Americano], Cambridge: Harvard University Press, 1990, e Catherine L. Albanese, A Republic of Mind and Spirit: A Cultural History of American Metaphysical Religion [Uma República da Mente e do Espírito: História Cultural da Religião Metafísica Americana], New Haven: Yale University Press, 2007).
Além disso, os colonizadores das duas primeiras colônias, que foram os principais atores nos desdobramentos políticos posteriores, pertenciam a grupos religiosos diferentes. Os habitantes da Virgínia, com sua primeira colônia permanente em Jamestown a partir de 1607, eram oficialmente membros da Igreja da Inglaterra. Seu anglicanismo era tão rigoroso que em 1610, e a seguir por quase uma década, a lei da Virgínia exigia presença nos cultos de domingo, sob pena de morte a partir da terceira ausência (não encontramos registros de alguém que tenha realmente sido executado). Na Nova Inglaterra, ao contrário, os colonizadores das colônias de Plymouth (1620) e da Baía de Massachusetts (1630) — que mais tarde vieram a se juntar — eram puritanos, membros de dois grupos diferentes de reformistas que rejeitavam as práticas da Igreja da Inglaterra. Em Plymouth, os Peregrinos Separatistas — que haviam se estabelecido anteriormente na Holanda — colocavam-se totalmente à margem da igreja inglesa. Na grande colônia da Baía de Massachusetts, os não-separatistas esforçaram-se para transformar a Igreja da Inglaterra internamente. Ambos os grupos enfatizavam o papel da conversão a um cristianismo puro e verdadeiro, baseado na experiência religiosa pessoal. Ambos foram fortemente influenciados pela teologia calvinista, com sua mensagem da soberania de Deus, do estado de pecado da humanidade e da arbitrariedade da eleição divina à glória celestial ou ao fogo eterno do inferno. Ambos também admiravam a igreja livre ou reunida que se originara na Reforma Anabatista (Radical) da Europa do século 16. Os dois grupos também enfatizavam o papel dessa igreja congregacional reunida como mantenedora de um acordo entre o povo e o Deus Todo-Poderoso. Mesmo os reformistas puritanos da Baía de Massachusetts, contudo, não eram puros o suficiente para alguns dos novos colonizadores protestantes. Rhode Island, por exemplo, tornou-se o reduto de crentes batistas após Roger Williams ter fundado a colônia em 1636. Williams havia sido exilado da Baía de Massachusetts quando se tornou cada vez mais claro que ele não considerava seus companheiros puritanos bons o suficiente. Em Rhode Island, juntaram-se a ele outros dissidentes religiosos, tais como Anne Hutchison, que alegava estar sob orientação direta do Espírito Santo. Mais para o sul, os protestantes de Nova York incluíam os colonizadores holandeses reformados de seus primeiros dias como colônia de Nova Amsterdã. Além disso, outros grupos protestantes europeus — calvinistas franceses, luteranos alemães, congregacionalistas da Nova Inglaterra, quakers e batistas — instalaram-se lá, ainda que a colônia se identificasse oficialmente como anglicana (ver Richard W. Pointer, Protestant Pluralism and the New York Experience: A Study of Eighteenth-Century Religious Diversity [O Pluralismo Protestante e a Experiência de Nova York: Estudo da Diversidade Religiosa do Século 18], Bloomington: Indiana University Press, 1988). Os nova-iorquinos chegaram a considerar sua diversidade positiva, percebendo seus benefícios políticos e religiosos. Em Nova Jersey, por sua vez, os holandeses e outros imigrantes da Europa Setentrional juntaram-se aos habitantes da Nova Inglaterra e aos colonizadores quakers ingleses. Em especial na Pensilvânia, os quakers encontraram refúgio seguro e assumiram uma posição de comando durante algum tempo. Uma ideologia de tolerância predominou após William Penn tornar a Pensilvânia uma colônia quaker a partir de 1681. Penn, filho de almirante e quaker convertido, obteve direito de propriedade sobre a colônia ao receber um grande território como pagamento de uma antiga dívida que o duque de York contraíra com seu pai. Os quakers, com suas crenças místicas na “luz divina” presente em tudo, traduziram sua mensagem religiosa em refúgio social e político para tudo. Na Pensilvânia havia liberdade de culto e respeito aos direitos de consciência. Surpreendentes eram ainda a preocupação de Penn com os povos indígenas ao estabelecer tratados com eles e sua atitude de evitar a guerra como iniciativa política. Missionários ingleses quakers e batistas espalharam-se por todas as partes do Sul americano, e a diversidade religiosa tornou-se uma característica normal do cenário religioso. Também os presbiterianos foram parte importante da mistura, bem como uma série de outros grupos dissidentes menores. Enquanto isso, os sectários alemães espalharam-se pela Pensilvânia e por outros lugares — menonitas, dunkers e pietistas morávios, entre outros. Onde quer que os que os alemães e escandinavos se estabelecessem, desenvolvia-se também uma forte presença luterana, bem como uma representação reformada (calvinista) entre os alemães.Também estavam presentes o que poderíamos chamar hoje de grupos marginais, como a comunidade Woman in the Wilderness, não muito distante da Pensilvânia — irmandade esotérica que praticava uma versão dos elementos pagãos, cristãos e judeus misturados em sua própria forma de religião natural. A influência dos ressurgimentos Com tal mistura de identidades e visões religiosas concorrentes entre pessoas que freqüentemente tinham inclinação missionária, os ressurgimentos — episódios de intensa evangelização em massa — tornaram-se comuns no século 18.Essas reuniões exaltavam emoções e abalavam convicções, de modo que as pessoas comuns se comprometiam com novos grupos religiosos ou retornavam aos antigos. Os historiadores gostam de indicar o período do final da década de 1730, passando pelas décadas de 1740 e 1750, como uma época de atenção especial aos apelos do ressurgimento (ver William G. McLoughlin, Revivals, Awakenings, and Reform: An Essay on Religion and Social Change in America, 1607-1977 [Ressurgimentos, Despertares e Reforma: Ensaio sobre Religião e Mudança Social nos Estados Unidos, 1607-1977], Chicago: University of Chicago Press, 1978). Chamado de o Grande Despertar ou, às vezes, de Primeiro Grande Despertar, esse período foi dominado pela pregação de duas figuras. A primeira delas foi o pregador itinerante inglês George Whitefield, seguidor de John Wesley (fundador do metodismo), com tendências calvinistas, que imigrou para as colônias da América do Norte e pregava para arrecadar fundos para um orfanato nas colônias do sul da Geórgia. A segunda foi o puritano Jonathan Edwards, considerado o maior teólogo dos Estados Unidos, que de seu púlpito em Northampton, Massachusetts, reviveu a austera mensagem calvinista de predestinação e condenação para os não escolhidos para a salvação. Esses pregadores do ressurgimento também não estavam sozinhos. Nas colônias centrais, por exemplo — principalmente Pensilvânia e Nova Jersey — os presbiterianos também ofereciam sua própria versão do despertar. A linguagem do ressurgimento tornou-se aparentemente a linguagem religiosa dos Estados Unidos. De fato, os historiadores apontam para o papel do ressurgimento na criação e na promoção da dissensão religiosa, ainda que observem seu papel na união dos colonos no que diz respeito ao compartilhamento de uma base comum. Com relação a isso, uma tese conceituada que explica como a Revolução Americana tornou-se ideologicamente possível no final do século 18 argumenta que o Grande Despertar teve papel significativo na produção do sentido de identidade comum, o qual seria absolutamente necessário para iniciar a Revolução (ver Alan Heimert, Religion and the American Mind: From the Great Awakening to Revolution [Religião e a Mente Americana: do Grande Despertar à Revolução], Cambridge: Harvard University Press, 1966). A despeito da maneira como consideramos esse argumento, fica claro que no final do século 18 a diversidade religiosa americana era surpreendentemente aparente, e ela continua a ser uma característica distintiva no cenário social da nação hoje em dia.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | |||||