Chuck Norris e a Busca por Mim MesmaMeghan Loftus
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O táxi nos deixou em uma ruela. Olhei para o portão, perguntando-me o que os próximos quatro meses me reservavam. Eu estava cansada — pela diferença de fuso horário, sim, mas também exausta de ouvir espanhol à minha volta no voo e traduzir mentalmente... ou de qualquer forma tentar traduzir. Apenas um dia e meio do meu semestre em Sevilha, na Espanha, se passara e eu sentia como se já estivesse ali há três anos. Estava tão cansada que poderia deitar encolhida em alguma esquina e cair em um sono profundo e restaurador. O que eu estava fazendo ali? Perguntei isso a mim mesma enquanto estava parada, esperando que minha mãe hospedeira respondesse o interfone e nos desse permissão para subir ao apartamento. Essa foi a primeira de muitas vezes nos próximos quatro meses que eu me faria essa pergunta. Antes do meu semestre no exterior, eu havia saído dos Estados Unidos apenas algumas vezes para visitar as Cataratas do Niágara, no Canadá. Eu nunca havia saído da América do Norte. Sempre quis viajar para o exterior, especialmente para a Espanha. Esse era o meu sonho! Por que eu estava tão nervosa? Em momentos como esse, eu tinha a sorte de ter minha amiga Janelle. Nós duas tínhamos escolhido o mesmo programa de estudos no exterior e estávamos felizes por isso. Tínhamos uma à outra para compartilhar os muitos momentos de diversão. Mas nos momentos de tensão, sempre animávamos uma à outra, como quando Janelle perdeu sua mochila e metade de suas roupas ou quando eu tinha muita saudade de casa. Em meio a isso tudo, eram frequentes os momentos em que não podíamos acreditar na nossa sorte por estarmos passando um semestre em um país estrangeiro. O que estávamos fazendo ali? Diferenças e semelhanças Durante o decorrer do semestre, encontrei muitas respostas para a minha pergunta. Primeiro, eu queria saber como as pessoas no mundo viviam. Esperava encontrar uma porção de diferenças — o que as pessoas comiam, quando elas comiam, como se vestiam, de que gostavam — e eu estava certa. Em Sevilha, nossa principal refeição era o almoço, e não jantávamos antes da meia-noite. E eu sempre achava que as minhas roupas mais chiques não eram nunca suficientemente chiques; as outras garotas da minha idade estavam sempre muito bonitas, mesmo para simplesmente ir à escola.
Mas o que me surpreendia eram as semelhanças. Antes de sair de meu país, eu estava tão concentrada nas diferenças a serem encontradas que nunca parei para pensar sobre as coisas em comum com pessoas que viviam a milhares de quilômetros de distância com um oceano no meio. Gostávamos muito dos mesmos filmes e das mesmas músicas, admirávamos as mesmas celebridades e queríamos da vida as mesmas coisas, isto é, amar e ser amadas. Aí veio a discussão sobre as peripécias de Chuck Norris mudando a rotação da Terra. Essa brincadeira surgiu do nada uma noite em que Janelle e eu estávamos sentadas com nossos amigos espanhóis em um bar, tentando traduzir a conversa entre eles e o nosso amigo Andrew. Vindo de Londres para uma visita, Andrew não falava espanhol e apenas alguns dos nossos amigos espanhóis falavam inglês. Então, Janelle e eu estávamos nos divertindo traduzindo e navegando na conversa quando, de alguma forma, o nome de Chuck Norris veio à tona. Astro da série de televisão americana Walker, Texas Ranger, Norris é alvo de muitas brincadeiras que atestam seus míticos poderes de força e uma espécie de figura cult nos Estados Unidos. Nossos amigos espanhóis logo começaram a contar piadas sobre Chuck Norris em espanhol e em inglês, apontando variações das piadas que até nós ainda não tínhamos ouvido falar. Janelle, Andrew e eu riamos histericamente. Como podia ser que aqui, neste bar em uma ruela de Sevilha, estivéssemos compartilhando piadas sobre Chuck Norris? E em dois idiomas, não menos que isso? Foi uma lição valiosa sobre o poder de Chuck Norris como ícone cultural e astro de filmes de ação e, em um nível mais profundo, sobre a língua não ser barreira para compartilhar uma boa brincadeira. Autorrevelações Outro motivo para ir ao exterior foi me conhecer. Você pode achar estranho eu querer ir a algum lugar diferente para saber quem eu realmente sou. Mas quando penso sobre isso, para mim faz muito sentido. Enquanto estive fora, tudo que encontrei em minhas viagens era novo e não familiar. Cada situação com que me deparei me forçou a repensar o que eu sabia sobre mim mesma, sobre a situação e sobre as opções disponíveis no momento. Quer estivesse andando em círculos com Janelle em Barcelona tentando encontrar a catedral Sagrada Família (difícil não encontrar, mas nós conseguimos) ou descobrindo que havíamos reservado as datas erradas em um albergue na nossa viagem de férias em Galway, na Irlanda, eu tinha de reagir a situações de estresse, que rapidamente se tornavam mais estressantes porque eu não estava na minha praia. Ainda assim, eu tinha de encontrar minhas próprias soluções. Adivinhe? Resolvemos os problemas sem ataques de ansiedade (está bem, houve algumas ocasiões em que eles estiveram bem próximos). Por fim, encontramos a Sagrada Família (embora tenhamos andado quilômetros) e encontramos outro albergue na Irlanda. Enfrentamos situações que normalmente me deixariam com os nervos à flor da pele. Mas, em Sevilha, lugar que valoriza o relaxamento para combater o estresse, aprendi que aqueles problemas eram apenas parte da diversão. Agora, eu lembro de priorizar estes quatro itens: família, amigos, divertimento e comida — em vez de me preocupar com tudo de errado que pode acontecer. No final, lembro a mim mesma que os pequenos contratempos do caminho não contam. Mas, naquele primeiro dia em Sevilha, parada do lado de fora do portão esperando para sair da chuva, perguntando-me como tinha ido parar ali, tudo isso estava diante de mim. Quase sempre olho para trás e me vejo naquela soleira de porta e murmuro para mim mesma quando estou aflita: você está aqui porque cada dia será uma nova aventura.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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