Jornada de MudançasMaggie Leffler
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Escolher uma profissão é difícil. Escolher duas profissões é mais difícil ainda. Mas a ensaísta Maggie Leffler escreve que a decisão de ser ao mesmo tempo romancista e médica foi a única escolha que pareceu mais adequada. Maggie Leffler é médica, exercendo a medicina de família em Pittsburgh, Pensilvânia. Seu primeiro romance, The Diagnosis of Love [Diagnóstico do Amor], foi publicado em 2007. Seu segundo romance, The Goodbye Cousins [Os Primos do Adeus], será lançado em junho de 2009. Tenho uma clara memória do Dia da Carreira na minha escola de ensino fundamental: eu, com 9 anos, usando maria-chiquinha, levantando a mão e declarando voluntariamente que queria ser médica e escritora. Meu sonho foi recebido com mais descrença do que o do garoto que esperava jogar beisebol com os Baltimore Orioles [um time profissional]. Minha mãe e meu pai eram médicos, minha avó era romancista, e isso me inspirou, desde muito cedo, a querer realizar as duas coisas. Mais tarde, depois da morte de meus pais, compreendi que as duas profissões estavam ligadas pela sombra da minha própria mortalidade. Queria salvar a mim mesma e a meus entes queridos adquirindo conhecimento médico, mas também queria escrever algo que tivesse uma vida maior que a minha. Eu esperava somente, na hora certa, alcançar as pessoas enquanto tivesse a oportunidade. Essa foi a minha maior motivação para atender o chamado da medicina e é provavelmente a mesma razão que me leva a escrever. Desde que aprendi a ler, adorava colocar minhas próprias palavras no papel, transformando minhas pequenas verdades próprias em uma história. Como aluna da escola de ensino fundamental, comecei a escrever o que chamei de “Os Cinco Grandes” contos, que tinham como modelo uma versão menos disfuncional da minha família. Ainda durante o ensino fundamental, passei para as novelas inspiradas em Judy Blume; na escola de ensino médio, escrevi uma peça; e, um ano depois de me formar na Universidade Delaware, terminei o meu primeiro romance não publicado. Não me lembro de nenhuma época em minha vida em que não tenha escrito. A medicina, por outro lado, foi uma decisão consciente que me fez enfrentar dois grandes obstáculos: a ciência e os testes padronizados. O primeiro — inclusive química, física e química orgânica — não foi nada fácil para mim. O segundo — inclusive os Testes de Avaliação de Desempenho das Faculdades de Medicina [MCATs] — realmente desencadeou em mim ataques de pânico e me fez suar nas palmas das mãos em tal profusão que, naqueles tempos que antecederam as provas computadorizadas do conselho, eu tinha dificuldades para segurar até mesmo um lápis. Apesar disso, prossegui com os cursos “eliminatórios” exigidos, atravessei 16 semanas de inferno no curso de verão e passei pelas aulas de revisão do MCAT. No quarto trimestre do meu último ano de faculdade, me candidatei à escola de medicina. Viajando como mochileira pela Áustria naquela primavera, usei o telefone público do albergue da juventude para ligar para casa, só para ficar sabendo que havia sido recusada pela 27a escola de medicina para a qual eu havia me candidatado. Talvez eu tivesse me dedicado em demasia à literatura americana durante a faculdade; talvez eu não parecesse científica o suficiente. De qualquer forma, minha mãe viu nos tristes fatos uma oportunidade: “Agora é a sua oportunidade de realmente sonhar. O que faria se pudesse fazer alguma coisa?”, perguntou a milhas de distância da linha telefônica. “Quero escrever livros para as pessoas lerem e relerem”, respondi. Na realidade, o que me veio à mente foi: “Vou ser médica.” Era hora de eu ter o meu primeiro “emprego sério”: na Universidade de Maryland fazendo trabalho de bancada em um laboratório sem janelas secretamente chamado por mim de “O Calabouço”. Sob a direção do meu principal pesquisador, realizei algumas técnicas de laboratório — medindo com micrômetros a distância percorrida pelas proteínas separadas por um gel, tendo o tempo todo a sensação de estar medindo os minutos de minha própria vida. No tempo ocioso, enquanto esperávamos que os reagentes fervessem e os cronômetros desligassem, eu aproveitava para escrever. Logo o principal pesquisador desistiu de me perguntar sobre a escola de medicina e passou a querer saber como estava indo o meu romance, o que interpretei como sinal de fracasso duplo. Afinal de contas, eu havia enviado mais cartas com perguntas para agentes literários do que inscrições para escolas de medicina. Nenhum dos agentes mostrou interesse em ler meu manuscrito, menos ainda em me representar. Tudo levava a crer que eu passaria a vida escrevendo palavras que ninguém leria e buscando uma profissão para a qual ninguém queria que eu entrasse.
Seis meses mais tarde, em um dia frio de janeiro, tomei um avião para a ilha de Granada para iniciar meus estudos na Universidade de St. George, uma escola de medicina perto do litoral que teve a coragem de me admitir, e — igualmente incrível — eu tive a coragem de freqüentar. A vida em um país do mundo em desenvolvimento foi um período de descobertas das quais a mais importante foi: eu era inteligente, algo que eu havia começado a duvidar meses depois do recebimento do meu diploma de graduação. Em St. George, tive a idéia para um novo livro que terminei antes de minha formatura. Durante minha residência universitária em medicina de família em Pittsburgh, reescrevi o romance — e o reescrevi mais uma vez quando iniciei minha prática particular. No ano em que meu filho nasceu, The Diagnosis of Love foi selecionado para publicação. Esses anos no hospital me ensinaram que a arte de escrever e a medicina não são tão diferentes assim. A cada dia, os pacientes me privilegiam com suas histórias tortuosas, as quais passam pelo meu filtro de busca dos pontos mais importantes, obrigada pelo meu ofício a sacrificar os detalhes que mais gosto pelos que realmente importam para a história dos problemas dos pacientes. Eu me sinto honrada em ser a “editora-fantasma” necessária para suas histórias. Esta tem sido uma jornada de mudanças — tanto em minhas próprias narrativas quanto em minhas expectativas pessoais: nunca planejei deixar meu país para estudar medicina, mas essa experiência me deu algo sobre o que escrever. E na profissão médica, como na produção literária, a mudança de idéias e de pensamento não acaba nunca. Escolhas são feitas a cada dia: que conceitos antigos posso largar; o que posso manter? A medicina trata do aperfeiçoamento de um ideal ilusório; na arte de escrever, há sempre outro rascunho. Tornei-me o que queria ser quando crescesse, mas ainda estou em transformação. | ||||