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John McCain: Serviços Dedicados ao País

Domenick DiPasquale

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
John McCain: Serviços Dedicados ao País
Visão de John McCain para o Futuro
McCain por Ele Mesmo
John McCain no site Facebook
Barack Obama no site Facebook
Barack Obama: Abrindo Novos Caminhos
Visão de Barack Obama para o Futuro
Obama por Ele Mesmo
Os Poderes da Presidência
A Valorização do Papel do Vice-Presidente
Sarah Palin, Candidata do Partido Republicano a Vice-Presidente
Joe Biden, Candidato do Partido Democrata à Vice-Presidência
O Papel da Primeira-Dama
A Família McCain
A Família Obama
Box: Terceiros Partidos nas Eleições dos Estados Unidos
Recursos Adicionais
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McCain em palanque em frente à bandeira dos EUA (AP Images)
Em campanha em Annapolis, Maryland, o senador John McCain discursa para partidários em sua alma mater, a Academia Naval dos EUA, em abril de 2008 (© AP Images)

O candidato republicano a presidente serviu seu país durante 50 anos como oficial da Marinha e membro do Congresso. Embora tenha apoiado diversas iniciativas do governo Bush, McCain promete nova abordagem a questões externas e internas.

Domenick Domenick DiPasquale trabalhou 27 anos como funcionário de Relações Exteriores da Agência de Informações e do Departamento de Estado dos EUA em Gana, Quênia, Brasil, Bósnia, Cingapura e Eslovênia.

A indicação de John McCain como candidato republicano à Presidência em 2008 coroa uma carreira extraordinária de 50 anos de serviços dedicados ao país.

Como piloto da Marinha, prisioneiro de guerra no Vietnã, congressista e senador dos EUA, a história de vida de McCain é marcada pela coerência de características fundamentais, tais como disposição para dizer o que pensa, fidelidade a valores e princípios profundamente arraigados, devoção ao dever e um traço de independência defendido com veemência. Essas características, que despertaram o ódio permanente de seus algozes norte-vietnamitas e ocasionalmente até o rancor de seus colegas republicanos, também lhe renderam o apoio e a admiração de milhões de eleitores americanos.

Homem considerado pelo Almanac of American Politics como “o que existe de mais próximo de herói nacional em nossa política” — a Silver Star (Estrela de Prata), a Distinguished Flying Cross (Cruz Voadora por Serviços Relevantes) e a Purple Heart (Coração Roxo) estão entre as medalhas com que foi agraciado —, McCain abrilhantou seu já destacado perfil com uma campanha de posições independentes para a indicação de candidato republicano a presidente em 2000, o que prendeu a imaginação de muitos americanos. Despontou daquele esforço fracassado como uma das vozes mais respeitadas no Senado dos EUA, em especial em questões de segurança nacional, e uma das figuras mais proeminentes do Partido Republicano.

Talvez mais que qualquer outra qualidade, o conceito de honra pessoal seja coerentemente central na personalidade pública e privada de McCain.

“Na prisão, onde minha tão prezada independência foi humilhada e agredida, encontrei o auto-respeito na lealdade compartilhada ao meu país”, escreveu McCain em sua autobiografia Faith of My Fathers [A Fé de Meus Pais]. “Todas as honras vêm com obrigações. Eu e os homens com quem servi aceitamos as nossas e ficamos gratos pelo privilégio."

Os primeiros anos

Filho e neto de almirantes da Marinha americana, John Sidney McCain nasceu em 29 de agosto de 1936 no território administrado pelos EUA na Região do Canal do Panamá. O legado militar de sua família, cujas raízes remontam às Terras Altas da Escócia, na verdade data da Guerra da Independência dos EUA no século 18, quando um de seus ancestrais serviu no governo de George Washington.


O futuro candidato presidencial John McCain (centro) com o avô (esquerda) e o pai (direita), ambos almirantes da Marinha dos EUA, em foto de família dos anos 1940 (Terry Ashe/Time & Life Pictures/Getty Images)


Em uniforme militar, o oficial da marinha John McCain de pé junto ao pai, o almirante John McCain (© AP Images)

Nos moldes tipicamente militares, o jovem McCain aprendeu a adaptar-se rapidamente, à medida que as atribuições de seu pai obrigavam a família a mudar freqüentemente de uma base naval para outra. Essa mudança constante pode ter desempenhado um papel na definição do temperamento de McCain. Como ele mesmo diz: “Em cada nova escola chegava ansioso para, por meio de minha atitude insolente, fazer novos amigos a fim de compensar a perda de outros... (…) Em cada nova escola eu me tornava cada vez mais um chato sem remorsos.”

Em 1954, McCain se formou na Escola de Ensino Médio Episcopal em Alexandria, Virgínia, e manteve seu “compromisso inevitável” com a Academia Naval dos EUA. Na academia, embarcou no que descreveu como “trajetória de quatro anos de insubordinação e rebelião”. Conquistando reputação de companheiro afável sempre pronto para festas, colecionando vários deméritos por seu comportamento e muitas vezes enfrentando dificuldades acadêmicas, McCain perseverou e formou-se em 1958.


O piloto da Marinha John McCain (na frente à direita) posa com seu esquadrão (© AP Images)

Piloto da Marinha e prisioneiro de guerra

Ao receber a patente de oficial da Marinha, McCain freqüentou a escola de pilotagem em Pensacola, Flórida, onde obteve sua insígnia de piloto. No início dos anos 1960, participou de vários destacamentos de porta-aviões para o Mediterrâneo. Contudo, com o crescente envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã em meados dos anos 1960, McCain começou a aspirar a posições de comando e decidiu que um histórico confiável de combate seria a melhor forma de consegui-lo.

Ao servir no USS Forrestal no Golfo de Tonkin na costa norte-vietnamita em 1967, McCain quase não escapou com vida quando um incêndio terrível varreu o convés de vôo e engoliu o jato de ataque A-4 no qual aguardava o lançamento. Pouco depois, McCain transferiu-se voluntariamente do navio avariado para outro esquadrão a bordo do porta-aviões USS Oriskany.

A vida de McCain mudaria para sempre em 26 de outubro de 1967. Ao participar de um bombardeio contra uma usina elétrica em Hanói, um míssil terra-ar arrancou a asa direita de seu A-4. Lançado para fora do avião danificado, McCain caiu de pára-quedas dentro de um lago no centro da cidade, quebrando os dois braços e um joelho. Capturado imediatamente, teve início cinco anos e meio de encarceramento, marcados por maus tratos e torturas brutais, em uma série de campos de prisioneiros de guerra norte-vietnamitas.

Assim como outros prisioneiros de guerra americanos, McCain foi alvo freqüente de espancamentos e interrogatórios cruéis por seus algozes para arrancar informações militares ou declarações para serem usadas como propaganda antiamericana. Após recusar uma oferta de libertação antecipada, McCain foi espancado durante vários dias com tamanha brutalidade que acabou assinando uma confissão forçada, o que lhe causou desespero e vergonha angustiantes. No entanto, ergueu-se desse fundo do poço pessoal para conquistar a reputação de “bravo resistente”, maior honraria conferida por seus companheiros prisioneiros de guerra aos mais bravos dentre eles.

McCain atribuiu sua resistência ao cativeiro, incluindo dois anos de confinamento em solitária, à fé — “fé em Deus, fé no país e fé em seus companheiros prisioneiros”. Ao falar sobre a resistência e a bravura de seus companheiros prisioneiros de guerra, McCain disse: “Eles eram uma luz para mim, uma luz de coragem e fé que iluminava o caminho para casa com honra, e eu lutava contra o pânico e o desespero para ficar sob essa luz.”


O senador John McCain faz uma pergunta durante audiência na Comissão de Serviços Armados do Senado, em setembro de 2007 (© AP Images)

Ingresso na política

Após a assinatura do acordo de paz entre os Estados Unidos e o Vietnã do Norte em janeiro de 1973, que incluiu a libertação de todos os prisioneiros de guerra, McCain recuperou a liberdade em 15 de março daquele ano. Apesar da gravidade dos ferimentos sofridos durante a guerra — McCain pode ser visto em imagens de noticiários mancando ao desembarcar do avião que o transportou para a liberdade —, ele trabalhou tão intensamente para a reabilitação física que recuperou sua condição de piloto da Marinha.

De 1973 a 1974 freqüentou a Escola Nacional de Guerra em Washington, onde escreveu uma tese que analisa a resistência dos prisioneiros de guerra em cativeiro, mas foi a atividade subseqüente que acabaria dando novo rumo à vida de McCain. Em 1977, McCain começou a trabalhar como oficial de ligação da Marinha no Senado dos EUA. Nessa função, o jornal New York Times observou: “Ele gostou do embate das batalhas legislativas (e)... construiu amizades pessoais e colaborações profissionais em todas as divisões ideológicas, marca registrada de sua futura carreira no Senado.”

Ao se aposentar da Marinha em 1981, após abrir mão da oferta de promoção a almirante, McCain mudou-se para o Arizona, estado natal de sua segunda esposa, Cindy, com quem se casou em 1980. Em 1982, concorreu pela primeira vez a cargo político e conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Primeiro Distrito Congressional do Arizona com 66% dos votos. Reeleito para a Câmara em 1984, em 1986 McCain  concorreu  ao Senado, conquistando a cadeira deixada vaga pelo titular que se aposentava Barry Goldwater (ele também candidato a presidente indicado pelo Partido Republicano em 1964).


O oficial da Marinha John McCain sai mancando do avião depois de libertado de cativeiro no Vietnã em 1973 (© AP Images)

Nos primeiros anos de sua carreira no Senado, McCain concentrou-se nas questões que estavam próximas de sua experiência pessoal, como defesa nacional, apoio aos veteranos do serviço militar e normalização das relações com o Vietnã, trabalhando neste último tema com o senador democrata John Kerry, companheiro e herói da Guerra do Vietnã. Anos mais tarde, quando Kerry foi indicado candidato a presidente pelo Partido Democrata e sofreu ataques políticos por ter supostamente denegrido o serviço militar, McCain levantou-se em defesa do histórico de guerra de seu companheiro veterano.

Superar as divisões políticas não é incomum para McCain. Ele tentou obter consenso com seus colegas democratas no Senado na solução de problemas complexos e controversos — algumas vezes com sucesso, como no caso da normalização das relações com o Vietnã, e outras sem êxito, como na tentativa em conjunto com o senador Edward Kennedy de resolver a questão altamente tensa da imigração ilegal.

Agora, em seu quarto mandato como senador, McCain acumulou um histórico de votação no Congresso afinado com as opiniões republicanas dominantes — forte defesa nacional, diminuição da carga tributária, oposição aos juízes ativistas e posição pró-vida na questão do aborto. No entanto, também desempenhou papel independente como defensor da reforma do sistema de financiamento de campanhas e forte adversário do desperdício dos gastos governamentais com a prática do “pork barrel” (uso de recursos federais para projetos ineficientes de congressistas em troca de favores políticos), bem como da prática de vinculação de recursos orçamentários, ou seja, destinação de verbas para projetos do agrado dos legisladores.

John e Cindy McCain sob chuva de confetes (AP Images)
Após reunião com eleitores de New Hampshire durante a dispusta presidencial de 2000, John e Cindy McCain debaixo de chuva de confetes (© AP Images)

Corrida à Presidência

A primeira incursão de McCain na política presidencial foi em 2000, quando concorreu pela indicação a presidente pelo Partido Republicano. Muitos eleitores viram em sua franqueza, seu humor autodepreciativo e estilo direto qualidades atraentes que lhe renderam não apenas a atenção nacional, mas também apoio que transcendia as linhas partidárias tradicionais; seu ônibus de campanha foi denominado “O Expresso da Conversa Franca”. McCain seguiu em frente para marcar uma impressionante vitória desconcertante contra o suposto favorito George W. Bush nas sempre importantes primeiras primárias da nação em New Hampshire. Contudo, a partir daí sua campanha teve resultados contraditórios, à medida que não conseguiu atrair votos suficientes de eleitores republicanos em outros estados. Após derrotas em estados importantes como Califórnia e Nova York, McCain suspendeu sua campanha e acabou declarando apoio a Bush, que devolveu a Casa Branca aos republicanos naquele novembro com sua eleição para presidente.

Nos anos seguintes, o perfil de McCain na política nacional continuou em alta. O Congresso finalmente promulgou, em 2002, a legislação sobre a reforma do financiamento de campanhas, um marco de co-autoria de McCain e do senador democrata Russ Feingold. Favorável a uma forte política de defesa nacional, McCain apoiou a decisão de invadir o Iraque em 2003, embora mais tarde tenha se tornado crítico contumaz da forma como a guerra foi conduzida em seus estágios iniciais.

Reeleito para o Senado para o quarto mandato em 2004 por uma margem de 77% a 21%, McCain inicialmente era visto como um dos mais fortes concorrentes, se não o favorito, para a indicação presidencial do Partido Republicano de 2008. Porém, como uma ampla gama de candidatos republicanos entrou na corrida e começou a se organizar em 2007 para a maratona de primárias e caucuses do ano seguinte, a campanha de McCain começou a implodir, com abalos na equipe, graves problemas financeiros e quedas nas pesquisas.

A tenacidade de McCain — mesma qualidade que o fez suportar os anos de prisioneiro de guerra — provou mais uma vez ser o fator indispensável para ajudá-lo a passar por esse período difícil. “Tenho uma estratégia muito complicada para você”, disse-lhe um de seus assessores. “Mantenha-se na corrida até ser o último homem em pé.”

Foi exatamente o que fez McCain. Deixando de concorrer na primeira disputa no país, no caucus de Iowa, ele apostou e concentrou seus esforços na primária de 8 de janeiro em New Hampshire, estado de seu grande sucesso em 2000. Ao passar vários meses nesse estado e realizar 101 reuniões municipais com eleitores sabidamente independentes, foi recompensado com importante vitória sobre seus principais rivais republicanos. Embora em outros estados de eleições antecipadas as vitórias tenham sido dividas entre McCain, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney e o ex-governador de Arkansas Mike Huckabee, McCain solidificou sua posição de favorito em 5 de fevereiro nas eleições primárias da “Superterça” — realizadas simultaneamente em mais de 20 estados. Ele venceu em estados populosos como Califórnia, Illinois e Nova York, acumulando uma liderança em número de delegados que nenhum de seus rivais poderia alcançar. Em 4 de março de 2008, as vitórias em Ohio e no Texas permitiram a McCain ultrapassar o limite mínimo necessário de 1.191 delegados para garantir a indicação presidencial pelo Partido Republicano.

Uma Presidência de McCain

O problema da idade de McCain surgiu durante a campanha; se eleito, McCain fará o juramento de posse aos 72 anos, o mais velho de todos os presidentes em primeiro mandato. Ele tentou neutralizar as preocupações com sua idade e preparo físico para o cargo com uma ativa agenda de campanha e sua marca registrada de fazer piadas sobre si mesmo — brincando ser “tão velho quanto a terra” e ter “mais cicatrizes que Frankenstein”. McCain talvez passe uma mensagem sutil de que sua saúde e nível de energia estão à altura das exigências da Presidência ao levar de vez em quando sua mãe Roberta, de 96 anos de idade e cheia de vigor, aos comícios.


Em viagem de delegação parlamentar ao Afeganistão em 2005, John McCain conversa com jornalistas após reunir-se com o presidente afegão Hamid Karzai. A senadora Hillary Clinton em pé, à esquerda (© AP Images)

A plataforma eleitoral de McCain reflete seu apoio a muitas das políticas republicanas tradicionais, mas também a disposição de traçar novo rumo no que ele acredita ser necessário. Um dos primeiros francos defensores do aumento das tropas americanas em 2007 no Iraque, ele é a favor da manutenção da presença militar dos Estados Unidos naquele país e no Afeganistão — até que essas nações atinjam a estabilidade —, bem como da continuação de uma luta agressiva contra o terrorismo internacional, todos eles princípios da atual política americana. Seu plano para energia defende maior uso de energia nuclear e mais perfurações de poços de petróleo em alto-mar, ao passo que sua política econômica preconiza tornar permanentes os grandes cortes fiscais instituídos durante a Presidência de Bush.

Em outras questões, contudo, McCain prometeu uma estratégia diferente do atual governo. Enfatizou, por exemplo, uma abordagem mais colaborativa com os aliados dos EUA em questões de política externa. Comprometeu-se também com uma resposta mais ativista ao aquecimento global e às mudanças climáticas, incluindo um corte de 60% nas emissões de gases de efeito estufa do país até 2050.

Seja qual for o resultado das eleições de 2008, John McCain certamente continuará a servir ao país ao qual dedicou toda uma vida. A razão disso encontra-se em uma passagem simples, porém eloqüente, de sua autobiografia, na qual reflete sobre uma lição aprendida durante o cativeiro no Vietnã do Norte.

“Só depois de perder os Estados Unidos por certo tempo”, escreveu, “foi que percebi o quanto amo este país”.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.