Como se Tornar um Intermediador CulturalConversa com estudantes estrangeiros na Universidade Americana
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Pergunta: Akhmet, como recém-pós-graduado em Ciência Política, por que você considerou Washington o melhor lugar para estudar essa matéria? Akhmet: Na verdade, eu estava estudando pelo programa presidencial Bolashak de bolsa de estudos do Cazaquistão. Quando apresentei todos os documentos para a minha candidatura à bolsa, o governo determinou a universidade e a cidade para onde eu iria. Ao levar em consideração minha especialização, administração pública, o governo selecionou Washington, DC, porque é uma cidade onde estão localizadas importantes instituições governamentais. Meus documentos foram encaminhados à Universidade Americana porque os gestores da bolsa já haviam enviado para essa universidade estudantes interessados em administração pública. Além disso, fui aceito na Faculdade de Diplomacia Pública da Universidade Americana, que é altamente conceituada. Quando cheguei aqui, achei o local excelente para estudar e fazer meu bacharelado em Ciência Política. P: O ano passado, ano de eleição presidencial, foi um ano e tanto para observar a política em Washington, uma vez que os Estados Unidos elegeram seu primeiro presidente afro-americano. Conte-me sobre suas observações desses eventos. Akhmet: Estou feliz por ter estado aqui nessas eleições. Vi como as pessoas ficaram extremamente entusiasmadas com esses eventos. O resultado foi uma alta taxa de comparecimento nas eleições gerais. Ainda por cima, foi difícil prever quem venceria as eleições gerais. Por exemplo, no segundo trimestre perguntei a um dos meus professores: “Quem você acha que vencerá, McCain ou Obama?” Ele respondeu: “Provavelmente, McCain.” Depois, em outubro, ele disse: “Provavelmente Obama vencerá.” Quando acompanhávamos as primárias, os caucuses, a maneira como a política funciona aqui — é muito diferente de qualquer outro país do mundo. P: Shanika, você é aluna de Comunicações Públicas, e certamente muitas questões sobre a mídia foram discutidas durante o ano da eleição presidencial. Quais foram as suas observações? Shanika: Creio que houve muitas coisas positivas e negativas. Os debates ficarem disponíveis para as pessoas assistirem foi muito útil. Uma amiga minha decidiu em quem ia votar com base nos debates, o que achei estranho, mas foi como ela se decidiu. P: Por que você achou estranho? Shanika: Porque percebi aqui na A.U. que as pessoas ou são democratas ou são republicanas. Elas são muito firmes em suas convicções, e são muito poucas as pessoas que não têm forte identificação com um dos dois partidos. P: Sua amiga era diferente dos outros americanos que você observou naquela ocasião? Shanika: Sim. E sei que ela perdeu um dos debates, e foi realmente útil para ela ter tido a oportunidade de assisti-lo depois on-line. Mas, ao mesmo tempo, acho que a mídia foi tendenciosa a favor dos candidatos homens em comparação com as candidatas mulheres. Minha segunda área de interesse são estudos sobre mulheres e gênero, portanto, isso é importante, e falei bastante sobre essa questão nos meus cursos. Isso realmente não foi justo. Senti que eu fazia parte de uma maioria que não gostou disso, em especial da maneira como a mídia tratou a senadora [Hillary Rodham] Clinton e a governadora [Sarah] Palin. Elas foram escrutinadas de uma maneira em que os candidatos homens não foram. Gayatri: Cheguei aqui pela primeira vez em agosto de 2007. Minha ideia dos Estados Unidos vinha da cultura popular, da literatura e das coisas que meu pai me contava. Para mim, a imagem dos Estados Unidos era Simon e Garfunkel e pessoas marchando no Mall [local de muitas manifestações em Washington, DC]. (Risos.) Isso era o que meu pai me contava, mas meu primeiro semestre aqui não combinou com essa imagem idealista dos Estados Unidos. E me lembro do segundo trimestre de 2008, Obama veio à A.U. e discursou, e aquele foi o discurso em que foi apoiado por Ted Kennedy [senador dos EUA], e tudo isso aconteceu aqui. Meus amigos diziam: “Nós temos de ir!” Eu me lembro de ter acordado as 5 da manhã e ter ficado na fila para assistir. Daquele momento em diante, o resto de 2008, pude ver esse idealismo. Qualquer que fosse o lado do espectro que se estivesse, as pessoas estavam conversando e tinham coisas com que se preocupar. Quanto a mim, pude ver os Estados Unidos que as pessoas imaginavam, especialmente a geração dos meus pais. Quando elas imaginam os Estados Unidos, pensam nos protestos contra a Guerra do Vietnã, na poesia da geração beat, e eu pude ver isso. Foi apenas um pouco mais do que isso. P: Fale sobre aquele dia do discurso as 5 da manhã. Os seus amigos te arrancaram da cama? Gayatri: Não, eu pensei: “Isso eu quero ver.” Como estudo Comunicações Internacionais, fico impressionada com quem consegue discursar bem e se comunicar com um grande número de pessoas. Portanto, eu estava interessada, mas não era como se eu tivesse de ir. No dia 4 de novembro [dia das eleições americanas de 2008], estava entusiasmada. Em 20 de janeiro [dia da posse], estava entusiasmada. Àquela altura, pensei: “Tenho de ir. Seria burrice perder este momento.”
P: Chega de política, vamos falar sobre experiência acadêmica. Gayatri, você já fez o aquecimento. Fale sobre as diferenças entre as aulas nos Estados Unidos e na Índia. Gayatri: Depende do que você estuda, mas, de maneira geral, as aulas são dadas de cima para baixo na Índia. O professor chega com uma ideia bastante fixa do que dar em aula. Estudei em uma faculdade jesuíta enorme; cada sala de aula tinha cerca de 300 pessoas. Era difícil fazer discussões em classe, e isso resulta em um certo grau de indiferença. E o nosso sistema se baseia totalmente nos exames finais, como o sistema britânico. Você senta na sala o ano inteiro e um dia, no final do ano, você regurgita tudo o que aprendeu, e é assim que termina. Nada de monografias, nem apresentações. A única exceção era a minha aula de literatura, que era mais voltada para as discussões e tinha menos alunos. Quando cheguei aqui, a diferença é que você é incentivado a dar sua opinião, a levantar a mão durante a aula e discordar. Dizer: “Minha visão de mundo é diferente.” Assim, todos aprendemos, e é isso que é bonito nas salas de aula americanas. José: Concordo. Estudei na Guatemala, e era muito parecido com a descrição de Gayatri. As discussões não eram realmente incentivadas, e às vezes os professores costumavam demonstrar que tinham autoridade; discutir com eles era um risco. Em minha opinião essa foi a principal diferença. Eu realmente adorei a maneira como tivemos discussões com vários pontos de vista no curso de Desenvolvimento Internacional. P: Para você pessoalmente, foi difícil se adaptar a essa postura diferente nas aulas? José: O primeiro semestre foi difícil. Eu sabia um pouco de inglês, mas tínhamos de ler centenas e centenas de páginas em inglês, e eu não tinha rapidez para toda aquela leitura. E não entendia a dinâmica de expressar uma opinião totalmente contrária para um colega ou para o professor, como dizer: “Desculpe, eu não concordo com isso.” De forma que foi um processo para me acostumar a isso. Stephanie: Foi de fato difícil no começo me acostumar com simplesmente intervir. Às vezes sentia que as pessoas só estavam intervindo [na discussão] para tentar mostrar que eram inteligentes. Era aí que eu tinha problemas. Qual é a linha entre respeitar o professor e expressar seus próprios pontos de vista? Algumas vezes sinto que atravessam essa linha. Mesmo agora, estou no último ano, e ainda acho difícil entrar no meio da discussão assim. Gihae: Concordo totalmente. Achava que alguns alunos eram realmente rudes com o professor. Pensava que o professor estava aqui para ser mais um facilitador do que um instrutor, sem agir com muita autoridade. Quando cheguei para o primeiro semestre, tinha muita coisa para ler. Tive medo que o meu entendimento das leituras pudesse estar errado, portanto, parei de falar durante as aulas. Perdi um pouco da autoconfiança. Isso fez com que os colegas e alguns professores pensassem que eu não tivesse feito a leitura ou que não tivesse nenhuma ideia ou opinião sobre os temas tratados. E essa não era a cultura na qual fui criada. Nós tínhamos de ouvir, e não falar, na sala de aula. Portanto, o primeiro semestre foi realmente difícil. P: Com o tempo você passou a participar mais das discussões em classe? Gihae: Ainda fico quieta. Mas comecei a falar com os professores que, se eles me dessem tempo para falar, em vez de eu me apresentar e intervir, poderia responder as perguntas. A cada início de semestre, pedia isso aos professores. Eles entenderam que minha cultura era diferente, e quando me era dada a oportunidade eu estava preparada. P: Entender a língua na sala de aula é uma coisa, mas entender os estudantes americanos e como eles falam e interagem pode ter exigido ainda mais adaptação da sua parte. Você achou difícil a comunicação informal entre seus colegas? Gayatri: Cresci tendo o inglês como minha primeira língua, portanto, isso foi uma vantagem imediata. Esse choque cultural não existiu. Venho de uma cidade grande, Bombaim [Mumbai], de forma que, vindo de uma cidade de 20 milhões de pessoas, minha ideia de espaço é muito diferente. Não estamos acostumados com isso. O espaço privado não existe. O espaço é uma coisa importante [problema entre pessoas] e até influencia a definição de amizade e suas fronteiras, o que se pode esperar ou não de um amigo. Inicialmente, minha reação instintiva era: “Sinto saudades de casa. Não posso ligar para meus amigos às duas da manhã para pedir alguma coisa.” Ficava triste e comparava e contrastava os dois lugares distintos. No fim, você chega a um ponto em que vê as duas culturas pelo o que elas são. Você começa a ver as duas sociedades tanto como uma estranha quanto como um de seus membros. Aqui, eu me tornei uma falante de indiano. Vou para casa e sou a garota que veio dos Estados Unidos e que pode nos contar como eles realmente são. P: Isso significa que você passou da fase de comparar e contrastar e vê as circunstâncias e as culturas pelo o que elas são? Gayatri: Sim. São sistemas de existência diferentes. Assim como as regras de trânsito são diferentes nos Estados Unidos e na Índia. Este é o sistema, foi assim que ele evoluiu, e você o vê pelo o que ele é. Mas tem uma desvantagem, porque você se torna uma estranha em todos os lugares, como se estivesse dividida entre dois mundos. Aprendi esta expressão em uma aula intercultural: intermediador cultural. Com sorte você se tornará um intermediador entre culturas. P: Vamos fazer esta pergunta a todos da mesa. Qual foi a sua adaptação cultural mais difícil? Akhmet: Sou uma pessoa muito aberta, gosto de enfrentar novos desafios. Antes de vir para os Estados Unidos, estive na Coreia do Sul para um intercâmbio. Passei pelo processo de adaptação à cultura coreana. Depois dessa experiência internacional estava preparado para alguns dos desafios nos EUA, por exemplo, o desafio que surge dos estilos diferentes de comunicação. Percebi que os estudantes americanos são muito abertos para falar de qualquer assunto. No entanto, não me sentia à vontade para conversar com eles sobre religião, porque raramente discutia sobre isso com meus colegas no Cazaquistão. Mas sendo uma pessoa aberta, que tenta entender o ponto de vista dos estudantes americanos e faz muitas perguntas, adaptei-me facilmente a esses tipos de conversa.
Outro tipo de adaptação cultural foi o de me acostumar com o relacionamento professor-aluno. Os professores aqui querem a sua contribuição e participação ativa na classe o tempo todo. Eles estimulam os alunos a participar das discussões em classe. No Cazaquistão, mesmo que os professores queiram essa participação, não falam isso explicitamente. Nos Estados Unidos, é preciso expressar claramente a sua opinião, caso contrário a outra pessoa terá dificuldade em entender você. Por exemplo, algumas vezes eu não dava os detalhes de alguma coisa porque me parecia óbvio demais. Achava que o amigo com quem conversava entenderia. Mas depois ele dizia: “Por que você não me disse? Eu não sabia o que você estava pensando.” Então, eu me tornei uma pessoa mais explícita, muito mais do que seria no Cazaquistão. Stephanie: Fazer amigos foi muito difícil. Eu achava que podia fazer amizade com qualquer pessoa, que seria fácil conversar sobre qualquer coisa. Mas depois de um tempo aqui, descobri que as coisas que eu acho engraçadas, os outros não acham. Coisas sobre as quais eu poderia conversar durante horas a fio, as pessoas que conheci aqui falavam: “Sobre o que você está falando?” Ter um bom relacionamento com as pessoas foi tudo bem, mas criar laços verdadeiros com elas e se sentir como: “Você me vê. Você sabe o que eu quero dizer”, isso foi muito difícil. Quando você chega nesse estado, é muito fácil apenas ficar com seus amigos africanos porque eles entendem o que você está falando. Portanto, foi mais fácil fazer amizade com pessoas de outros países do que com os americanos. Shanika: Estava tentando pensar em alguma coisa que tivesse realmente me chocado, mas não consegui pensar em nada. Na verdade me surpreendi com as semelhanças de pensamentos e opiniões e a maneira como me senti à vontade com os estudantes americanos. Não que eu esperasse ficar desconfortável com eles, mas não esperava um nível de conforto em que eu pudesse passear com uma amiga e nós duas começarmos a rir ao mesmo tempo porque vimos algo engraçado na rua. Acho que tive sorte de encontrar um grupo de pessoas com opiniões e visão de mundo muito semelhantes às minhas. Fiz uma amiga no meu primeiro ano do curso. Fiquei realmente surpresa com o fato de termos crescido em extremos opostos do planeta e termos opiniões tão parecidas que às vezes chegava a ser assustador. E tenho mais de uma amiga com essa ligação forte. Gihae: A Coreia do Sul é muito ocidentalizada, por isso não tive nenhum “choque”. Minha dificuldade é com a língua. Sempre que estou conversando informalmente com uma pessoa, não quero que ela pense que sou diferente, que sou estrangeira. Gosto que elas escutem a minha opinião, e eu quero ouvir a delas. Então sempre que não entendo alguma coisa que elas dizem, apenas sorrio. Não quero aborrecê-las com perguntas sobre a língua. Acho que é esse o meu problema. Portanto, a língua é a minha maior dificuldade. Tentei trocar mensagens de texto com um amigo americano, mas eu não conseguia entender nada. Estou realmente tentando me acostumar com esse aspecto da cultura. José: Acho que a maneira como as pessoas são amigáveis aqui não é a mesma a que estou acostumado na América Latina. Isso é importante quando você está começando a se relacionar com outras pessoas. Em geral, quando se avança alguns graus de latitude para o norte, não se encontram pessoas tão afáveis quanto no sul. Na verdade eu não gosto muito disso. Outra coisa que me aborrece, e que provavelmente está se tornando uma tendência mundial, é que aqui você é convidado a gastar, a consumir. Às vezes acho isso difícil de aceitar. Eu me lembro da primeira vez que fui à seção de produtos para animais de estimação de uma grande loja e mal pude acreditar na quantidade de produtos. (Risos.) P: Eles tinham roupinhas de todos os estilos para cachorro, guias em seis cores, chapéus para cachorros...? José: Sim, sim, eu não acreditava. Mas isso já está se tornando uma coisa mundial. Shanika: Creio que estava aqui há uma semana quando alguém me levou para fazer compras no supermercado. Eu queria comprar cereais. Vou para a ala de cereais, olho, e tem mais tipos de cereais do que os meus olhos podem ver. Sempre comi o mesmo tipo de cereal. Nunca experimentei outro diferente. Há opções demais. José: E tem o Starbucks. Quão complicado pode ser pedir um café? Escolher entre 4 níveis de cafeína, 24 variedades, 8 tipos de açúcar. Mas a questão é que o Starbucks está no mundo todo, não só aqui. Eu estava em El Salvador e fui a um shopping center que oferecia a mesma coisa. Eles se tornaram um desses “lugares globais”, lugares que são iguais em todos os países. Não sei até que ponto você chamaria esse consumismo de choque cultural, ou se é alguma coisa que todos temos de enfrentar como cidadãos do mundo? P: As pessoas nos Estados Unidos têm questionado o consumismo extremado que ocorreu aqui nos últimos meses ao mesmo tempo que a economia entrou em declínio tão drasticamente. Muitas pessoas estão reavaliando seus gastos e hábitos de compra. Qual é a percepção de vocês sobre o desenrolar dessa autoavaliação em 2009? José: Isso depende do quão rico você é nos Estados Unidos. Eu moro em Petworth, bairro de [Washington] DC, que é um bairro de classe baixa e média. Lá as pessoas não gastam muito porque não têm muito para gastar. Este declínio econômico faz com que elas pensem duas vezes, mas não vi muitas mudanças. Mas vi no noticiário como as pessoas continuam gastando, e tem sido interessante observar. Como tenho um empréstimo grande, não gasto muito. P: Fiz a pergunta no contexto do consumismo americano, mas o declínio econômico tem sido global, tornando todos nós conscientes da natureza inter-relacionada dos mercados atualmente. Isso faz com que vocês fiquem mais conscientes da sua situação como cidadãos do mundo? Akhmet: Sim. Os estudantes estrangeiros precisam entender como os eventos econômicos afetam várias regiões do mundo e a sua carreira no futuro. É preciso entender a arena internacional. Este declínio econômico global é uma lição para todos sobre manter o mundo unido e apresentar soluções que ajudarão a evitar ocorrências semelhantes no futuro. Stephanie: Definitivamente leva você a pensar. Se estou comprando um livro ou um par de sapatos, isso faz com que você pense não somente como uma pessoa que quer algo, mas sobre como você está contribuindo para o PIB [produto interno bruto] dos Estados Unidos. Se eu contribuir com o PIB dos Estados Unidos, talvez os Estados Unidos importem mais produtos da África. Você reconhece que se alguma coisa está dando errado em um país, definitivamente ocorre um efeito cascata. Começo a pensar em como as minhas ações vão afetar alguém no meu país. Faz com que eu comece a pensar sobre onde comprar alguma coisa e o que comprar.
E, nos Estados Unidos, as pessoas estão começando a pensar: “Será que eu preciso mesmo de tudo isso?” Será necessário gastar mais do que posso? Conheço pessoas que têm mais de 20 pares de jeans. Eu me pergunto: “Para que você precisa de 20 pares de jeans?” Quando você chega de outro país e vê que as pessoas têm tantas coisas nos Estados Unidos, você pergunta por que isso é preciso? Depois de estar aqui algum tempo, você pensa: “Provavelmente eu preciso de mais uns pares de jeans.” (Risos.) Portanto, como disse Gayatri, você é uma pessoa de fora e acha que algumas coisas precisam ser mudadas. Isto foi um despertar abrupto para todos, fazer com que as pessoas pensem um pouco mais antes de gastar. P: A expressão “intermediador cultural” foi usada. Como vocês se veem nesse papel? Gihae: Estou pensando em voltar para a Coreia do Sul no final. Quando voltar, pretendo dar aulas na universidade e penso definitivamente que ensinarei da maneira como me ensinaram nos Estados Unidos, em vez de dar aulas à maneira coreana. Sonho em ser uma professora como os professores daqui, facilitando debates em vez de ensinar tudo que sei. Desse modo, não serei apenas uma pessoa que obteve um título acadêmico aqui e voltou para lecionar, mas serei a pessoa de ligação que também ensina cultura na Coreia. Shanika: Ainda não tenho ideia do que poderei fazer. Concordo com a Gayatri que, depois de estar aqui algum tempo, parte de você está à vontade aqui e parte de você se sente à vontade no país onde cresceu. Mas em nenhum dos lugares você se sente totalmente em casa. Gayatri: É esquizofrênico. Às vezes você não sabe mais quem você é. Para mim, quando estou aqui, as pessoas obviamente acham que meu sotaque é indiano. E é. Mas volto para Bombaim [Mumbai], e os meus amigos dizem que meu sotaque está americanizado. É o sentimento mais esquisito. Você não sabe mais quem você é. Aqui, você é obviamente uma estudante estrangeira. Quando você volta, como poderia não estar mudada? É um papel no qual não me sinto à vontade, mas chegarei lá. Shanika: Se eu voltasse nos próximos dois anos e meio, acho que minha experiência iria me afetar como pessoa, mas não acho que afetaria o Sri Lanka. Eu não faria o que a Gihae quer fazer, influenciar os outros com a minha experiência. Gayatri: Quero dizer mais uma coisa. Não acho que essa seja uma experiência sempre depressiva. P: Você quer dizer esquizofrênica no bom sentido? (Risos.) Gayatri: Sim, no bom sentido! Em Bombaim [Mumbai], eu era apenas uma das garotas, nada de especial, mas agora às vezes gosto de ser essa voz que vem de fora, às vezes gosto disso. Às vezes, odeio. Outras vezes, é entusiasmante. Stephanie: É como se você fosse quase obrigada a ser uma embaixadora do seu país. É meio louco. Quando você está no seu país, você na verdade não liga. Você mal pensa sobre ser ganesa, mas depois você se depara aqui com uma estranha sensação de nacionalismo que você desenvolveu. Para mim, a ausência aumenta a paixão. José: Creio que vim para cá precisamente para me entender como um elo, como um intermediador cultural. Tenho trabalhado em projetos de desenvolvimento na América Central, e as verbas para esses projetos têm vindo de grandes doadores como a União Europeia, a Ásia e os Estados Unidos. Fazer esta conexão, de que desenvolvimento não trata apenas de dinheiro ou política, é importante. Como posso ajudar as pessoas afetadas por esses projetos a entender a perspectiva dos doadores? Como posso mostrar aos doadores o que as pessoas nas comunidades estão pensando? Há uma grande distância entre esses dois lados que precisa ser eliminada. Para mim, isso é fundamental se quisermos alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio, por exemplo. P: Última pergunta. Que conselho vocês dariam aos jovens que pretendem ser estudantes internacionais? Gihae: Meu conselho é que eles precisam realmente se dedicar ao aprendizado da língua antes de virem, principalmente os que vêm de países que não têm nada em comum com o inglês. Na Coreia, temos um alfabeto totalmente diferente, assim, para ser fluente em inglês ou você passa um tempo aqui quando jovem ou precisa estudar muito em casa. Shanika: Eu diria para virem sem nenhuma expectativa. Você precisa ter uma ideia do que vai acontecer, mas acho que muita gente vem para cá pensando: “Vai ser como aquele filme ou algum programa de TV.” Depois, eles chegam aqui, dá tudo errado, e ficam desapontados. Não pensem sobre como será, deixem que as coisas aconteçam. Stephanie: Eu diria: preparem-se para ficar confusos. Você ficará confuso sobre o que quer fazer, sobre quem você é, se é inteligente ou não, em especial se vier para cursar a graduação. Você passou toda a sua infância em um país e torna-se adulto em outro. Apenas saibam que a maneira de vocês pensarem vai mudar. Será difícil equilibrar quem você é versus sua nacionalidade e versus o seu lugar nos Estados Unidos. Mas não tenham medo dessa confusão, porque de certa forma é uma coisa boa. No longo prazo, você se tornará um ser humano maravilhoso e aprenderá muitas coisas.
Akhmet: Meu conselho é para que tenham a mente aberta e estejam abertos para qualquer desafio. Eles precisam saber que as coisas aqui são diferentes. Não é certo nem errado, só é diferente do seu país. Eu também recomendaria senso de humor. Enfrentem todos os desafios com senso de humor. Aprendam a rir dos seus erros e dos erros dos outros. Ajuda na sua adaptação, eu acho. Além disso, muitos estudantes estrangeiros não aproveitam todos os recursos proporcionados pela universidade, como conversar com bibliotecários se você tiver dificuldade com uma pesquisa e ingressar em clubes onde você possa praticar mais seu inglês, fazer novos amigos e investir em suas habilidades de comunicação. E eles têm de saber que não estão sozinhos, há muitos estudantes estrangeiros com quem conversar. E apenas seja feliz e aproveite a vida de estudante nos Estados Unidos. José: Estejam prontos para aprender, estejam ansiosos para aprender, porque há muitas oportunidades para aprender. Akhmet levantou um ponto importante, que esta universidade, todas as universidades, tem muitos recursos. Mas eles não estão só no campus; há muitas outras experiências à sua volta com as quais você pode aprender. Estejam preparados também para ensinar. Há um mito sobre a superioridade de algumas culturas, e é importante reafirmar a sua identidade cultural e oferecer aos outros a riqueza que ela tem. Portanto, estejam ansiosos por aprender, mas sejam suficientemente generosos para ensinar. Gayatri: Acho que o que me ajudou foi eu ter me mantido tolamente ingênua. Fui ingênua ao entrar no avião pensando que seria uma adaptação rápida, e não foi. Depois, fui ingênua ao pensar que sabia tudo, e não sabia. Mas acho que essa curiosidade de sonhadora tola me ajudou. E eu concordo com tudo que os outros disseram. Vai ser uma imensa montanha-russa, e você estará sempre aprendendo e desaprendendo, ficando confuso. No momento em que você pensar que tudo está bem e que você se adaptou, alguma bobagem acontecerá para te derrubar. Na hora que você se render à ideia de que será sempre um total estranho, um amigo lhe dará a mão e tudo ficará bem. Os editores agradecem o Escritório de Estudantes Estrangeiros e Serviços Acadêmicos pela ajuda na organização desta conversa e por nos receber para realizá-la.
As opiniões expressas nesta conversa não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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