A Esperança e a Amizade PrevalecemRomain Vezirian
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Isso não pode estar acontecendo. Isso simplesmente não pode estar acontecendo! Esse praticamente foi meu primeiro pensamento quando cheguei em meu novo apartamento no campus da Universidade de Oklahoma, bem diferente do que eu havia imaginado. Afinal, eu havia sido aceito por um semestre e o simples fato de estar no campus era um sonho que se tornava realidade para o jovem estudante francês que eu era. Tudo era maior, as garotas eram mais bonitas, as pessoas eram mais amigáveis. Resumindo, estava de muito bom humor quando entrei pela porta do meu novo apartamento. Isso mudou rápido. Eu havia concordado, principalmente para economizar dinheiro, em dividir um quarto com outro estudante estrangeiro sobre o qual eu nada sabia. Eu sabia que ele havia chegado um dia antes, mas o apartamento estava vazio quando entrei. Comecei a desfazer as malas e notei que meu colega de quarto deixara seu passaporte sobre a mesa. “Uma rápida olhada, só para ver como ele é”, pensei. Em seguida, o passaporte estava em minhas mãos, e o que eu vi não me agradou em nada. O meu colega de quarto para o semestre era turco. Nada de mais para muitos. Mas sendo meio armênio, fazia muita diferença para mim. A história entre a Turquia e a Armênia é feita de uma série de eventos terríveis. A grande maioria dos historiadores ocidentais reconheceu que os massacres ocorridos entre 1915 e 1917 foram assassinatos em massa financiados pelo estado, mais conhecidos como o genocídio armênio. A diáspora armênia tem feito campanha para que os eventos sejam oficialmente reconhecidos como genocídio há mais de 30 anos. Em 1915, as autoridades otomanas prenderam cerca de 250 intelectuais e líderes comunitários armênios em Constantinopla. Depois disso, os militares otomanos expulsaram os armênios de suas casas e lançaram uma campanha de marchas e deportações forçadas que terminaram com cerca de 1 milhão a 1,5 milhão de mortes. Até hoje, a Turquia não aceita essa recontagem dos fatos, ainda que a maior parte dos estudiosos e historiadores do genocídio concorde com essa visão. Esses mesmos fatos forçaram meus avós a deixar seu país. Meus dois bisavôs foram mortos.
Superando estereótipos Com esse histórico familiar, eu definitivamente tinha ressentimento com relação ao país inteiro, mas tendo crescido na França, nunca tive realmente a chance de conhecer um turco. Agora, estava prestes a dividir meu próprio quarto com um por todo um semestre! Obviamente, fiquei abalado, mas o que podia fazer? Ignorá-lo escancaradamente? Recusar-me a falar com ele? Guardar rancor definitivamente arruinaria meu plano de passar um semestre divertido nos Estados Unidos. Decidi dar uma chance a ele (seu nome era Goko) e ver aonde isso nos levaria. Em retrospectiva, essa foi uma das melhores decisões que já tomei. Acredito que superar estereótipos é uma das coisas mais difíceis na vida. Mas foi o que aconteceu nos primeiros dez minutos de conversa com Goko. Contra todas as probabilidades, nós nos demos bem instantaneamente, e todas as ideias ruins que eu tinha sobre a Turquia e os turcos foram destruídas. Lembro desses momentos de modo tão vívido, provavelmente porque foram meus primeiros passos em direção ao perdão. No início, eu não falava muito, não queria baixar a guarda, mas rapidamente me dei conta de que era inútil lutar contra boas vibrações e o início de uma amizade. O sentimento ainda era agridoce porque eu não conseguia deixar de me perguntar: “O que meus avós pensariam se pudessem me ver agora?” Até perceber que Goko era apenas um jovem estudante como eu, desfrutando a vida, e estava mais do que satisfeito em falar sobre nossos muitos interesses comuns. E, obviamente, ele não era responsável por aquilo que gerações anteriores haviam feito antes dele. Soa quase como um filme de má qualidade, mas nos tornamos melhores amigos e passávamos quase todo o nosso tempo livre juntos. Na verdade, não consigo imaginar como meu semestre na Universidade de Oklahoma teria sido sem ele. Memórias preciosas Quando olho para o passado, lembro dos ótimos professores, das instalações incríveis, dos amigos americanos que fiz, mas o que mais prezo é o meu relacionamento com Goko e o quanto isso me mudou como pessoa. Entendo muito bem agora que a ignorância causa guerras e massacres, como os ocorridos em 1915. Quando as pessoas se unem e tentam entender a cultura e as visões do outro, a esperança e a amizade logo prevalecem. Até me tornei amigo de outros turcos que me foram apresentados por Goko! Se tivesse ficado na França, isso nunca teria acontecido. Se alguém tivesse dito que eu faria amizade com um turco, eu jamais teria acreditado. Eu simplesmente teria ficado com minhas ideias estúpidas para o resto da vida. Essa foi apenas uma das boas experiências que tive na Universidade de Oklahoma, mas só ela já valeu toda a viagem. Isso permitiu que eu me tornasse uma pessoa de mente mais aberta, disposta a sair da minha zona de conforto e conhecer pessoas diferentes. Aprendi que não existe um único modo certo de viver e fazer as coisas, existem muitos. É isso que faz com que nosso mundo seja tão diverso e valha a pena descobri-lo. Deixei a Universidade de Oklahoma um pouco antes do Natal. Mesmo que Goko, sendo muçulmano, não comemore o Natal, queria lhe dar um presente e achei uma camiseta que ele poderia gostar. O engraçado é que ele teve a mesma ideia e comprou exatamente o mesmo presente para mim! Ficamos parecendo dois idiotas vestindo as mesmas roupas: um turco, um descendente de armênios, rindo como dois irmãos. Quatro anos após a temporada em Oklahoma, Romain e Goko ainda mantêm contato. Eles planejam se ver de novo, em Paris ou em Istambul. |
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