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A Demografia da Fé

Brian J. Grim e David Masci

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Cumprindo a Promessa de Liberdade Religiosa
Diversidade Religiosa no Período da Colonização Americana
A Demografia da Fé
Liberdade de Culto e os Tribunais
Cláusula de Livre Exercício da Religião: Decisões Importantes da Suprema Corte
Proteção à Liberdade Religiosa Internacional: Consenso Global
Equilíbrio entre Trabalho e Religião
O Movimento Inter-Religioso
Recursos Adicionais
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A gathering at Christ Presbyterian Church in Edina, Minnesota.   © AP Images/Janet Hostetter
Reunião na Igreja Presbiteriana de Cristo em Edina, Minnesota (Janet Hostetter/© AP Images)

Nos Estados Unidos coexistem muitos grupos religiosos diferentes, todos usufruindo o direito de seguir suas crenças com a proteção legal da Constituição dos EUA.

Brian J. Grim, pesquisador sênior de Religião e Assuntos Mundiais, e David Masci, pesquisador sênior de Religião e Direito, trabalham no Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública. O Fórum é um projeto do Centro de Pesquisa Pew, organização apartidária localizada em Washington, D.C., que fornece informações sobre questões, atitudes e tendências que moldam os Estados Unidos e o mundo.

Chart of Major Religious Traditions
in the United States from Source: U.S. religious landscape Survey, pew forum on
religion & public life.

Os Estados Unidos são um dos países de maior diversidade religiosa do mundo inteiro. Na realidade, com adeptos de todas as religiões mais importantes do mundo, os Estados Unidos são de fato uma nação de minorias religiosas. Embora o protestantismo continue a ser o ramo do cristianismo predominante nos Estados Unidos, a tradição protestante encontra-se dividida em dezenas de denominações principais, todas com crenças, práticas religiosas e históricos exclusivos. Além disso, nos últimos anos o predomínio do cristianismo protestante nos Estados Unidos tem diminuído. De fato, recente pesquisa de opinião pública efetuada pelo Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública revelou que os Estados Unidos estão na iminência de se tornar um país de minoria protestante pela primeira vez na sua história. O número de americanos que dizem ser membros de credos protestantes soma agora apenas 51%, bem abaixo dos mais de 60% dos anos 1970 e 1980.

Os católicos romanos respondem por cerca de um quarto dos adultos dos EUA, e os membros de outros credos cristãos chegam a outros 3,3%. De modo geral, quase 8 em 10 adultos declaram pertencer a diversas formas de cristianismo. Outras religiões mundiais — incluindo o judaísmo, o islamismo, o hinduismo e o budismo — têm agora seguidores na ordem de 5% da população adulta dos EUA. Quase um em cada seis adultos não é afiliado a uma religião específica, uma população que vem crescendo nas últimas décadas.

A diversidade religiosa dos Estados Unidos é impulsionada por vários fatores, entre eles a imigração. Essa diversidade reflete também as proteções à livre prática da religião garantidas pela Constituição dos EUA. Não apenas os imigrantes se sentem livres para trazer com eles suas crenças e práticas religiosas, como também muitos americanos decidem mudar de afiliação religiosa no mínimo uma vez na vida. Na realidade, de acordo com pesquisa efetuada em meados de 2007, mais de um quarto dos adultos americanos abandonaram o credo em que foram criados a favor de outra religião — ou de nenhuma religião —, isso sem contar as mudanças de afiliação de um tipo de protestantismo para outro.

Os direitos religiosos nos Estados Unidos

A Constituição dos EUA oferece proteção para as minorias religiosas e para as práticas religiosas em geral. Essas garantias estão incluídas no que são chamadas cláusulas de Livre Exercício e Estabelecimento de Religião da Primeira Emenda da Constituição. A Primeira Emenda, que também garante a liberdade de expressão e de reunião, foi promulgada em 1791, junto com as outras nove emendas que compõem a Declaração de Direitos.

Os redatores da Primeira Emenda, particularmente James Madison (arquiteto fundamental da Constituição e quarto presidente dos EUA), tinham plena consciência de que as diferenças religiosas levaram a séculos de conflitos violentos na Europa. Eles também se opuseram às políticas de alguns estados americanos feitas nessa época para impor restrições sobre determinados credos religiosos em favor de igrejas sancionadas ou estabelecidas pelo Estado. Em especial, Madison acreditava que limites sobre a liberdade de culto, junto com as iniciativas do governo para criar uniformidade religiosa, violavam os direitos individuais fundamentais. Ele também argumentava que a crença religiosa prosperaria mais em um ambiente em que o governo protegesse a liberdade religiosa das pessoas, mas não apoiasse instituições religiosas. Esses dois objetivos são a base das cláusulas da Primeira Emenda sobre religião.

Mesmo na época de Madison, no entanto, havia muita discordância sobre o significado exato das cláusulas sobre religião, as quais declaram que “o Congresso não legislará sobre o estabelecimento de uma religião ou proibição de seu livre exercício”. Conseqüentemente, foi deixado em grande parte aos tribunais determinar o significado exato das cláusulas de Estabelecimento e Livre Exercício de Religião.

Embora todos concordem que a Primeira Emenda proíbe a criação de uma igreja apoiada pelo governo, a concordância termina essencialmente aí. Alguns argumentam, por exemplo, que a Cláusula de Estabelecimento impede qualquer envolvimento do governo com religião. Eles acreditam, como escreveu Thomas Jefferson, um dos fundadores dos Estados Unidos, que existe “um muro de separação” entre a igreja e o Estado. Outros argumentam que o Estado pode apoiar atividades e instituições religiosas desde que isso não favoreça uma crença em detrimento de outra. Quando as disputas sobre prática religiosa chegaram ao sistema jurídico, os tribunais traçaram uma linha entre esses dois pontos de vista. De modo geral, eles decidiram que o governo pode reconhecer amplamente a religião — por exemplo, na moeda e em declarações e juramentos e  públicos —, mas derrubaram leis que parecem promover a religião — como o ensino da Bíblia em escolas públicas.

A cláusula de Livre Exercício também foi objeto de muitos debates e de muita discordância. Embora os tribunais tenham determinado de modo coerente que a cláusula protege todas as crenças religiosas, trataram as práticas e atividades religiosas de modo diferente. Em geral, os tribunais consideraram que a Primeira Emenda não dá às pessoas de fé um cheque em branco para ignorar a lei. No entanto, algumas decisões dos tribunais concederam exceções especiais para grupos religiosos, inclusive para as crenças das minorias. Por exemplo, em 1943 a Suprema Corte dos EUA manteve o direito de testemunhas-de-jeová se recusarem a participar de cerimônias de saudação obrigatória à bandeira com base em suas crenças religiosas.

Worshipers at the Church of the Pentecost in the Bronx, New York, where recent immigration trends have led to establishment of greater numbers of evangelical churches. Tyler Hicks/The New York Times
Devotos da Igreja de Pentecostes em Nova York. A imigração levou ao estabelecimento de mais igrejas evangélicas (Tyler Hicks/The New York Times)

O panorama religioso dos EUA

Nesse contexto legal, uma grande diversidade de expressão religiosa floresceu nos Estados Unidos. Não são mantidas estimativas oficiais do número de grupos religiosos nos Estados Unidos, porque desde fins dos anos 1950 o Bureau do Censo dos EUA não fez nenhum levantamento dos cidadãos quanto a crença religiosa ou participação em grupos religiosos. Uma boa fonte de informação sobre religião nos Estados Unidos vem atualmente  do Levantamento do Panorama Religioso dos EUA do Fórum Pew. Com base em entrevistas com mais de 35 mil adultos, o levantamento detalha a grande diversidade de afiliações religiosas dos Estados Unidos no início do século 21.

Grandes grupos religiosos:

O levantamento revela que quase 8 em 10 adultos dos Estados Unidos pertencem a uma igreja ou credo cristão. Os membros de igrejas protestantes constituem agora uma escassa maioria (51,3%) da população adulta. Mas nos Estados Unidos o protestantismo não é homogêneo; ao contrário, está dividido em três tradições religiosas distintas — igrejas protestantes evangélicas (26,3% da população adulta em geral e cerca da metade de todos os protestantes); igrejas protestantes da linha principal (18,1% da população adulta e mais de um terço de todos os protestantes); e igrejas protestantes historicamente afro-americanas (6,9% da população adulta em geral e um pouco menos de um sétimo de todos os protestantes). O protestantismo compreende também vários grupos de denominações (por exemplo, batista, metodista e pentecostal) que se enquadram em uma ou mais das tradições acima.

Os católicos romanos respondem por quase um quarto (23,9%) da população adulta e por cerca de 3 em cada 10 cristãos americanos. Entre a população adulta nascida no país, o número de protestantes supera muito o de católicos (55% de protestantes contra 21% de católicos). Mas entre os adultos nascidos no exterior, o número de católicos supera o de protestantes em uma proporção de quase dois para um (46% de católicos contra 24% de protestantes).

Minorias de religiões menores:

Estima-se que a parcela de muçulmanos da população adulta dos EUA seja de 0,6%, de acordo com o levantamento nacional de 2007 do Centro de Pesquisa Pew sobre muçulmanos americanos, realizado em árabe, urdu e farsi, além do inglês. Cerca de dois terços dos muçulmanos americanos são imigrantes. Apesar disso, o levantamento descobriu que eles são francamente da corrente principal no que diz respeito a aparência, valores e atitudes. Na sua esmagadora maioria, os muçulmanos americanos acreditam que trabalhar duro compensa, crença que se reflete no fato de a renda e os níveis de educação dos muçulmanos americanos geralmente espelharem os do público geral americano. Os muçulmanos constituem também o grupo mais diversificado em termos de raça dos Estados Unidos. Mais de um muçulmano em três é branco, cerca de um em quatro é negro, um em cinco é asiático e quase um em cinco é de outras raças.

Os hindus respondem por aproximadamente 0,4% da população adulta dos EUA, de acordo com oLevantamento do Panorama Religiosodo Fórum Pew. Mais de 8 em 10 hindus americanos nasceram no exterior, provenientes quase exclusivamente do Centro-Sul da Ásia. Quase metade dos hindus dos Estados Unidos possui pós-doutorado, em comparação com apenas cerca de 1 em 10 da população adulta em geral. Os hindus têm também maior probabilidade de obter níveis de renda mais altos do que os dos outros grupos, com mais de 4 em 10 ganhando acima de US $100 mil por ano.

Os budistas constituem 0,7% dos adultos dos EUA. Contrastando com o islamismo e o hinduismo, nos Estados Unidos o budismo é composto basicamente por adeptos nascidos no país, brancos e convertidos. Somente um em três budistas americanos descreve sua raça como asiática, e quase três em quarto budistas se declaram convertidos ao budismo. Um quarto dos budistas possui pós-doutorado, porcentagem muito maior do que entre a população adulta em geral.

O levantamento constata que a maioria dos judeus americanos se identifica com um dos três grupos judeus mais importantes: Reformista (43%), Conservador (31%) e Ortodoxo (10%). Mais de 8 em 10 judeus foram criados como judeus, e cerca de 7 em 10 são casados com alguém que compartilha sua fé judaica. Mais de um terço dos judeus possui pós-doutorado e eles, como os hindus, têm nível de renda muito mais elevado que o da população em geral.

Grande número de americanos pertence a um terceiro ramo importante do cristianismo global — a ortodoxia —, cujos adeptos respondem agora por 0,6% da população adulta. Além disso, o cristianismo americano inclui números razoáveis de mórmons e de testemunhas-de-jeová. Os mórmons respondem por 1,7% da população adulta. Aproximadamente 6 em 10 mórmons tiveram no mínimo alguma instrução universitária, em comparação com metade da população geral dos EUA. Os mórmons tendem a ter nível de renda ligeiramente superior à média, com a maioria (58%) ganhando mais de US $50 mil por ano. Os testemunhas-de-jeová respondem por 0,7% da população adulta. Mais de dois terços dos testemunhas-de-jeová são convertidos de outro credo ou não eram afiliados a nenhuma religião específica quando crianças.

O levantamento revela que 16,1% da população adulta declara não ser afiliada a nenhuma religião específica, fazendo dos não-afiliados a quarta maior tradição “religiosa” nos Estados Unidos. Mas o levantamento também mostrou que a população não afiliada é muito diversificada e que simplesmente não seria correto descrever todo esse grupo como não religioso ou “secular”. De fato, a despeito de sua falta de afiliação a um grupo religioso específico, grande parte do grupo diz que a religião é razoavelmente importante ou muito importante  em sua vida.

Somente 1,6% da população adulta dos Estados Unidos declara ser ateísta, e a probabilidade de os homens afirmarem isso é duas vezes maior que a das mulheres. Os adultos mais jovens (abaixo dos 30 anos) também têm maior probabilidade de ser ateus do que a população adulta como um todo.

Distribuição geográfica dos grupos religiosos:

In Fort Wayne, Indiana, members of the Mon Buddhist Temple gather for a blessing during a celebration of the life of the monk Luang Phot Uttama, who died in 2006. The Mon people referred to him as their Dalai Lama. © AP Images/The Fort Wayne Journal Gazette, Chathie Rowand
Em Fort Wayne, Indiana, membros do Templo Budista Mon se reúnem para uma prece durante celebração da vida do monje Luang Phot Uttama, falecido em 2006. Os budistas do Mon referiam-se a ele como seu Dalai Lama (Chathie Rowand, The Fort Wayne Journal Gazette/© AP Images)

O levantamento revelou que cada região dos Estados Unidos exibe um padrão diferente de afiliação religiosa. O Meio Oeste, ou a parte central do país, assemelha-se mais à composição religiosa geral de toda a população. Cerca de um quarto (26%) dos habitantes do Meio Oeste é membro de uma igreja protestante evangélica, cerca de um em cinco (22%) é membro de uma igreja protestante da linha principal, quase um quarto (24%) é católico e 16% não têm nenhuma afiliação. Essas proporções são quase idênticas às constatadas pela pesquisa para o público em geral.

O Nordeste tem mais católicos (37%) do que outras regiões e o menor número de pessoas afiliadas a igrejas protestantes evangélicas (13%). Os moradores dessa região têm muito mais probabilidade de ser judeus (4%) do que as pessoas que vivem em outras regiões. Contrastando com isso, exatamente a metade dos membros das igrejas protestantes evangélicas vive no Sul, em comparação com apenas 10% no Nordeste e 17% no Oeste. A vasta maioria dos mórmons (76%) vive no Oeste, com maior concentração no estado de Utah. O Oeste também tem a maior proporção de pessoas não afiliadas a uma religião específica (21%), inclusive o maior número de ateus e agnósticos.

A religião americana: diversificada e não dogmática

Talvez refletindo a grande diversidade religiosa dos Estados Unidos, a maioria dos americanos concorda com a afirmação de que várias religiões — não somente a deles — podem conduzir à vida eterna. Na realidade, o levantamento revelou que a maioria dos americanos também não é dogmática quando se trata de interpretar as doutrinas de sua própria religião. Por exemplo, mais de dois terços de adultos afiliados a uma tradição religiosa concordam que há mais de um modo verdadeiro de interpretar os ensinamentos de seu credo. A falta de dogmatismo na religião americana, combinada com as proteções legais concedidas a todos os grupos religiosos, significa que as minorias religiosas provavelmente continuarão a encontrar um lar acolhedor nos Estados Unidos.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA