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Cumprindo a Promessa de Liberdade Religiosa

Diana L. Eck

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Cumprindo a Promessa de Liberdade Religiosa
Diversidade Religiosa no Período da Colonização Americana
A Demografia da Fé
Liberdade de Culto e os Tribunais
Cláusula de Livre Exercício da Religião: Decisões Importantes da Suprema Corte
Proteção à Liberdade Religiosa Internacional: Consenso Global
Equilíbrio entre Trabalho e Religião
The Interfaith Movement
O Movimento Inter-Religioso
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This temple opened near Hampton, Minnesota, in 2007 to serve the growing number of Buddhists in the area. A four-day consecration ceremony attracted Buddhists from around the world.   © AP Images/Jim Mone
Este templo foi inaugurado em Minnesota, em 2007, para acolher o crescente número de budistas da área (Jim Mone/© AP Images)

Dois dos princípios fundamentais dos Estados Unidos são a liberdade religiosa e a separação entre Igreja e Estado. Por ocasião da instituição da República, há mais de dois séculos, a maioria esmagadora dos americanos era cristã. Entretanto, como documenta a autora deste artigo em seu livro A New Religious America [Uma Nova América Religiosa], daquela época aos nossos dias os Estados Unidos tornaram-se a sociedade com a maior diversidade religiosa do mundo, especialmente nas últimas décadas.

Diana L. Eck é professora de Religião Comparada e Estudos Indianos da Faculdade de Artes e Ciências e membro da Faculdade de Teologia da Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts.

A enorme cúpula branca de uma mesquita com seus minaretes eleva-se dos milharais nas imediações de Toledo, em Ohio. Pode-se observá-la ao passar pela rodovia interestadual. Um grande templo hindu com elefantes esculpidos em relevo na porta principal ergue-se na encosta de uma colina nos subúrbios ocidentais de Nashville, no Tennessee. Na área rural ao sul de Mineápolis, em Minnesota, existe um templo e mosteiro budista cambojano, de teto sugestivo do Sudeste Asiático.

O cenário religioso dos Estados Unidos mudou radicalmente nos últimos 40 anos, uma mudança gradual e ao mesmo tempo gigantesca. Começou com a “nova imigração”, incentivada pela Lei de Imigração e Naturalização de 1965, quando pessoas do mundo todo vieram para os Estados Unidos e se tornaram cidadãos. Com elas vieram tradições religiosas do mundo — islâmica, hindu, budista, jainista, sique, zoroastriana, africana e afro-caribenha. Os seguidores dessas crenças levaram aos bairros americanos, inicialmente de modo tímido, seus altares e salas de orações que instalaram em lojas, edifícios comerciais, porões e garagens quase invisíveis para os demais. Mas desde os anos 1990 sua presença tornou-se evidente. Nem todos os americanos viram a mesquita de Toledo ou o templo de Nashville, mas irão ver locais semelhantes em suas próprias comunidades. Eles são sinais arquitetônicos de uma nova estrutura religiosa nos Estados Unidos.

Os americanos sabem, por exemplo, que muitos médicos residentes, cirurgiões e enfermeiros são de origem indiana, mas não pararam para pensar que esses profissionais da saúde têm uma vida religiosa, que talvez façam uma pausa durante a manhã para rezar em um altar em suas casas, que talvez levem frutas e flores para o templo de Shiva-Vishnu local e talvez façam parte de uma variada população hindu de mais de 1 milhão de pessoas. Estamos plenamente cientes da imigração latina do México e da América Central e da grande população de língua espanhola das nossas cidades, e ainda assim talvez não reconheçamos o profundo impacto disso no cristianismo americano, tanto no católico como no protestante, que vai dos cânticos às comemorações festivas.


Placas na pequena cidade de Elko, Nevada, direcionam visitantes para várias igrejas servindo à comunidade de menos de 20 mil habitantes (© Adam Tanner/The Image Works)

Um vasto pluralismo

Os historiadores dizem que os Estados Unidossempre foram uma terra de muitas religiões. Um pluralismo vasto e estruturado esteve presente entre os povos indígenas — mesmo antes de os colonizadores europeus chegarem a estas encostas. A ampla diversidade de práticas religiosas nativas continua até hoje, dos piscataway de Maryland até os blackfeet de Montana. As pessoas que atravessaram o Atlântico vindas da Europa também tinham diversas tradições religiosas — católicos espanhóis e franceses, anglicanos e quakers britânicos, judeus e  cristãos reformistas alemães — uma diversidade que continuou a aumentar no decorrer dos séculos. Muitos africanos trazidos para estas terras com o comércio de escravos eram muçulmanos. Os chineses e japoneses que vieram em busca de fortuna nas minas e nos campos do Oeste trouxeram uma mistura de tradições budista, taoísta e confuciana. Judeus do Leste Europeu e católicos irlandeses e italianos também chegaram em grande número no século 19. Imigrantes cristãos e muçulmanos vieram do Oriente Médio. Punjabis do noroeste da Índia chegaram na primeira década do século 20. A maioria era constituída de siques que se estabeleceram na Califórnia, construíram os primeiros gurdwaras [locais sique de culto] dos Estados Unidos e casaram-se com mexicanas dando origem a uma rica cultura sique-hispânica. As histórias de todos esses povos são parte importante da história da imigração americana.

Entretanto, os imigrantes das últimas décadas expandiram exponencialmente a diversidade da nossa vida religiosa. Vieram budistas de países como Tailândia, Vietnã, Camboja, China e Coréia; hindus da Índia, da África Oriental e de Trinidad; muçulmanos da Indonésia, de Bangladesh, do Paquistão, do Oriente Médio e da Nigéria; siques e jainistas da Índia; e zoroastrianos tanto da Índia como do Irã. Imigrantes do Haiti e de Cuba trouxeram tradições afro-caribenhas, misturando imagens e símbolos e católicos e africanos. Novos imigrantes judeus chegaram da Rússia e da Ucrânia, e a diversidade interna do judaísmo americano é maior do que nunca. A face do cristianismo americano também mudou, com grandes comunidades católicas latinas, filipinas e vietnamitas; comunidades pentecostais chinesas, haitianas e brasileiras; presbiterianos coreanos, Mar Thomas da Índia e coptas egípcios. Em todas as cidades desta terra, os quadros de avisos das igrejas divulgam os horários das reuniões de congregações coreanas ou latinas que se realizam no interior de velhas igrejas urbanas protestantes e católicas.

Nas últimas décadas, grandes movimentos de pessoas, tanto imigrantes como refugiados, têm remodelado a demografia mundial. Em 2005, os imigrantes no mundo todo somavam mais de 190 milhões, segundo a Organização Internacional para as Migrações, com cerca de 45 milhões na América do Norte. A imagem global dinâmica dos nossos tempos não é a do chamado choque de civilizações, mas a de “matização” de civilizações e pessoas. Assim como o fim da Guerra Fria levou a uma nova situação geopolítica, os movimentos globais de pessoas conduziram a uma nova realidade georeligiosa. Hindus, siques e muçulmanos são hoje parte do cenário religioso da Grã-Bretanha; mesquitas estão estabelecidas em Paris e Lyon, templos budistas em Toronto e gurdwaras siques em Vancouver. Mas em lugar nenhum, mesmo com as atuais migrações em massa, a imensa gama de crenças religiosas é tão grande quanto nos Estados Unidos. Essa é uma nova e impressionante realidade. Uma realidade sem precedentes.

Um desafio da comunidade

A diverse crowd of Hindus attends the opening of a temple in Indianapolis, Indiana.   © AP Images/The Indianapolis Star, Rob Goebel
Uma variada multidão de hindus participa da inauguração de um templo em Indianápolis, Indiana (Rob Goebel, The Indianapolis Star/© AP Images)

A nova era de imigração é diferente das eras anteriores em magnitude, complexidade e na própria dinâmica. Muitos dos imigrantes que vêm para os Estados Unidos hoje mantêm fortes laços com sua terra natal, por meio de viagens, e-mails, celulares e notícias transmitidas por TVs a cabo. Eles conseguem viver aqui e lá. No que se tornará a idéia e a visão de Estados Unidos com cidadãos, jovens e velhos, abraçando toda essa diversidade? Em quem pensamos quando invocamos as primeiras palavras da nossa Constituição: “Nós, o povo dos Estados Unidos da América”? Quem é esse “nós”? Isso é um desafio de cidadania, certamente, pois envolve a comunidade imaginada da qual julgamos fazer parte. É também um desafio de fé para as pessoas de todas as tradições religiosas que hoje vivem em comunidades de crenças diferentes das suas, no mundo todo e do outro lado da rua.

Quando os melhores amigos dos nossos filhos são os colegas de classe muçulmanos, quando um hindu concorre a uma vaga na comissão escolar, todos nós temos novos interesses pessoais por nossos vizinhos, tanto como cidadãos quanto como pessoas de fé.

À medida que o novo século se desenrola, os americanos são desafiados a cumprir a promessa de liberdade religiosa tão fundamental à própria idéia e imagem de Estados Unidos. A liberdade religiosa sempre originou a diversidade religiosa, e a nossa diversidade nunca foi tão impressionante como agora. Isso exigirá que reivindiquemos o significado mais profundo dos princípios fundamentais que cultivamos e criemos uma sociedade americana verdadeiramente pluralista, na qual essa grande diversidade não seja apenas tolerada, mas venha a ser a verdadeira origem da nossa força. Para tanto, todos nós precisaremos conhecer melhor uns aos outros e aprender sobre formas pelas quais os novos americanos expressam o “nós” e contribuem para a alma e o espírito dos Estados Unidos.

É possível que os criadores da Constituição e da Declaração de Direitos não tenham vislumbrado o escopo da diversidade religiosa nos Estados Unidos no início do século 21. Mas os princípios que colocaram nesses documentos — o “não estabelecimento” de religião e “o livre exercício” da religião — forneceram um leme firme no decorrer dos dois últimos séculos, à medida que a nossa diversidade religiosa se expandia. Os Estados Unidos estão começando a clamar e a afirmar o que os criadores da Constituição não imaginaram, mas deram condições à nação para adotar.

A religião nunca é um produto acabado, embalado e entregue, que passa intacto de geração para geração. Em todas as tradições religiosas, algumas pessoas pensam suas religiões dessa forma, insistindo que tudo está contido em seus textos sagrados, doutrinas e rituais. Mas até mesmo uma modesta jornada pela história comprova que estão enganados. Nossas tradições religiosas são dinâmicas e não estáticas, mutáveis e não rígidas, mais semelhantes aos rios do que aos monumentos. Os Estados Unidos são hoje um lugar estimulante para o estudo da história dinâmica das crenças existentes, à medida que o budismo torna-se uma religião distintivamente americana e cristãos e judeus encontram budistas e professam sua crença sob nova forma em razão desse encontro ou talvez por chegarem ao entendimento de si próprios como parte das duas tradições. Humanistas, leigos e até ateus devem repensar suas visões de mundo no contexto de uma realidade religiosa mais complexa. Com hindus multiteístas e budistas não teístas, os ateus precisam ser mais específicos sobre o tipo de “deus” em que não crêem.

Do mesmo modo que nossas tradições religiosas são dinâmicas, também o é a própria idéia de Estados Unidos. O lema da República, E pluribus unum, “de muitos, um”, não é um fato consumado, mas um ideal que os americanos devem reivindicar constantemente. A história dos muitos povos dos Estados Unidos e a criação de uma nação é uma história sem fim na qual os ideais são constantemente invocados. Nossa pluribus é mais evidente que nunca — nossas raças e faces, nosso jazz e música qawwali, nossos tambores haitianos e tablas de Bengali, nossas danças hip-hop e bhangra, nossos mariachis e gamelans, nossos minaretes islâmicos e torres de templos hindus, nossos cones de templos mórmons e cúpulas douradas de templos siques. Em meio a essa pluralidade, a expressão da nossa unum, nossa unidade, exigirá muitas novas vozes, cada uma contribuindo a seu modo.

Vislumbrar os novos Estados Unidos no século 21 exige um salto de imaginação. Significa ver o cenário religioso do país, de um oceano ao outro, em toda a sua maravilhosa complexidade.

Adaptado do livro A New Religious America [Uma Nova América Religiosa], de Diana L. Eck, publicado pela Harper San Francisco, uma divisão da Harper Collins Publishers, Inc.Copyright © 2001, Diana L. Eck. Todos os direitos reservados.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.