Mais Poder às ComunidadesGwen Moore
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Antes da Americorps veio a Vista (Voluntários a Serviço dos EUA), criada em 1965 como parte da Guerra à Pobreza declarada pelo presidente Lyndon Johnson. Cerca de dez anos mais tarde, uma jovem afro-americana juntou-se à Vista para ajudar seu bairro em Milwaukee, Wisconsin, dando início a toda uma vida de serviço. Gwen Moore é membro da Câmara dos Deputados dos EUA, eleita em 2004, e a primeira afro-americana a representar o estado de Wisconsin no Congresso. Antes de servir como parlamentar, foi titular de um cargo eletivo do governo estadual durante 14 anos e reconhecida como Voluntária Vista no decênio de 1976-1986. “Encontraremos um caminho, ou então criaremos um.” Esse era o lema quando me juntei aos Voluntários a Serviço dos EUA na década de 1970, e tornou-se meu mantra pessoal. Fui para a Vista porque o bairro em que cresci havia perdido o rumo. Fui membro do conselho da Associação do Bairro de Midtown em minha cidade natal, Milwaukee, em Wisconsin; lutávamos para tirar as pessoas da pobreza. Morei em Midtown durante toda minha vida e percebia o pântano financeiro que sugava a comunidade.. Pessoas que ganhavam muito pouco pagavam taxas abusivas por empréstimos e seguros. As instituições financeiras tradicionais não queriam prestar serviços em bairros urbanos pobres. Os negócios ruíam e fechavam. No conselho da associação, sabíamos que a falta de recursos financeiros era um elemento determinante no declínio de nosso bairro. As instituições não investiam nos bairros vizinhos, e as oportunidades que geralmente se apresentavam em outros lugares não passavam de sonhos. O grupo do meu bairro percebeu que nossa comunidade precisava de uma instituição financeira local que lhe proporcionasse uma estrutura sobre a qual construir um futuro estável. O conselho da associação pediu-me para que eu me tornasse membro da Vista e organizasse uma iniciativa em busca de maior poder financeiro. Nosso projeto era estabelecer a Cooperativa de Crédito Cream City para o Desenvolvimento Comunitário de modo a oferecer financiamento e empréstimos básicos para projetos que criassem empregos, estimulassem as empresas locais e contribuíssem para o desenvolvimento das áreas carentes de Milwaukee. Tivemos de começar do princípio. Não tínhamos grampeadores, canetas, papel nem mesas de trabalho. Pedimos, emprestamos e negociamos preços mínimos para comprar móveis e material de escritório. Meus colegas e eu trabalhamos praticamente todas as noites, fins de semana e feriados para transformar nosso sonho em um empreendimento.
No início de novembro de meu primeiro ano, soubemos de um programa de empréstimo do governo federal que nos poderia fornecer algum capital operacional. O prazo para inscrição de 30 de novembro estava a menos de um mês. Trabalhamos dia e noite reunindo a documentação e os formulários necessários. Dias antes do prazo, trabalhamos durante o feriado de Ação de Graças, reunidos em torno da mesa de minha sala de jantar para concluir a inscrição e nosso plano de trabalho. Terminar esse trabalho comendo peru ao molho de cranberries é uma de minhas lembranças de feriado preferidas. Nossa dedicação foi bem recompensada e recebemos um empréstimo de US$ 10 mil, que nos forneceu o capital inicial para abrirmos a cooperativa de crédito. Então tivemos de conquistar os moradores da comunidade. Batendo de porta em porta, convencemos os moradores a abrir contas na Cream City. O saldo mínimo para a abertura de uma conta era US$ 50, muito dinheiro em uma comunidade na qual a maioria das pessoas vivia de ajudas assistenciais. Mas conseguimos contas suficientes para provar que a Cream City poderia tornar-se uma instituição valorizada na comunidade. Quando finalmente conseguimos abrir as portas da Cream City, fiquei estupefata com o efeito que teve sobre a comunidade. As pessoas se sentiram capazes de começar a pensar em desenvolver ativos em vez de simplesmente dar um jeito para pagar as contas. Podiam investir na comunidade por meio de um empréstimo para adquirir um imóvel ou abrir uma pequena empresa, o qual retornava para a comunidade com a contratação de seus moradores ou a melhoria de sua pequena área do bairro. As atividades econômicas em Midtown começaram a florescer. Formaram-se grupos que acabaram por montar uma lavanderia automática e uma clínica de saúde. A Cream City criou um ímpeto econômico que levou ao desenvolvimento imobiliário e melhorou a qualidade de vida. Outras empresas surgiram, o orgulho da comunidade aumentou e o bairro viveu um renascimento. Muitas pessoas acreditam que o lugar onde se nasce determina o lugar ao qual se chega. Não foi isso que aconteceu comigo, nem deveria acontecer com ninguém. A Vista — hoje conhecida como AmeriCorps-Vista — fez a diferença para mim e para a comunidade onde cresci. Hoje, mais de 30 anos depois, a área de Midtown está florescente, crescendo e orgulhosa. A Cooperativa Federal de Crédito Cream City abriu caminho para que essa pequena comunidade de uma área carente da cidade tomasse as rédeas de seu destino. A Cream City acabou por transformar-se em outra instituição, na qual minha família tem conta ainda hoje. Em minha experiência com a Vista aprendi o valor da auto-ajuda, da formação de coalizões, da cooperação inter-racial e da mobilização. Ganhei auto-confiança, paciência e fé, além de habilidades financeiras, de formação de redes de contato e de organização. Acima de tudo, percebi que grandes coisas podem ser conseguidas com a força coletiva da comunidade, o que aumentou meu compromisso com o serviço comunitário. Hoje trabalho na Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos EUA e tenho a oportunidade de ajudar outras comunidades em dificuldades. Sem meu serviço junto à Vista duvido que tivesse sido possível alcançar essa posição. Mas meu serviço na Vista não teve o propósito de empoderar a mim mesma — ele visou a empoderar as pessoas e a comunidade. Projetos como a Cooperativa de Crédito Cream City para o Desenvolvimento Comunitário são um legado da Vista porque abriram um caminho que foi seguido por outros. Esse caminho indica o rumo para sair da pobreza. | ||||