O Papel da Primeira-DamaCarl Sferrazza Anthony
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Desde Martha Washington, no século 18, as primeiras-damas dos Estados Unidos têm ocupado posição de grande visibilidade, ainda que indefinida, no governo dos Estados Unidos. O autor descreve como várias primeiras-damas desempenharam esse papel singular segundo seus próprios interesses e os períodos em que viveram. Carl Sferrazza Anthony é autor de First Ladies: The Saga of the Presidents’ Wives and Their Power [Primeiras-Damas: A Saga das Esposas de Presidentes e Seu Poder], obra de dois volumes que faz uma análise de todas as primeiras-damas de 1789 até 1990, e de outros livros sobre as famílias presidenciais. Opapel da primeira-dama, esposa do presidente dos EUA, evoluiu de alguém que dita a moda e promove jantares na Casa Branca para uma posição mais substancial. Embora tenham surgido opiniões divergentes sobre o papel da mulher na sociedade, a primeira-dama ainda é um modelo para as mulheres americanas. Uma das ocupações de mais destaque no governo dos EUA, não tem deveres oficiais nem salário e conta com possibilidades quase ilimitadas. A primeira-dama pode influenciar o presidente e até mesmo exercer certo grau de poder político em relação às políticas e à legislação. Ter uma “primeira-dama” faz parte da vida dos americanos desde a instituição do regime presidencial, em 1789. Embora os Estados Unidos tivessem conquistado havia pouco a independência da Grã-Bretanha, após a Revolução Americana, a esposa do primeiro presidente, Martha Washington (1789-1797), foi tratada pelas elites das primeiras cidades capitais — Nova York e Filadélfia — como se fosse uma “dama” da corte real britânica. Era citada em público como “Lady Washington”, seu apelido popular desde a época da Guerra da Independência. Sua sucessora imediata, Abigail Adams (1797-1801), também conquistou certa fama pessoal durante a Revolução por suas opiniões altamente políticas expressas em cartas a seu marido e a outros legisladores. Durante a Presidência de seu marido foi criticada e recebeu o apelido de “Mrs. President” por declarar publicamente suas opiniões político-partidárias.
Entremeando elementos cerimoniais e políticos, a esfuziante Dolley Madison (1809-1817) estabeleceu de modo firme esse novo arquétipo nacional. Durante a Guerra de 1812, arriscou a própria vida para retirar da Casa Branca em chamas tesouros valiosos, ícones dos incipientes Estados Unidos. Seu heroísmo fez dela uma lenda e a identificou no imaginário popular como uma “mulher de presidente” ideal. Dolley Madison vestia-se com roupas elegantes para atrair a atenção da imprensa, mas permanecia democraticamente acessível a todos os cidadãos. Ela liderou um esforço para órfãos e perseguiu a igualdade de acesso das mulheres a lugares públicos, de audiências na Suprema Corte a restaurantes especializados em ostras e frutos do mar. Dolley Madison criou o padrão pelo qual todas as suas sucessoras foram avaliadas até o tempo da ativista humanitária internacional Eleanor Roosevelt (1933-1945). A expectativa pública em relação a essa posição estava tão estabelecida em meados do século 19 que quando Harriet Lane (1857-1861) ocupou a posição de anfitriã para seu tio — James Buchanan, o único presidente solteiro — um novo título foi usado para ela, abrangendo tanto as esposas como outras mulheres da família que serviam de anfitriãs para os presidentes viúvos ou solteiros – primeira-dama. O título foi registrado pela primeira vez em 1860, no Leslie’s Illustrated Newspaper. Uma crônica das primeiras-damas As realizações e atividades das mulheres que ocuparam o posto de primeira-dama entre Dolley Madison e Eleanor Roosevelt não atraíram grande atenção pública, mas eram freqüentemente dignas de nota. Julia Tyler (1844-1845) foi a primeira a ser fotografada e teve sua imagem divulgada publicamente em uma gravura. Mary Lincoln (1861-1865) foi a primeira a se ver envolvida em polêmicas e a aparecer em editoriais da imprensa. Lucy Hayes (1877-1881) foi a primeira a ser usada em propaganda comercial. Frances Cleveland (1886-1889 e 1893-1897) foi a primeira a divulgar um comunicado à imprensa no qual negava boatos de um escândalo sobre sua vida privada. Helen “Nellie” Taft (1909-1913) foi a primeira a participar do desfile de posse do marido, declarar seu apoio ao sufrágio feminino e conquistar a credibilidade pública pelo lobby bem-sucedido a favor da legislação federal. Edith Wilson (1915-1921), para proteger o marido enquanto ele se recuperava de um derrame cerebral, tornou-se a primeira-dama a assumir a administração da Presidência, levando muitas pessoas a considerá-la algo como a primeira “primeira-dama presidente”. Florence Harding (1921-1923) foi a primeira a votar, a fazer discursos e a declarar publicamente seu senso de obrigação de intervir em assuntos do governo que afetam determinados grupos, como os veteranos, as mulheres que trabalham fora e as sociedades humanitárias. O marido de Eleanor Roosevelt, o presidente Franklin Roosevelt, teve poliomielite, doença que o impedia de andar e, portanto, tirava sua liberdade de movimentos para inspecionar várias situações pelo país. A senhora Roosevelt assumiu esse importante papel e dizia que agia como se fosse os “olhos e ouvidos” do presidente. Além das suas atribuições como primeira-dama, Eleanor Roosevelt escrevia uma coluna para uma revista mensal e para um jornal diário, dava palestras e apresentava um show de rádio semanal, além de ter escrito vários livros. Ela foi uma figura internacional influente no cenário mundial.
Suas sucessoras imediatas, Bess Truman (1945-1953) e Mamie Eisenhower (1953-1961), foram anfitriãs e benfeitoras assistenciais mais tradicionais. Jacqueline Kennedy (1961-1963) acrescentou os papéis de historiadora e decoradora, uma vez que comandou a restauração e preservação histórica da Casa Branca e de outros locais públicos e era uma patrocinadora das artes e da cultura dos Estados Unidos. A fascinação do mundo pela senhora Kennedy intensificou-se porque ela falava vários idiomas e visitou a América do Sul, a Ásia e nações européias. Junto com o surgimento da televisão e o movimento crescente pela igualdade das mulheres em todas as esferas da vida, havia uma expectativa pública quando as primeiras-damas se manifestavam sobre questões da atualidade adequadas às suas forças, ambições, conhecimento e interesses. Um papel mais substancial Lady Bird Johnson (1963-1969) tornou-se pioneira no desenvolvimento de movimentos de proteção ambiental e renovação urbana, promovendo legislação federal que buscava restaurar vias públicas, devolvendo-lhes sua paisagem original, e mudar visualmente locais danificados. Betty Ford (1974-1977) suscitou controvérsias com seu debate franco sobre questões políticas que afetavam as mulheres, registrando seu apoio à decisão da Suprema Corte que aprovou o direito da mulher de optar pelo aborto e fazendo lobby nos legislativos estaduais para a aprovação da Emenda sobre Igualdade de Direitos. Ao tornar público seu câncer de mama, ela ajudou a erradicar o tabu contra a discussão de problemas de saúde que afetavam milhões de mulheres. Rosalynn Carter (1977-1981) defendeu perante o Congresso a ajuda a pessoas com problemas crônicos de saúde mental, liderou um esforço global de auxílio aos refugiados cambojanos e realizou várias reuniões significativas com líderes políticos e militares das Américas Central e do Sul como representante do presidente. Nancy Reagan (1981-1989) liderou uma campanha para persuadir crianças em idade escolar a não usar drogas ilícitas, ajudou a monitorar os compromissos de seu marido para assegurar que seus conselheiros permaneciam leais às suas políticas e incentivou a amizade do presidente Reagan com o presidente soviético Mikhail Gorbachev, que acabou resultando em um tratado de redução de armas. Barbara Bush (1989-1993) liderou um esforço para reduzir o analfabetismo adulto, acreditando ser ele causa subjacente de muitos problemas sociais. Em 2001, Hillary Clinton (1993-2001) tornou-se a única ex-primeira-dama eleita para um cargo público, o Senado americano. Como primeira-dama, ela liderou uma iniciativa de reforma na área de saúde para oferecer seguro a todos os americanos. No papel mais tradicional de primeira-dama, criou um jardim de esculturas ao ar livre e expôs arte americana contemporânea nas salas históricas da Casa Branca. Em 2008, Hillary Clinton quase obteve a indicação de seu partido para concorrer às eleições para presidente dos Estados Unidos. Laura Bush (2001- até a presente data) iniciou seu mandato como primeira-dama incentivando a leitura na infância, mas ampliou sua influência para uma vasta gama de assuntos, que incluem as doenças cardíacas em mulheres, a ajuda a jovens em situação de risco com metas positivas, o aumento do apoio federal a bibliotecas e a capacitação de professores. Também fez viagens independentes à Ásia, ao Oriente Médio e à África, promovendo o acesso igualitário à assistência médica e à educação para as mulheres. Teve destaque seu apoio público aos monges budistas perseguidos em Mianmar.
As viagens das primeiras-damas, suas causas e atividades são eventos que atraem a atenção da mídia nos Estados Unidos. Em decorrência de suas relações com os presidentes, elas são celebridades políticas e desde os primórdios têm sido capazes de usar sua posição para influenciar estilos e defender causas sociais e políticas.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||||||