Minha Viagem a HarvardSiyabulela Xuza
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Eu estava acompanhando o ronco de um avião Cessna que jogava panfletos de propaganda eleitoral sobre Mthatha, minha cidade na África do Sul. Era 1994, o primeiro ano de uma nova democracia em meu país, e a visão daquela maravilha tecnológica despertou em mim a curiosidade pela ciência e uma paixão por usar a tecnologia para construir um renascimento da África. É para isso que estou trabalhando agora enquanto estudo na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Logo depois que vi aquele avião, fui até a cozinha de minha mãe e comecei a misturar produtos químicos para produzir um novo combustível para foguetes. Essas ações perigosas às escondidas de minha mãe me deixavam nervoso, mas a excitação da química caseira era forte demais para resistir. Amava aquele laboratório improvisado, equipado com os utensílios de minha mãe e cheirando a uma mistura do jantar da noite passada e o odor adocicado dos produtos químicos. Tudo corria às mil maravilhas até aquele dia fatídico em que eu distraidamente preparava uma nova mistura. Esqueci de desligar o botão do fogão, e a mistura em ebulição transformou-se em um monstro sibilante, espirrando líquido por todo o chão. Aquela cozinha antes imaculada de repente ficou coberta de fumaça e um pegajoso combustível de foguete. Minha mãe correu para lá. Eu gaguejava, com as mãos trêmulas, temendo o que viria em seguida: a pior repreensão da minha vida. A reprimenda ainda ressoava nos meus tímpanos quando retomei minhas experiências, embora de forma mais cautelosa, na garagem. O que começou como uma travessura transformou-se em um projeto científico sério de quatro anos que eu administrava simultaneamente com trabalhos escolares difíceis, jogos de rúgbi, produções teatrais e serviço comunitário. Lançamento bem-sucedido Eu não só estava trabalhando no combustível como também estava construindo um foguete. Essa parte do projeto testou minha paciência e meu comprometimento até que um dia, em 2003, comecei uma angustiante contagem regressiva para o lançamento do experimento que chamei de Phoenix. Quando pressionei o botão de ignição, o motor ganhou vida, lançando uma nuvem de fumaça com o estrondo de mil tambores africanos. O Phoenix subiu majestosamente, rasgando o céu, até atingir uma altitude de quatro mil pés (1.220 metros). O sucesso do lançamento comprovou o valor da perseverança. Entrei então na feira nacional de ciências da África do Sul com um projeto chamado Espaço Africano: Impulsionando a Pesquisa Espacial da África. O projeto foi tão bem recebido que ganhei duas viagens internacionais — para as cerimônias do Prêmio Nobel na Suécia e para uma feira internacional de ciências nos Estados Unidos. A feira internacional de ciências realizada em Albuquerque, Novo México, reuniu mais de 1.500 dos estudantes mais inovadores de 52 países para exibir suas pesquisas e participar de uma competição acirrada. Senti-me honrado por representar meu país e enriquecido pelo intercâmbio que tive com estudantes de todas as partes do mundo. Então, terminado o julgamento, dirigi-me para a cerimônia de entrega dos prêmios e tomei meu lugar, olhando para um imenso auditório com intensa expectativa. Intimidado pelo evento, encolhi-me na cadeira à medida que os grandes prêmios eram anunciados. “E o vencedor da categoria de Energia e Transportes é Siya…”, gritou o apresentador, interrompido por aplausos ensurdecedores. Eu havia conquistado um grande prêmio e a honra de ver meu nome ser dado a um pequeno planeta.
Em um planeta diferente A euforia do meu sucesso na feira internacional foi a força que me impeliu ao último ano do ensino médio, culminando com minha aceitação na Universidade de Harvard. No quarto trimestre de 2008, passei pelos pátios arborizados e muros cobertos de hera de Harvard para iniciar meu primeiro ano na universidade. Precisava adaptar-me a um sistema educacional diferente, no qual o processo para obter uma resposta vale mais do que a própria resposta, e a colaboração e o envolvimento com os professores resulta em notas mais altas. Assumi o risco intelectual de escolher cursos não muito comuns como mandarim, economia e world music para ampliar meus horizontes e tornar-me um pensador interdisciplinar. Fora da sala de aula, entrei para o Fórum de Liderança Internacional de Harvard. A sociedade une estudantes de todas as partes do mundo e facilita os painéis sobre terrorismo global, liderança, HIV/Aids, tecnologia e desenvolvimento da África. O fórum também me expôs à crescente ameaça da mudança climática à medida que aumenta a demanda de energia nos países em desenvolvimento e desenvolvidos. Tão grande quanto essa ameaça é a oportunidade de começar uma revolução pela tecnologia limpa. O tema da mudança climática motiva minha nova paixão: usar minha experiência com novos combustíveis para foguetes e meus recursos atuais em Harvard para desenvolver a próxima geração de combustíveis de automóveis e jatos a fim de atenuar os perigos da crise climática. No momento estou pesquisando as principais tecnologias em biologia sintética e energia renovável para promover o desenvolvimento sustentável da África e ajudar a despertar o potencial intelectual de um continente que ainda precisa cumprir sua promessa. A transição de minhas raízes africanas para a sociedade americana me fez ver o valor da diversificação cultural. Tenho me envolvido em muitos debates noturnos, nos dormitórios da universidade, sobre questões que vão de justiça social à ética da genética, de modo que conheci a opinião de outros estudantes. Apesar de nossas diferenças, percebi que todos nós compartilhamos os valores fundamentais de liberdade e justiça, valores esses que podem ser atingidos somente com tolerância e uma maior compreensão das outras culturas. Momentos mais mundanos, tais como a alegria de ver neve pela primeira vez, também marcaram minha adaptação ao país. Congelei durante os rigorosos invernos do nordeste e tive saudades do sol da África, mas minha alma se aqueceu com o calor do povo americano, cuja bondade promoveu minha evolução a cidadão do mundo. Em breve retornarei à África do Sul, enriquecido não só por uma excelente formação como também pela interação com pessoas de todas as partes do mundo, cujas opiniões me deram uma boa noção de como o mundo funciona e pensa. Posso não ser capaz de prever o que virá no futuro, mas fico animado ao imaginar como minha formação em engenharia vai me ajudar a atingir minhas aspirações para a África.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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