Aqui Estou, uma Jovem ÁrvoreNajwa Nasr
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A experiência em intercâmbio internacional que mudou minha vida de maneira tão profunda veio depois que terminei meus estudos em 1986. Voltei à Universidade de Georgetown em 1991 para três meses de pesquisa em língua e cultura graças a uma bolsa de estudos Fulbright sênior que me foi concedida por intermédio do Conselho de Intercâmbio Internacional de Acadêmicos (CIES). Durante esse período, descobri a Coleção Árabe-Americana Naff, que preserva o patrimônio dos primeiros imigrantes árabes, em especial libaneses, a chegar aos Estados Unidos. Sediada no Museu Nacional de História Americana do Instituto Smithsoniano em Washington, a coleção foi doada ao museu por Alixa Naff em 1984 para honrar seus pais e sua geração de imigrantes. Alixa Naff, autora de Becoming American: The Early Arab Immigrant Experience [Tornando-se Americano: A Experiência Inicial dos Imigrantes Árabes], proporcionou-me umapormenorizada e entusiástica turnê pelos arquivos abrigando fotos pessoais, recordações e artefatos doados à coleção. Eu já havia visitado muitos museus, mas entrar em um arquivo de museu exige uma série de rituais. Tive de assinar meu nome e registrar a hora de chegada. Recebi um crachá de identificação e comecei a descida para o arquivo, só para me deparar com outro ritual de entrada, entregando a bolsa e passando pela checagem de segurança. Alixa Naff começou minha turnê apontando para as diferentes caixas em uma série de estantes com prateleiras formando um labirinto complexo! Ela retirou uma caixa e a levou até uma mesa. Usando luvas brancas, começou a examinar cuidadosamente o conteúdo, mostrando-me fotos, documentos impressos e cartas pessoais escritas à mão. Falou-me de como havia visitado essas pessoas em todas as partes dos Estados Unidos, colecionando itens de valor histórico entregues com prazer por todos aqueles desejosos de limpar seus sótãos. Foi ainda muito gentil ao me ajudar a adquirir cópias de amostras de algumas fotos bem como fotocópias de documentos. Voltei para casa com o sentimento de que essa coleção deveria ser mais acessível ao público do Líbano. É nossa herança escondida em caixas no subsolo, de acesso apenas para aqueles que sabem onde procurar. Algo precisava ser feito, razão pela qual decidi apresentar uma proposta ao ministro da Cultura do Líbano. Foi difícil marcar uma hora, mas finalmente consegui uma audiência com Sua Excelência. Mostrei a ele as cópias de amostras e as anotações que havia feito. Expliquei fervorosamente a importância da coleção e como seria importante compartilhar com o povo libanês essa história da imigração. Ele se convenceu, mas não havia recursos para financiar minha viagem. Cheguei a um meio-termo: “Pague minha passagem e eu cuidarei das outras despesas.” A voz dos imigrantes Alguns meses depois, voltei a Washington para visitar a Coleção Naff mais uma vez. Durante dez dias, percorri os arquivos com insaciável ansiedade, ficando por lá da hora de abrir até fechar. Com uma admiração reverente, segurei em minhas mãos fotografias de pessoas de todas as idades e suas cartas pessoais. Os primeiros imigrantes falaram comigo por intermédio de gravações em fita. Meu coração deu pulos ao ouvir aquelas vozes trêmulas do início do século 20. Lágrimas afloraram diante de fotos de pessoas em diferentes fases da vida. Uma menina em seu vestido de Domingo de Ramos posando em pé ao lado de uma vela maior do que ela. Um cartão postal de foto tinha números desenhados à mão sobre cada pessoa retratada e, na parte de trás, os números correspondiam aos nomes das pessoas — Theodora, uma menina, e Roosevelt, um menino, ambos recebendo, evidentemente, o nome de um presidente americano popular na época.
Esses jovens homens e mulheres, mortos há décadas, acreditavam que os Estados Unidos eram o país de oportunidades, liberdade e igualdade para todos. Eram em sua maioria mascates, trabalho que não exigia experiência, capital e conhecimento avançado da língua. O contato diário com cidadãos americanos ampliou o conhecimento dos imigrantes sobre o seu novo ambiente e facilitou o processo de assimilação. Os relatos de suas experiências na estrada retratam o sofrimento ante o calor abrasador e o frio cortante. Suas roupas ficavam ensopadas e em frangalhos; passavam fome e eram batidos pelo cansaço. Passavam noites ao ar livre, na grama molhada, agarrados em galhos de árvore ou em celeiros; eram atacados por ladrões e bandidos e perseguidos por animais selvagens. No entanto, as histórias que nos deixaram mostram que sobreviveram e prosperaram. Bashara Forzley, jovem imigrante que veio para os Estados Unidos sem mãe e pai, escreveu uma autobiografia descrevendo em detalhes a ascensão da condição de mascate para a de grande homem de negócios.
Li o discurso feito por Khalil Gibran a esses jovens imigrantes durante os anos 1920. Suas palavras sempre serão uma orientação valiosa para imigrantes que oscilam entre os pólos da identidade nacional e de sua nova cidadania: … Acredito em vocês e acredito em seu destino. Acredito que contribuem para esta nova civilização. Acredito que podem dizer aos fundadores desta grande nação: “Aqui estou, um jovem, uma jovem árvore, cujas raízes foram arrancadas das colinas do Líbano; no entanto, estou profundamente enraizado aqui e serei fecundo.” Uma história em desenvolvimento De volta em casa, com cópias de amostras de fotos e documentos, minha reunião com Sua Excelência o ministro Michel Eddé foi uma celebração da minha redescoberta desse patrimônio pouco conhecido do meu povo. Em 1996, com o apoio do ministério, supervisionei a primeira exposição de fotos dos primeiros libaneses que imigraram para os Estados Unidos, intitulada A Journey of Survival [Uma Jornada de Sobrevivência]. Centenas de pessoas visitaram a exposição no centro de Beirute e se aglomeraram em volta das fotos e dos documentos. Alguém gritou de alegria ao descobrir a foto do avô. Os efeitos do evento continuam a aparecer. A Journey of Survival está na internet (http://www.salzburgseminar.org/ASC/csacl/progs/ASC22/nasr/nasr.htm). As pessoas entram em contato comigo em busca de seus ancestrais ou procurando orientação sobre pesquisa relacionada. Dou palestras com slides sobre os primeiros imigrantes libaneses a chegar aos Estados Unidos. Meu grande objetivo de criar um museu da imigração em Beirute ainda não foi alcançado, mas não desisti. Minha experiência em intercâmbio internacional começou na Universidade de Georgetown há mais de 20 anos, mas acabou produzindo mais capítulos do que eu poderia imaginar. Atualmente, ainda crescendo com a experiência, descubro que as raízes se aprofundam ainda mais e os galhos crescem mais alto com folhagem saudável e frutos vigorosos. O poema de Khalil Gibran foi escrito para a primeira edição da revista The Syrian World publicada no Brooklyn, em Nova York, no ano de 1926. |
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