Super-Heróis Surgem da Vida em Duas NaçõesEntrevista com Naif Al-Mutawa
| ||||
|---|---|---|---|---|
Pergunta: Descreva a experiência de ter sido criado em dois países. Al-Mutawa: Nasci no Kuwait em 1971 e foi lá que cresci. De início, costumava passar os verões em Londres, e depois, na Espanha. Quando fiz 8 anos, meus pais decidiram que eu deveria ter uma formação americana, então eles me mandaram para um acampamento de verão em New Hampshire [estado no nordeste dos EUA]. Cresci indo à escola no Kuwait e ao acampamento em New Hampshire. Passei a fazer parte de dois mundos bem cedo, em uma época em que não havia internet, em que a experiência de outros mundos não pertencia à esfera do cotidiano. Hoje em dia, qualquer pessoa pode ir ao Google e ao YouTube e ver o mundo, mas naquele tempo nós não tínhamos nem mesmo televisão por satélite. Então isso fez com que eu tentasse entender desde muito cedo vários conceitos que não pareciam se encaixar de forma adequada, opiniões referentes àqueles que eram vistos como o “Outro”, por exemplo. Todo mundo tem isso; não importa se você cresceu nos Estados Unidos, no Kuwait ou na China, sempre há uma percepção do Outro, o grupo de pessoas que é diferente do seu grupo. Mas logo aprendi que o Outro variava dependendo do lugar onde você estava. Isso foi um ensinamento importante para mim. Depois do ensino médio, fui estudar nos Estados Unidos, em Medford, Massachusetts, na Universidade Tufts, que tem um campus enorme e muito diverso, onde o multiculturalismo é um grande tema de educação. No meu primeiro ano na Tufts, em 1990, eu não tinha país. O Kuwait havia sido invadido, e meus pais não puderam voltar para casa depois das férias de verão. Eu não tinha uma casa naquela época, mas tinha um lar por ter uma família americana que cheguei a conhecer muito bem. O pai daquela família, Lawrence Durocher, tornou-se o meu mentor e ainda trabalha comigo como assessor sênior na Teshkeel. Ele era editor da revista Rolling Stone e muitas outras coisas. Então eu tive a oportunidade de conhecer as pessoas de perto. Todas aquelas experiências criaram a base para o que estamos fazendo hoje. P: Amplie seus comentários anterior sobre o Outro. Como você lidou com isso durante os anos que passou morando parte no Kuwait e parte em um acampamento de New Hampshire. Você estava tentando conciliar as duas diferentes definições do Outro? Al-Mutawa: Em 1979, ninguém sabia onde ficava o Kuwait. Em New Hampshire, fui para um acampamento de verão predominantemente judeu. As crianças eram de Ohio e da Pensilvânia, mas não havia discussões sobre política, religião ou nada do gênero. Era um ambiente agradável, e eu era apenas o garoto simpático e gordinho de um país que ninguém tinha ouvido falar. Eu era diferente, mas nunca me senti o Outro. P: Mas apesar disso você tinha consciência de que o conceito estava presente em muitos contextos sociais? Al-Mutawa: À medida que fui crescendo, sim, sem dúvida. Fiz muitos amigos no acampamento e, devido ao tamanho do Kuwait e à política da região, certos estereótipos passavam como verdades e eu fui capaz de contestá-los. Esses estereótipos giravam normalmente em torno da demonização do Outro baseada na falta de interação. No caso do conflito árabe-israelense, é claro que a ideia de quem era o Outro crescia na minha região.
P: Você tomou uma decisão muito firme de transformar THE 99 em uma empresa internacional. De que modo sua experiência fez com que fosse uma decisão compulsória para você? Al-Mutawa: Uma das principais razões que me levou a criar THE 99 é que eu sou psicólogo clínico. Tenho licença para exercer a profissão no estado de Nova York. Participei do Programa de Sobrevivência à Tortura Política do Hospital Bellevue. Como falo árabe, meus pacientes vinham do mundo árabe, mas havia pessoas de todo os lugares do mundo. Um dos temas ressonantes que eu sempre escutava de vários ex-prisioneiros era a decepção profunda e dolorosa de ter crescido considerando seu líder um herói, para acabar vendo o aparato desse herói sendo usado para torturá-los quando adultos. Isso me fez pensar sobre que tipo de mensagem estamos passando aos nossos filhos sobre o que é um herói, como um herói deve ser, quais deveriam ser suas aspirações. Foi aí que descobri o desejo de criar heróis para crianças naquela parte do mundo. Mas ao mesmo tempo sabia que o que eu fizesse deveria ter apelo também no Ocidente e na Ásia. Eu tinha escutado e lido sobre muitos projetos que haviam se tornado vulneráveis por serem atraentes apenas para o mercado do Oriente Médio. Em alguns casos, um simples telefonema de uma pessoa insatisfeita é suficiente para cancelar um programa. Eu sabia que se chegasse a participar de algo como THE 99, entraria de corpo e alma nisso. Então tinha que ter certeza de que seria interessante em nível global. Daí, desde o primeiro dia, criei o conceito de 99 heróis diferentes, provenientes de 99 países. Não há implicações religiosas na história. Não há proselitismo de nenhuma religião. A imprensa passou a vê-la como uma história sobre super-heróis islâmicos e, embora seja inspirada no Islã, também há outras influências. THE 99 refere-se aos 99 atributos de Alá mencionados no Alcorão, mas as pedras mágicas que dão os superpoderes aos 99 super-heróis vêm da sabedoria coletiva de todas as religiões e civilizações. A história começa quando a cidade de Bagdá cai sob o poder de Hulagu Khan em 1258. Os invasores querem destruir o progresso da civilização islâmica, então o califa e os bibliotecários da legendária Dar al-Hikma lutam para salvar e proteger a sabedoria coletiva de todas as religiões armazenada na biblioteca. Assim, 99 pedras são infundidas com toda a luz da razão e delas os heróis recebem seus poderes. Se vislumbrei uma empresa global, acho que quis criar o barco, segurá-lo e esperar uma rajada de vento que nos fizesse navegar pelo Atlântico e Pacífico e, graças a Deus, tivemos sorte de pegar essa brisa e transformar isso em uma empresa mundial. P: Do ponto de vista artístico, THE 99 tem raízes tanto nas histórias em quadrinhos de super-heróis americanos quanto no animé asiático, como Pokémon e esse tipo de personagem. Apesar de não ser artista, foi você quem concebeu a incorporação de ambas as tradições artísticas? Al-Mutawa: Sim. Uma das coisas que aprendi na escola de administração de empresas é que, quando se desenvolve um novo produto, não pode haver muito de “inovador” nele. Se houver muita coisa nova no seu produto, você terminará com um mercado de apenas um cliente, e esse cliente será você. Eu precisava encontrar um veículo que fosse aceito, e tanto o animé quanto as histórias em quadrinhos de super-heróis são linguagens que foram utilizadas durante décadas. O conceito de personagens humanos que se transformam em super-heróis data da década de 1930. Personagens que trabalham em equipe são um conceito asiático, porque eles têm uma cultura voltada para o grupo. Assim, a única coisa nova aqui é o arquétipo do qual derivamos as histórias. Eu quis que isso fosse algo que pudesse se sustentar por conta própria como negócio, embora tenha uma mensagem social muito clara. Sou um grande adepto do mercado. P: Quais são suas expectativas para essa graphic novel e o que ela pode ensinar aos jovens do mundo? Al-Mutawa: Tenho expectativas tanto comerciais quanto sociais. Na esfera comercial, quero que essa seja uma empresa como a Disneylândia, e temos claras indicações, Insh'Allah, de que isso pode acontecer. Vejo THE 99 ocupando seu legítimo lugar ao lado de Super-Homem, Batman, Homem-Aranha e Pokémon, na condição de embaixadores do nosso lado do mundo. É hora de as pessoas do mundo islâmico assumirem a responsabilidade e a obrigação de prestar contas sobre como somos vistos. Faço isso primeiro e principalmente para os meus filhos, mas faço isso também para os filhos de todo mundo. Meus filhos não vão viver sozinhos no mundo. A mensagem para o mundo não islâmico é: “Ei! Essa mensagem sobre o choque de civilizações, a guerra de religiões — chega disso!” Se você olhar no âmago da religião islâmica, nos conceitos do THE 99, nos conceitos de Alá e do Alcorão — generosidade, sabedoria, prudência, compaixão — esses valores são compartilhados por todas as civilizações. No âmbito dos valores, todos somos iguais.
As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
||||