Um Rio me ConduzJeff Rennicke
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Escritor da vida ao ar livre conta como os rios o colocaram no caminho de uma profissão. Jeff Rennicke é um premiado escritor da natureza que viveu uma vida de viagens e aventuras. Sua busca por reportagens levou-o aos lugares mais inexplorados dos cinco continentes, viagens que ele relatou em 10 livros e mais de 200 artigos de revistas, em publicações como National Geographic Adventure, Backpacker e Reader’s Digest, e que lhe renderam duas medalhas de ouro pela excelência de seu trabalho outorgadas pela Sociedade de Escritores Americanos de Viagens). Ele leciona Redação e Literatura na Conserve School em Wisconsin e ainda adora remar nos rios. Sou escritor por causa de um rio. Não era grande coisa, só um velho e cansado trecho de um canal industrial, mas eu podia vê-lo da minha sala de aula no colégio. Nos dias em que os ponteiros do relógio pareciam estar grudados no lugar e as páginas dos livros escolares não avançavam, eu sentava durante horas observando o rio, sonhando. Ali estava o conto de Ernest Hemingway Big Two-Hearted River [O Grande Rio dos Dois Corações], onde Nick Adams vai pescar em busca de um novo começo de vida. Ali estava o Mississippi de Mark Twain com Huck e Jim deitados de costas a bordo de uma balsa, apontando para as estrelas com os dedos dos pés. Esse pequeno trecho de rio era, em alguns dias, a única coisa que se movia, o caminho dos meus sonhos, meu ingresso para o mundo que se encontrava depois da curva. E então, um dia, o professor mencionou Carl Sandburg. “Sei que leva muitos, muitos anos para escrever um rio”, escreveu o poeta, “uma espiral de água fazendo uma pergunta”. Naquele momento, fitando o rio pela janela, minha própria “espiral de água”, soube o que ia fazer da minha vida. Eu ia ser escritor e começaria a escrever sobre rios. A carreira de escritor não é do tipo da que te oferecem em uma feira de empregos. Não se encaixa exatamente em nenhum dos quadradinhos de resposta dos “questionários de aptidão ocupacional” aplicados por um orientador. Na produção literária você faz o seu próprio caminho, encontra seu próprio modo, uma perspectiva que é ao mesmo tempo assustadora e estimulante. Na faculdade, enquanto os outros passavam por entrevistas de trabalho e estágios, eu praticava o rolamento esquimó no meu caiaque, remava toda vez que podia e lia, lia sempre — River Notes [Notas sobre um Rio] de Barry Lopez, Coming into the Country [Campo Adentro] de John McPhee e The River Why [As Razões do Rio] de David James Duncan. Lá no fundo do meu coração, eu sabia que, se soubesse encontrá-las, os rios trariam histórias para contar, interrogações nas espirais das correntezas. Com o diploma de Inglês e Redação Criativa nas costas, aceitei o emprego de guia de rios depois de terminar a faculdade e iniciei minha busca — o Rio Colorado no Grande Canyon, os rios do Alasca com suas margens unidas em trilhas amarronzadas, rios de nomes impronunciáveis da China, da América do Sul e do Canadá. Remei em todos eles, sentei em volta das fogueiras, escutei as histórias. Ao longo do caminho, aprendi sobre os rios, sobre o tempo e sobre como escrever.
Rios silvestres são mais que simples caminhos para levar a água de cá para lá. Também são caminhos para dentro de nós. Não há como apressar um rio. Quando você chega lá, vai no ritmo da água e esse ritmo o vincula a um fluxo que é mais antigo que a vida neste planeta. A aceitação dessa cadência nos traz à memória outros ritmos que estão além dos sons do pulsar do nosso coração e nos ensinam sobre o fluxo de uma idéia, o andamento de uma boa história, o valor do tempo. Eu prestei atenção. Incorporei tudo aquilo. Então, sentei para escrever. Tanto quanto navegar rios bravios, escrever é um ato de exploração. Você dá partida na frente de uma folha em branco para explorar as montanhas, os desfiladeiros e as correntezas das idéias. Você observa atentamente as perguntas e se mantém aberto para o eco das respostas, por mais vagas que sejam. Você aperfeiçoa suas habilidades com uma caneta em vez de um remo, revela sua alma no papel e a envia para um editor de revistas. E eles dizem “não, obrigado”. Ou pelo menos eles o fazem algumas vezes. Mas você tenta de novo, outra revista, outro relato. Então, um dia, ele dizem “sim”. Sai uma revista com o seu nome, sua reportagem; algo que começou com uma idéia tão vaga como um redemoinho na correnteza do rio agora está numa revista, uma história, sua história, compartilhada com o mundo. Daí você faz tudo de novo e de novo. Após dois anos eu escrevia tanto quanto remava e o dinheiro que ganhava como guia complementava o que recebia como escritor. As revistas começaram a me chamar. Trabalhos por encomenda me levaram longe dos rios e em direção a outros lugares naturais — caminhadas entre os gigantes pardos do Kamchatka, vôos de asa delta além dos Outer Banks da Carolina do Norte, trilhas na Antártica. Logo tornei-me editor da revista Backpacker e escrevia com periodicidade para as publicações da National Geographic Society. Os artigos de revista viraram livros. Em algum momento dessa trajetória deixei de me definir como explorador e escritor de rios. Havia me tornado um escritor, e o rio flui através das palavras. Nunca houve melhor época para ser um escritor da natureza. Os livros e artigos de revistas, as histórias que contamos, sempre foram uma das formas de encontrar nosso caminho no meio da escuridão da incerteza, uma forma de abordar as grandes questões do nosso tempo. Com a mudança climática global, a crescente extinção de espécies e os inúmeros desafios ambientais que enfrentamos, a questão da relação dos seres humanos com o ambiente e o nosso lugar no mundo natural estarão entre as reflexões mais vitais da literatura, as histórias mais importantes que podemos contar. Há de fato perguntas latentes nas camadas de pedra de uma encosta de montanha, nos redemoinhos de grama de um prado e nas “espirais de água”, como escreveu certa vez um grande poeta. E também há, se soubermos como enxergar, respostas nos rios, nas montanhas e dentro de cada um de nós. O site do autor é http://www.Jeffrennicke.com | ||||