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Como Conquistar a Maioria no Colégio Eleitoral

David Mark

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Amplo Apelo, Envergadura Nacional
Como Funciona o Colégio Eleitoral
Como Conquistar a Maioria no Colégio Eleitoral
Um Dia na Vida de um Eleitor do Colégio Eleitoral
Quando o Voto do Colégio Eleitoral É Diferente do Voto Popular
Reformar o Colégio Eleitoral? Não é Tão Fácil
Sistemas Eleitorais na Perspectiva Internacional
O Colégio Eleitoral: Uma Visão Francesa
Do Outro Lado do Atlântico, Algumas Semelhanças Surpreendentes
Recursos
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O sistema de Colégio Eleitoral torna a eleição do presidente dos Estados Unidos muito mais complicada do que a simples contagem dos votos populares. Os principais partidos políticos têm de forjar estratégias para conquistar os poucos estados decisivos que podem determinar a eleição.

David Mark é editor sênior de Politico e politico.com, publicações impressa e digital que cobrem a política nacional americana.

Os americanos votam para presidente dos Estados Unidos a cada quatro anos, mas, por estranho que possa parecer, não há eleições nacionais. Ao invés disso, os americanos votam para a Presidência em 51 eleições individuais nos 50 estados e no Distrito de Colúmbia (a capital, Washington). Em conjunto, essas contagens compõem o Colégio Eleitoral e decidem as campanhas presidenciais.

Juntar esses fragmentos para obter a maioria no Colégio Eleitoral é uma tarefa complexa. As campanhas presidenciais gastam horas infindáveis concebendo estratégias para alcançar o número mágico de 270 votos no Colégio Eleitoral, a maioria do total de 538. Alcançar a maioria do Colégio Eleitoral significa inevitavelmente gastar tempo e recursos preciosos em um estado em detrimento de outro. Nas últimas semanas antes das eleições, as campanhas têm de tomar decisões difíceis diariamente no que diz respeito aos estados que devem ser seriamente escolhidos como meta e os que devem ser abandonados. Fazer a escolha errada no que diz respeito aos estados nos quais fazer campanha resulta na diferença entre conquistar a Casa Branca e cair no gelo político no dia da posse, 20 de janeiro.

Entretanto, a realidade política é de que a maioria dos estados, cerca de 30, é, com toda probabilidade, seguramente democrata ou republicana, não estando seriamente em disputa. Gastar tempo e dinheiro nesses estados seguros seria um grave desperdício para qualquer campanha.

Democratic nominee Barack Obama campaigns in Ohio, where he lost the
Democratic primary election to Hillary Clinton.  © AP Images/Madalyn Ruggiero
O candidato democrata Barack Obama em campanha em Ohio, onde perdeu a eleição primária democrata para Hillary Clinton (Madalyn Ruggiero/© AP Images)

Campo de disputa estático

A primeira década do século 21 mostrou que há cada vez menos metas óbvias do que nas eleições presidenciais passadas. É digno de nota que tenha havido pouca reviravolta no mapa eleitoral entre as eleições presidenciais de 2000 e 2004. Na verdade, apenas três estados mudaram de lado: Iowa e Novo México, que transferiram o apoio ao candidato democrata Al Gore em 2000 para o presidente republicano George W. Bush em 2004, e New Hampshire, que apoiou Bush em 2000, mas foi a favor do candidato democrata John Kerry quatro anos depois. Isso configura um dos mapas presidenciais mais estáticos dos últimos tempos.

Entretanto, em 2004, em 13 estados a eleição foi definida por sete ou menos pontos percentuais de diferença: Colorado, Flórida, Iowa, Michigan, Minnesota, Nevada, New Hampshire, Nova Jersey, Novo México, Ohio, Oregon, Pensilvânia e Wisconsin. Assim, em 2008, os estrategistas da campanha do candidato republicano John McCain e do portador do estandarte democrata Barack Obama procuram formas de expandir seu campo de disputa e colocar os votos do Colégio Eleitoral de mais estados em jogo.

O plano de Obama, por exemplo, pretende ampliar o mapa eleitoral desafiando McCain em estados tipicamente republicanos, que incluem a Carolina do Norte, Missouri e Montana. Enquanto isso, a estratégia de McCain tem como objetivo competir por estados que votaram recentemente no Partido Democrata, como Pensilvânia — onde Obama perdeu feio para a senadora Hillary Clinton nas eleições primárias para a indicação democrata — e Michigan, onde Obama não competiu nas primárias. Os assessores das duas campanhas prevêem confiantemente que roubarão estados que estiveram na coluna do outro partido nas últimas eleições.

Estratégias do Colégio Eleitoral

O caminho de Obama em direção aos 270 votos necessários do Colégio Eleitoral começa por conservar cada estado conquistado por John Kerry em 2004 e concentrar-se em um punhado de estados que seus assessores acreditam estarem propensos à conversão. Kerry conquistou 252 votos do Colégio Eleitoral. Para angariar mais 18 votos eleitorais, Obama estabeleceu como meta Iowa, Virgínia, Carolina do Norte, Novo México, Nevada e Colorado, entre outros. Sua lista também inclui Ohio, onde perdeu a eleição primária para Hillary Clinton, mas que mudou drasticamente para os democratas nas eleições de meio mandato de 2006. McCain, por sua vez, espera que os eleitores ajudem-no a conservar Ohio, que foi central para o sucesso republicano nas duas últimas eleições presidenciais, e a converter Michigan, Pensilvânia e Wisconsin para a coluna republicana.

Mas às vezes as estratégias das campanhas para angariar votos no Colégio Eleitoral não são tudo que parecem. Freqüentemente, envolvem-se na elaboração de estratagemas para fazer parecer que estão gastando enormes quantias para conquistar um estado, quando na realidade não têm essa intenção. A idéia é forçar a campanha do rival a gastar tempo e dinheiro preciosos em estados que do contrário considerariam seguros – para que defendam seu próprio território.

Um exemplo clássico dessa estratégia de “despistagem” ocorreu durante os movimentados dias de fechamento da campanha presidencial de 2000, quando o vice-presidente democrata Al Gore concorreu para a sucessão de seu chefe, o presidente Bill Clinton, contra o candidato republicano, o governador do Texas, George W. Bush. Em outubro de 2000, a poucas semanas do dia da eleição, a campanha de Bush tomou a decisão questionável de veicular propagandas caras de rádio e televisão na Califórnia, que, com 54 votos do Colégio Eleitoral (agora tem 55), é o grande filão da política presidencial. A equipe de Bush gastou mais de US$ 1 milhão com propaganda nos caros mercados de mídia da Califórnia — Los Angeles, São Francisco e São Diego —, e o candidato republicano a vice-presidente, Dick Cheney, gastou um dia precioso indo de um lugar para outro do estado nos últimos dias da campanha.

No entanto, a campanha de Gore não mordeu a isca. Confiantes na força do apoio democrata na Califórnia, a equipe concentrou seus recursos finitos em outro lugar. Essa se mostrou uma estratégia sagaz, já que Gore conquistou a Califórnia com facilidade, com 53% dos votos, contra 42% de Bush.

Em Ohio, contudo, a campanha de Gore retrocedeu cedo demais e negou a si mesma a possibilidade de conquistar os 21 votos do Colégio Eleitoral do estado. Embora a campanha de Gore esperasse uma vitória republicana generalizada em Ohio, Bush acabou vencendo por apenas 3,5 pontos percentuais. Com mais cuidado, o resultado do estado poderia muito bem ter sido diferente, e a vitória teria mais do que garantido a Presidência a Gore.

Os candidatos de 2008 também mencionaram diversos estados como possibilidade para se sobressaírem. Entretanto, é improvável que isso aconteça na realidade. Os assessores de Obama afirmaram que alguns estados nos quais pretendem fazer campanha – como Geórgia, Missouri, Montana e Carolina do Norte – poderão, no final das contas, não se tornar democratas. Mas o resultado que adviria de um esforço desse tipo poderia forçar McCain a gastar dinheiro ou fazer campanha nos locais que considerasse terreno seguro, em vez de usar esses recursos em estados que seriam campos de batalha cruciais, como Ohio.

Republican nominee John McCain campaigns in Ohio,
one of the closely divided states.  © AP Images/Carolyn Kaster
O candidato republicano John McCain em campanha em Ohio, um dos estados mais divididos (Carolyn Kaster/© AP Images)

O vencedor leva tudo

Para os estrategistas da campanha presidencial, um dos aspectos mais frustrantes do Colégio Eleitoral é a regra, existente em quase todos os estados, de que o vencedor da eleição no estado todo fica com todos os votos eleitorais daquele estado, a despeito de quão pequena possa ser a margem. Em 2000, George W. Bush obteve sua famosa vitória na Flórida — e a Presidência — por 537 votos dos mais de 6 milhões do Estado Ensolarado. Ainda assim, até mesmo a menor das margens, oficializada só depois de 36 dias de disputas legais e uma decisão da Suprema Corte contrária à recontagem no estado, foi suficiente para dar à chapa republicana todos os votos eleitorais do estado.

Em 1988, o candidato republicano George H.W. Bush conquistou 426 votos do Colégio Eleitoral contra os 112 votos obtidos pelo governador de Massachusetts, Michael Dukakis, candidato democrata, dando a impressão de ser uma vitória esmagadora. Mas as margens de vitória de Bush em muitos estados foram relativamente pequenas, o que tornou sua vitória ampla, mas pouco profunda (na Califórnia, 51% contra 48%; em Connecticut, 52% contra 47%; em Illinois, 51% contra 49%; em Maryland, 51% contra 48%; no Missouri, 52% contra 48%; no Novo México, 52% contra 47%; na Pensilvânia, 51% contra 48%; em Vermont, 51% contra 48%). Os diferenciais de voto em outros estados ricos do Colégio Eleitoral não foram significativamente maiores. Com uma campanha mais apta a responder aos ataques que sofreram e mais agressiva no estabelecimento da agenda de suas questões, os democratas poderiam ter vencido.

E, em 2000, Gore perdeu New Hampshire por 48,1% contra 46,8%. Esta provou ser uma margem crucial, pois os quatro votos de New Hampshire poderiam ter dado a Gore a maioria do Colégio Eleitoral de 271 votos – tornando os resultados controversos da Flórida irrelevantes. Fora isso, uma vitória de Gore em seu estado natal, o Tennessee, teria decidido as eleições em 2000. Em vez disso, os 11 votos do Tennessee foram para Bush, por apenas quatro pontos percentuais, fazendo com que Gore se tornasse o primeiro candidato à Presidência a perder em seu estado natal desde a derrota do democrata George McGovern em 1972, o que contribuiu para que perdesse a Presidência.

Elegibilidade na eleição geral

Quando os eleitores das eleições primárias democratas e republicanas votam no candidato de seu partido, freqüentemente levam em consideração não só seus candidatos preferidos, com base em suas propostas e qualidades pessoais, mas também qual deles tem mais chance de vencer a eleição geral em novembro.

Há um motivo muito importante pelo qual John Kerry venceu a candidatura presidencial democrata em 2004 e não o antigo governador de Vermont, Howard Dean. Logo no início do ciclo eleitoral, as críticas furiosas de Dean contra a guerra do Iraque e as políticas do governo Bush em geral impulsionaram-no da obscuridade para a dianteira das primárias democratas. Sua retórica inflamada despertou os eleitores das primárias democratas, que se sentiam frustrados porque muitos dos líderes de seu próprio partido no Congresso não se mostravam dispostos a desafiar Bush de forma agressiva.

Contudo, o desempenho irregular de Dean ao longo da campanha e sua inexperiência com a política nacional fizeram com que os eleitores das primárias democratas acabassem escolhendo Kerry, que havia sido senador por quase 20 anos. Kerry era um conhecido orador verborrágico e disponível, ainda que pouco inspirador, e foi considerado um oponente mais forte contra Bush. Logo em seguida às eleições primárias, ouviu-se o comentário de que muitos democratas “namoraram Dean, mas se casaram com Kerry”.

O mapa do Colégio Eleitoral tornou-se uma questão central na disputa pela indicação do candidato democrata à Presidência em 2008. Em uma corrida que durou quase seis meses e não foi decidida até que houvessem sido realizadas todas as primárias e prévias nos estados, Hillary Clinton argumentou que deveria ser a candidata de seu partido porque tinha mais chances de vencer o candidato republicano John McCain na eleição geral do que seu rival pela indicação democrata, Barack Obama.

Hillary ressaltou suas vitórias nas primárias de estados decisivos como Ohio, Pensilvânia e Virgínia Ocidental. O argumento pareceu surtir pouco efeito sobre os democratas, que escolheram Obama como candidato do partido para enfrentar McCain.

Os democratas descobrirão em 4 de novembro se o eleitorado validará a escolha do candidato do partido. Afinal, uma coalizão vencedora do Colégio Eleitoral é um alvo em constante mudança nas campanhas. Talvez o mais vexatório seja que esta é praticamente a única faceta do governo americano na qual o vencedor do maior número de votos numa eleição não se torna automaticamente seu vencedor. Enquanto as campanhas de Obama e McCain trabalham freneticamente nas últimas semanas da eleição para juntar ao menos 270 votos, o que aparenta ser uma combinação que conduzirá à vitória num dia pode dar errado no único momento que realmente conta — a contagem estado por estado no dia da eleição.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.