Seis Anos na SuéciaCharlotte West
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Muitas coisas vêm à mente quando se pensa na Suécia: IKEA, Volvo, bem-estar social do berço ao túmulo, design minimalista e loiras estonteantes. Mas talvez a Suécia seja mais bem conhecida pelos Prêmios Nobel, criados pela generosidade do químico e inventor sueco Alfred Nobel em homenagem aos que “conferiram o maior benefício à humanidade”. A primeira vez que prestei de fato muita atenção ao Prêmio Nobel foi na minha formatura na faculdade, em Seattle, em junho de 2002, quando o discurso de patrono foi proferido por Leland Hartwell, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2001. Ele mencionou ter ficado no palco com o rei e a rainha da Suécia, e essa declaração atraiu minha atenção porque eu estava planejando mudar para Estocolmo dentro de alguns meses. Mal sabia então que em dezembro estaria sentada na mesma sala de concertos em que Hartwell recebeu seu prêmio ou que quatro anos mais tarde entrevistaria dois dos laureados com o Nobel de 2006, Andrew Fire (medicina/fisiologia) e Roger Kornberg (química), para uma revista publicada pela Escola de Medicina da Universidade de Stanford, onde ambos lecionavam. Em resumo, jamais imaginei que teria uma ligação pessoal com os Prêmios Nobel. Quando comecei a frequentar a Universidade de Estocolmo no terceiro trimestre de 2002, fiquei surpresa ao saber que muitos dos agraciados com o Nobel fariam palestras no grande auditório Aula Magna do campus — e, o que é mais importante, qualquer pessoa podia comparecer. Como brinde adicional, bolsistas da Fulbright na Suécia foram convidados a participar das cerimônias de premiação naquele dezembro, algo que muitos dos meus amigos suecos encararam com inveja. Como abrir portas Essa experiência foi apenas uma entre muitas durante minha permanência estudando, morando e trabalhando em um país estrangeiro. Quando desci do avião no Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, em 16 de agosto de 2002 — data que permanece estampada no meu passaporte e na minha memória — não tinha a mínima ideia de que a Suécia se tornaria meu lar pelos próximos seis anos. Quando mudei para Estocolmo não me era estranho morar no exterior, por ter passado meu primeiro ano de faculdade em Leiden, cidade universitária distante de Amsterdã cerca de 40 minutos de trem. A Holanda se tornou minha base enquanto excursionei pela Europa durante um ano. Eu era bem inexperiente ao fazer minhas primeiras incursões pela Eurail, mas logo aprendi o valor das sandálias de dedo, dos cadeados e das lanternas… e de não colocá-los no fundo da mochila. Quando voltei para Seattle no final do meu ano em Leiden, só conseguia pensar em como voltar para a Europa depois de me formar. A resposta veio do Departamento de Estado dos EUA, na forma de uma bolsa de estudos Fulbright. Recebi uma bolsa de estudos acadêmica e apoio para pesquisa durante um ano de estudos de pós-graduação no exterior. A beleza da Fulbright é basear-se em uma proposta de pesquisa que você mesmo desenvolve, dando aos candidatos flexibilidade na definição dos trabalhos do curso e na seleção dos orientadores na instituição anfitriã.
Durante o primeiro ano em Estocolmo, aprendi tudo sobre o Estado de bem-estar social na Escandinávia, tema que havia inicialmente despertado meu interesse durante um curso que frequentei na Holanda. Mas, talvez ainda mais importante, estudei sueco. Os suecos falam inglês quase tão fluentemente quanto um falante nativo, e é perfeitamente possível se virar sem falar uma palavra de sueco. Para mim, porém, aprender o idioma era essencial para criar uma experiência no exterior que fosse mais do que simplesmente “virar-se”. O fato de falar sueco abriu-me diversas portas pessoais e profissionais. No nível pessoal, aprender um idioma estrangeiro (e cometer as inevitáveis gafes) é alguma coisa com a qual muitas pessoas podem se identificar. Aprender a língua foi também um bom passo na carreira; ainda agora, depois de voltar aos Estados Unidos, passo uma noite por semana traduzindo notícias suecas para o inglês, garantindo uma fonte de renda regular em uma carreira de freelancer algumas vezes incerta. A fluência no idioma local também me permitiu compreender mais completamente o que ocorria à minha volta, algo que considero ter sido essencial na minha decisão de permanecer no país. Você entende o que as pessoas dizem ao seu redor; as conversas no metrô não são mais apenas ruídos de fundo. Isso lhe dá um senso melhor de pertencer a um lugar. Toma lá, dá cá Em algum momento no decorrer daquele primeiro ano na Suécia, comecei a me estabelecer e percebi que Estocolmo era um lugar onde eu poderia gostar de viver. A oportunidade de prolongar meu tempo no exterior deveu-se em parte à oportunidade de continuar a trabalhar na universidade como assistente de pesquisa, mas foi mais do que isso. Comecei a ver a Suécia com olhos diferentes enquanto fazia a transição de turista para visitante e depois para residente na cidade que havia se tornado meu lar. Ao mesmo tempo, porém, como estrangeiro, você sempre vai ficar de algum modo do lado de fora olhando para dentro. Aprendi a língua e fiz de tudo para entender os costumes e a cultura, mas também aprendi que o modo como eu percebia o que via era reflexo de minha própria cultura americana. Alguns costumes exigiram que eu me adaptasse, outras coisas se tornaram menos importantes com o tempo e algumas poucas coisas considerei apenas idiossincrasias suecas, como seu gosto pelo alcaçuz salgado e pelo surströmming, um arenque fermentado considerado por alguns uma iguaria. Tirando os hábitos culinários diferentes, talvez o fato de ser de outro lugar lhe dê o melhor dos dois mundos. Viver no exterior é um toma lá, dá cá — você leva com você um pouco da sua experiência e deixa parte de você lá. Aprendi a apreciar almôndegas e molho de mirtilo vermelho (graças a Deus, à venda na IKEA em Seattle!), mas também ensinei a meus amigos suecos as delícias de uma refeição americana do Dia de Ação de Graças, completa com peru assado e torta de abóbora. Retornei aos Estados Unidos há apenas alguns meses e ainda estou processando as implicações da minha volta ao lar. Não tenho certeza se Alfred Nobel poderia ter compreendido nosso mundo atual, em que a tecnologia permite trabalhar de qualquer lugar com uma conexão pela internet, mas creio que ele estava certo em muitos níveis ao dizer: “Lar é onde trabalho, e trabalho em qualquer lugar.” Estudar, morar e trabalhar em outro país nos últimos seis anos certamente expandiu minha noção de “lar”. Não importa onde eu esteja, a terra que tem IKEA, Volvo, bem-estar social do berço ao túmulo, design minimalista e Prêmios Nobel terá sempre um pouco de cara de lar.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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